• Sexta-feira, 6 de março de 2026
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Scot Consultoria

Gestão de risco ganha protagonismo na pecuária moderna

Com maior capital investido e um ambiente de preços mais volátil, o uso de ferramentas de hedge passa a integrar a estratégia econômica das fazendas.


Nas últimas décadas, a pecuária brasileira passou por uma transformação significativa. O avanço tecnológico, com maior adoção de práticas como a terminação intensiva a pasto (TIP), recria intensiva a pasto (RIP) e o crescimento do confinamento, elevou de forma expressiva a produtividade das fazendas. Ao mesmo tempo, esse processo também ampliou o volume de capital investido na atividade. Em um cenário no qual custos, preços e margens oscilam com frequência, a gestão de risco deixou de ser um tema periférico e passou a ocupar espaço central na estratégia do pecuarista.

Nesse contexto, ferramentas de proteção de preços, como contratos a termo, operações no mercado futuro e seguros de preço mínimo, ganharam relevância nos últimos anos. À medida que a pecuária se consolida como uma atividade cada vez mais empresarial, exposta a múltiplas variáveis de mercado — como o preço do boi magro, da arroba do boi gordo e dos insumos da alimentação — cresce também a necessidade de mecanismos que tragam previsibilidade econômica à operação. É sobre esse cenário e sobre os princípios do hedge na pecuária de corte que conversamos com o analista de mercado Leandro Bovo.

O que mudou no mercado para tornar a gestão de risco uma necessidade estratégica? De que forma esses fatores aumentam a volatilidade enfrentada pelo pecuarista brasileiro?

Leandro Bovo: A pecuária brasileira teve uma evolução muito grande nos últimos 15 anos. O aumento da tecnologia empregada na pecuária, tanto na engorda a pasto, com a TIP e a RIP, o confinamento como ferramenta e o aumento do número dessa ferramenta, isso tudo fez crescer demais a produtividade. Quando você aumenta a produtividade, aumenta o investimento na atividade, consequentemente, o risco também aumenta. Então, diante disso, é natural que o produtor passe a buscar mais formas de proteção de preços. Por isso, que o mercado futuro, o boi a termo, e outras modalidades de proteção de preço cresceram tanto assim nos últimos anos. A atividade pecuária está sendo cada vez menos uma atividade mais secundária e extrativista, para ser uma atividade empresarial. E há um altíssimo capital empregado diante de muita volatilidade, principalmente no confinamento. Então, se você pensar, confinamento tem volatilidade do boi magro, do boi gordo, da comida. Eu costumo dizer que confinamento não é pecuária, confinamento é uma indústria à céu aberto, muito intensiva em capital. Então, quanto mais aumentar o uso do confinamento, maior vai ser a necessidade de gestão de risco de preço. Por isso, que o mercado futuro cresceu tanto nos últimos anos.

De forma simples, como o produtor pode entender o conceito de hedge dentro da pecuária de corte?

Leandro Bovo: Na questão de hedge, a pecuária estava um passo atrás de outras atividades, principalmente na agricultura, como soja, café, algodão etc. Nessas atividades, o conceito de hedge (de proteção de preço) é meio que natural. Nenhum produtor hoje planta soja, ou planta café, ou planta algodão sem ter o seu custo de produção definido e, obviamente, ter feito vendas futuras para proteger isso. Seja via barter – ou seja, troca de insumo para o produto –, ou por proteção de preço com as tradings, ou até mesmo na própria bolsa. Então, o conceito de hedge é justamente esse, é uma proteção para o risco de preço. É simples, é fácil, é intuitivo. E tem crescido cada vez mais na pecuária de corte, à medida que o uso de tecnologia e o aumento da produtividade vai acontecendo, aumenta também o risco e aumenta a demanda por proteção de risco, que no caso é o chamado hedge.

Dados do último levantamento do Confina Brasil nos apontaram que 44,2% dos produtores entrevistados utilizam alguma ferramenta de proteção de preços na comercialização do boi gordo. Na sua experiência, essa é uma realidade que vem se consolidando entre os produtores? Quais desafios ainda existem para que esse número cresça ainda mais?

Leandro Bovo: Sim. Tanto os números quanto a nossa própria experiência no dia a dia mostram que o produtor está cada vez mais interessado em conhecer e utilizar ferramentas de proteção de preço. Esse é um movimento que vem acontecendo nos últimos anos.

Os principais desafios para ampliar o uso dessas ferramentas são, primeiro, o conhecimento. Existem várias opções disponíveis, desde a venda a termo diretamente com a indústria, até operações no mercado futuro ou a contratação de um seguro de preço mínimo. No entanto, especialmente o mercado futuro e o seguro de preço mínimo ainda são pouco conhecidos por grande parte dos produtores. Essa realidade está mudando, mas de forma gradual. A informação ainda não chega à ponta final da maneira como deveria, embora o conhecimento esteja avançando aos poucos.

O segundo desafio é ajudar o produtor a escolher a ferramenta mais adequada para a sua realidade. Não existe uma receita de bolo. Como há diferentes instrumentos disponíveis, cada um pode ser mais interessante dependendo do perfil do produtor e do momento de mercado. Por isso, contar com uma assessoria especializada para orientar essa decisão também é um ponto importante.

Sabemos que muitos produtores buscam proteção nos momentos de baixa, quando o medo de “perder” fala mais alto, mas tendem a renunciar ao hedge nas altas, com receio de “deixar dinheiro na mesa”. Como evitar que essa decisão emocional comprometa a estratégia?

Leandro Bovo: É, realmente essa é uma realidade. A gente até brinca que o produtor quer fazer o seguro da casa depois que o ladrão já entrou. Ou seja, depois que o cadeado foi arrombado, não adianta mais correr para fazer o seguro. Mas isso acontece e é algo bastante comum da natureza humana. Quando o mercado está em alta e o ambiente é de muito otimismo, o produtor tende a relaxar um pouco e sente que não há necessidade de fazer a proteção de preços. Quando, na verdade, é justamente o contrário.

A gente costuma dizer também que a hora de consertar o telhado é quando está sol. Se você deixa para consertar quando começa a chover, o conserto fica mais caro e dificilmente será feito da melhor forma. Então existe esse comportamento: quando todo mundo está otimista, a sensação de risco diminui e a proteção acaba sendo deixada de lado. Só que é exatamente nesse momento que ela deveria ser feita. Primeiro porque o custo da proteção costuma ser menor e, segundo, porque com o mercado em alta normalmente é possível travar condições de preço muito mais favoráveis.

Como funciona a trava de margem/custo de produção e de que forma ela pode trazer previsibilidade econômica para a operação?

Leandro Bovo: Uma das diversas formas de proteção de preço, e sem dúvida a mais simples delas, é a trava de preço mínimo, ou o chamado seguro de preço mínimo. O funcionamento é muito parecido com o seguro de um carro. No seguro do carro, você paga um valor para a seguradora e, se acontecer algum problema – como um roubo ou um acidente – a seguradora garante aquele valor para você. No caso do seguro de preço mínimo, a lógica é a mesma. Você paga um valor e, a partir daí, se a arroba cair abaixo do nível de preço que você contratou, recebe a diferença.

Na prática, isso significa que, se você fizer um seguro em um nível próximo ao seu custo de produção, garante que não terá prejuízo na operação pecuária, seja em confinamento, na TIP ou mesmo na engorda a pasto. É uma ferramenta simples, relativamente barata e fácil de usar. Se o mercado subir, o produtor aproveita toda a alta normalmente. Mas, se o mercado cair, ele está protegido a partir daquele nível de preço que contratou.

O ideal é fazer esse seguro gastando o mínimo possível. A gente costuma dizer que o seguro é feito justamente para não precisar usar. E, para isso, o objetivo é pagar o menor custo possível por essa proteção. De forma geral, tenta-se gastar algo em torno de 1,0% do valor da arroba. Se com cerca de 1,0% do valor da arroba o produtor consegue contratar um seguro que garanta pelo menos o seu custo de produção, já é uma operação bastante interessante. Assim ele passa a ter a tranquilidade de saber que não terá prejuízo naquela operação pecuária. É uma modalidade que tem crescido bastante e que é muito adequada para diferentes perfis de produtores.

Existe um perfil de produtor ou tamanho mínimo de operação para que o hedge faça sentido economicamente? Qual seria o primeiro passo para começar?

Leandro Bovo: Não existe um tamanho mínimo de produtor para acessar o mercado futuro e fazer proteção de preço. O que existe é o tamanho padrão do contrato, que hoje é de 330 arrobas. Na prática, isso significa que qualquer produtor que tenha esse volume já poderia utilizar essa ferramenta. Estamos falando, por exemplo, de algo em torno de 18 ou 19 bois de 20 arrobas. Ou seja, não é algo restrito apenas a grandes produtores. Eu costumo dizer que aprender a usar o mercado futuro é parecido com aprender a andar de bicicleta. Se eu explicar como funciona, a pessoa provavelmente vai entender a lógica. Mas só vai aprender de verdade quando subir na bicicleta e começar a pedalar. No mercado futuro acontece a mesma coisa. Por mais que o produtor leia e estude sobre o assunto, o aprendizado real vem na prática — seja contratando um seguro de preço mínimo ou fazendo uma venda no mercado futuro para entender como a operação funciona.

O primeiro passo para isso é abrir uma conta em uma corretora. O ideal é que seja uma corretora especializada em contratos agropecuários. Hoje os bancos também oferecem esse acesso, mas normalmente o produtor tende a ser melhor atendido em uma corretora que tenha foco no mercado agropecuário. Isso porque, além de viabilizar as operações na bolsa, essas corretoras funcionam como um grande hub de informações. Elas atendem clientes de diferentes regiões do Brasil, com perfis e escalas de produção variadas, e isso gera um fluxo muito grande de informações. Essa troca de conhecimento e de percepção de mercado acaba agregando muito valor e ajuda o produtor a tomar decisões mais bem informadas no dia a dia.

Este também será um dos temas do Encontro de Confinamento e Recriadores da Scot Consultoria, que acontece entre os dias 7 e 10 de abril em Ribeirão Preto-SP e Barretos-SP. O analista Leandro Bovo sobe ao palco do evento para destrinchar o tema “Enfrentando a volatilidade do mercado: princípios de hedge”. Inscreva-se através do site www.confinamentoerecria.com.br

Leandro Bovo

Médico-veterinário, pós-graduado pela ESPM, possui MBA em finanças pelo Insper-SP e é sócio-diretor da Radar Investimentos.

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