Lições do sistema de produção de carne nos EUA que podem tornar as vantagens brasileiras mais efetivas diante o mercado global.
Bela Magrela
A pecuária brasileira passa por um processo de transformação, mantendo posição de destaque como maior exportadora de carne bovina e avançando na intensificação da produção. Hoje, cerca de 20,0% dos bovinos abatidos no país são terminados em confinamento, enquanto nos Estados Unidos esse sistema chega a aproximadamente 90,0%, garantindo maior padronização e escala. Mesmo com alta tecnificação, a pecuária estadunidense enfrenta desafios recentes, como redução do rebanho, questões sanitárias, tensões geopolíticas e maior volatilidade de mercado — temas que serão discutidos pelo zootecnista e consultor, Octávio Guimarães, que será um dos palestrantes do bloco de mercado do Encontro de Confinamento e Recriadores da Scot Consultoria.
Octavio, durante muito tempo o produtor brasileiro olhou para os Estados Unidos como um modelo de eficiência na produção de carne bovina. O que mudou no sistema americano nos últimos anos que exige uma nova leitura desse modelo? E o que os episódios recentes revelam sobre a vulnerabilidade do sistema da carne norte-americano?
Octávio Guimarães: Os Estados Unidos continuam sendo uma grande referência em produtividade, tecnologia, organização e qualidade da cadeia da carne. No entanto, os últimos anos mostraram que mesmo um sistema extremamente eficiente pode ser vulnerável quando analisamos o conjunto da cadeia. O país vive hoje o menor rebanho bovino em mais de 60 anos, resultado de uma combinação de seca prolongada, custos elevados de produção e mudanças estruturais no sistema pecuário. Ao mesmo tempo, episódios como fechamentos recentes de unidades de abate e a crescente concentração industrial evidenciaram como choques pontuais podem provocar impactos imediatos em todo o mercado. Outro ponto importante é que a pecuária hoje está muito mais conectada com fatores externos e globais. Questões sanitárias, disputas comerciais, juros elevados e até tensões geopolíticas — como por exemplo o fechamento da fronteira do México para entrada de animais nos Estados Unidos, ou mais recentemente os conflitos no Oriente Médio, que impactam energia e custos de produção — acabam influenciando diretamente o ambiente de negócios da cadeia da carne.
O que esses eventos mostram é que o maior desafio da pecuária moderna não está apenas na eficiência produtiva, mas na capacidade de entender e gerenciar os riscos do sistema como um todo.
O Brasil tem vantagens claras — disponibilidade de área, clima favorável, base genética adaptada e capacidade de crescimento da produção. Na sua avaliação, o que o país precisa aprender com os erros e desafios enfrentados pelo sistema estadunidense para evitar repetir esses mesmos problemas no futuro?
Octávio Guimarães: O Brasil possui, sem dúvida alguma, o maior potencial de crescimento na produção de carne bovina no mundo. Temos recursos naturais abundantes, tecnologia tropical avançada e um setor produtivo extremamente dinâmico. Mas o que a experiência americana mostra é que o sucesso da pecuária moderna depende cada vez menos apenas da produção dentro da porteira e cada vez mais da capacidade de gestão do sistema como um todo. O setor precisa prestar atenção nos desafios sistêmicos, como estrutura consolidada da comercialização, dependência e política de mercados externos, e gestão de risco. São fatores que influenciam diretamente a rentabilidade do produtor. O Brasil tem uma grande oportunidade porque ainda está em fase de expansão e pode aprender com experiências internacionais. Isso permite ao país evoluir não apenas em produtividade, mas também em planejamento estratégico e organização da cadeia da carne.
Um dos pontos que você destaca em sua análise é a concentração industrial na cadeia da carne nos Estados Unidos. Na sua visão, o Brasil está caminhando para uma estrutura semelhante em termos de poder de mercado dos frigoríficos?
Octávio Guimarães: Nos Estados Unidos, os quatro maiores frigoríficos concentram cerca de 80,0–85,0% do abate bovino, o que cria uma estrutura bastante concentrada e com grande poder de mercado por parte da indústria. No Brasil, acredito que a estrutura comercial caminha na mesma direção. No entanto, como a produção ainda possui uma enorme oportunidade de crescimento, essa consolidação pode acabar sendo mais diluída caso o setor consiga expandir capacidade de abate e novos polos produtivos ao longo do tempo. Isso poderia contribuir para manter um ambiente mais competitivo em algumas regiões.
De qualquer forma, a tendência global da indústria de alimentos é de consolidação. Operações em grande escala, acesso a capital e presença em mercados internacionais naturalmente favorecem empresas maiores. Por isso é fundamental que o setor acompanhe esse movimento com atenção. A estrutura da indústria frigorífica influencia diretamente na formação de preços, no poder de negociação e na dinâmica do mercado pecuário. Mais do que apenas observar esse processo, é importante que o produtor entenda como esse jogo funciona dentro da cadeia da carne e saiba se posicionar estrategicamente, inclusive na escolha de parceiros comerciais.
Em sistemas cada vez mais intensivos, o giro de capital passa a ser quase tão importante quanto o desempenho zootécnico. Onde os produtores normalmente erram nessa equação entre produção, mercado e gestão financeira?
Octávio Guimarães: A intensificação da pecuária transformou o confinamento em uma atividade altamente dependente de capital e de gestão financeira. Muitos produtores, inclusive no Brasil, dominam muito bem a parte produtiva e técnica — genética, nutrição, manejo — mas acabam subestimando a importância do giro de capital e da gestão de risco. Em operações intensivas, pequenas variações em custos, juros ou preço de venda podem alterar significativamente o resultado final. Por isso, decisões como momento de compra de reposição, estratégia de venda e comercialização, utilização de ferramentas de proteção de preço passam a ser tão importantes quanto o desempenho zootécnico.
A pecuária moderna exige cada vez mais uma visão empresarial do negócio.
Octavio, você será um dos palestrantes no bloco de mercado do Encontro de Confinamento e Recriadores da Scot Consultoria, em abril. Se o produtor sair da sua palestra levando apenas uma reflexão estratégica para dentro da fazenda, qual deveria ser?
Octávio Guimarães: A principal reflexão é que o maior risco da pecuária moderna não é o ciclo pecuário. O verdadeiro risco é sistêmico. Hoje o preço do boi e a rentabilidade da atividade podem ser influenciados por fatores que vão muito além da produção dentro da fazenda: sanidade regional e global, política internacional, estrutura da indústria, crédito, mercado financeiro e fluxo global de proteína. O produtor que conseguir entender esse sistema e antecipar riscos terá uma vantagem competitiva importante nos próximos anos.
A pecuária brasileira tem um potencial enorme de crescimento, mas o próximo salto do setor virá não apenas da produtividade, e sim da capacidade de gerenciar risco e tomar decisões estratégicas dentro da cadeia global da carne.
O consultor internacional de confinamento, Octávio Guimarães, estará no Encontro de Confinamento e Recriadores, que ocorre entre os dias 7 e 10 de abril, em Ribeirão Preto-SP e Barretos-SP. Para ter a oportunidade de assistir a esta e outras palestras que promove o conhecimento aplicável, garanta agora seu ingresso.
Zootecnista formado pela UNESP Jaboticabal, com Mestrado e Doutorado pela Colorado State University, nos Estados Unidos. Consultor internacional de confinamento, especialista em eficiência e estratégia na pecuária de corte, e fundador e diretor da ADG Beef.
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