Avanços na produção in vitro de embriões, programação fetal e retenção de fêmeas impactam a oferta de bezerros e a produtividade do rebanho.
Da evolução da produção de embriões à importância da programação fetal, passando pelos efeitos do ciclo pecuário sobre a oferta de bezerros, os desafios e oportunidades estão cada vez mais conectados. Nesta entrevista, o professor Roberto Sartori analisa como esses fatores se integram e influenciam diretamente a produtividade, a eficiência reprodutiva e o futuro do rebanho nacional.
A Sociedade Brasileira de Tecnologia de Embriões (SBTE) tem um papel histórico no avanço da reprodução no país. Olhando para essa trajetória, quais foram as principais transformações na produção embrionária nas últimas décadas e quais tendências devem moldar o futuro dessa tecnologia no Brasil?
Roberto Sartori: A SBTE completou 40 anos no ano passado, ou seja, são quatro décadas produzindo e disseminando conhecimento relacionado à reprodução animal — não exclusivamente à produção de embriões, mas a toda a biotecnologia envolvida. A inseminação artificial em tempo fixo, por exemplo, é amplamente divulgada, discutida e difundida por meio da SBTE.
Em relação aos embriões, arrisco dizer que números extraoficiais indicam que o Brasil é o maior produtor do mundo, acima dos Estados Unidos. Oficialmente, talvez estejamos um pouco abaixo, mas, na prática, somos líderes. Isso é resultado das pesquisas e do trabalho incansável dos laboratórios de produção in vitro de embriões no país.
Dito isso, a biotecnologia mais utilizada atualmente é justamente a produção in vitro de embriões. E o futuro é bastante claro: vamos dominar cada vez mais essa tecnologia. O próximo passo será aprimorar o controle e obter resultados mais consistentes com embriões criopreservados, seja por vitrificação ou congelamento, permitindo a transferência direta com maior eficiência.
À medida que esses avanços ocorram, a tendência é que a transferência de embriões passe, gradualmente, a substituir a inseminação artificial. Esse é o caminho.
No futuro, chegaremos a um cenário em que será possível, por exemplo, escolher um embrião como quem seleciona um produto na prateleira de um supermercado: um embrião sexado, com características específicas — X, Y e Z —, com expectativa de prenhez definida e garantia de manutenção da gestação até o final. Esse é o futuro — e não vejo que ele esteja tão distante.
Além disso, não apenas iremos melhorar os índices reprodutivos, como também aceleraremos ainda mais o ganho genético do nosso rebanho.
Sabemos que o ambiente é determinante no desenvolvimento, mas o desempenho do bezerro começa muito antes do nascimento. Como o senhor enxerga o papel da nutrição e da saúde da matriz na expressão do potencial genético e na qualidade desse bezerro ao longo da vida produtiva?
Roberto Sartori: O ambiente em que o bezerro está inserido influencia diretamente seu desempenho e desenvolvimento. No entanto, não se trata apenas do ambiente após o nascimento, mas também das condições dentro da barriga da mãe — o que chamamos de programação fetal.
Existe um momento ideal ao longo da gestação, considerando as estações do ano, em que esse efeito positivo se expressa com mais intensidade no desenvolvimento do feto. Um bom exemplo é o chamado “bezerro do cedo”. A vaca que emprenha no início da estação reprodutiva — que, em grande parte do Brasil, corresponde aos meses de outubro e novembro — conduz a gestação em um período em que há melhor oferta de nutrientes, justamente na fase em que o feto mais demanda aporte nutricional para seu desenvolvimento intrauterino.
Quando essa condição não ocorre naturalmente via pastagem, cabe ao produtor e ao técnico atuar de forma estratégica, garantindo suplementação adequada, seja com forragens conservadas ou rações, sempre com foco no desenvolvimento desse bezerro ainda no útero. Esse cuidado resulta em um animal diferenciado desde o nascimento, com reflexos produtivos ao longo de toda a vida.
O “bezerro do cedo”, que passou por uma programação fetal adequada, apresenta maior peso à desmama e mantém esse diferencial até o abate.
Além disso, um ponto que tem recebido atenção crescente nos estudos são as fêmeas. Tanto aquelas destinadas ao abate quanto as que seguem para a reprodução apresentam melhor desempenho quando oriundas desse contexto. As bezerras do cedo, especialmente, tendem a responder melhor ao manejo reprodutivo, tanto na estação inicial quanto nos ciclos subsequentes.
Um exemplo claro são as chamadas novilhas de um ano: aquelas que emprenham mais cedo e apresentam menores taxas de perda gestacional são, em grande parte, justamente essas novilhas oriundas de concepções no início da estação.
Em síntese, o alinhamento entre nutrição nos momentos-chave — concepção, gestação, parição e desmama — é determinante para o desempenho produtivo e reprodutivo. Esse processo deve estar sempre associado a um manejo sanitário rigoroso, com vacinação e demais práticas recomendadas pelos médicos-veterinários.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) tem apontado, com base em dados do rebanho brasileiro, um aumento no descompasso entre nascimentos e abates, indicando um possível déficit de bezerros. Na sua avaliação, esse cenário é consequência do momento recente do ciclo pecuário, marcado por anos consecutivos de elevado abate de fêmeas, ou reflete um descompasso estrutural dentro do sistema, em que os ganhos de eficiência na recria e terminação avançam mais rápido do que a capacidade da cria de repor bovino?
Roberto Sartori: O ciclo pecuário interfere de forma decisiva na cadeia produtiva da pecuária de corte. O produtor, em muitos casos, ainda age de maneira mais emocional do que racional, com certo grau de impulsividade, o que leva a decisões mais radicais.
Quando o preço do bezerro está baixo, há um aumento no abate de fêmeas, o que acelera o ciclo pecuário. Além disso, esse ciclo vem se tornando mais curto, à medida que passamos a reproduzir e abater animais cada vez mais jovens, o que também contribui para essa dinâmica.
Esse descompasso no mercado está diretamente ligado a esses extremismos no manejo e nas tomadas de decisão dentro dos sistemas de produção.
No cenário atual, com a valorização do preço do bezerro, o movimento se inverte: volta-se a reter fêmeas em larga escala. Já há relatos de milhares de vacas que estavam em confinamento, prontas para o abate, sendo redirecionadas para a reprodução.
Diante disso, é possível esperar que, em pouco tempo, haja um aumento significativo na oferta de bezerros, o que tende a pressionar os preços para baixo, dando continuidade ao ciclo.
Em síntese, essa é uma dinâmica difícil de mudar, principalmente em função do padrão de comportamento ainda predominante na tomada de decisão dos produtores.
Considerando um cenário para 2026 de valorização do bezerro e maior retenção de fêmeas, olhando para dentro da fazenda, como essa decisão pode impactar os índices produtivos, especialmente taxa de prenhez e desmama? Até que ponto essa pressão por segurar fêmeas pode comprometer a eficiência do sistema no curto e médio prazos?
Roberto Sartori: Eu mencionei que fêmeas que estavam prontas para o abate estão sendo direcionadas para a reprodução. No entanto, esse não é o melhor tipo de matriz para se trabalhar. São, em geral, vacas obesas, com excesso de gordura, o que está associado a uma fertilidade abaixo do ideal.
Diante disso, é esperado que os resultados reprodutivos com esse tipo de animal não sejam os melhores. Além disso, em muitas fazendas, o aumento no preço do bezerro levou à retenção de um número maior de fêmeas, o que pode gerar uma sobrecarga no sistema nutricional. Com mais bovinos, há maior pressão sobre as pastagens, elevando o risco de falta de forragem e de comprometimento da condição corporal dos animais.
Nessas condições, os animais podem não atingir o escore corporal ideal para maximizar o desempenho reprodutivo. Ou seja, embora o número de fêmeas em reprodução aumente — o que pode sustentar a produção total de bezerros —, a eficiência reprodutiva tende a cair.
Em termos práticos, em vez de trabalharmos com taxas de prenhez ao final da estação próximas de 80,0%, esse indicador pode sofrer redução.
Para finalizar, o senhor estará conosco em abril no Encontro de Confinamento e Recriadores da Scot Consultoria. Qual será o pilar da sua fala durante o evento?
Roberto Sartori: Vai ser um prazer estar participando do Encontro de Confinamento de Recriadores da Scot Consultoria. Fiquei muito feliz com o convite e a ideia é a gente abordar o tema como produzir o bezerro que vai te dar um alto desempenho lá na frente, seja para reprodução, seja para recria, terminação ou abate. Nos vemos lá!
Como produzir ou escolher o bezerro certo para o seu sistema? Essa pergunta será respondida pelo professor Sartori no Encontro de Confinamento e Recriadores da Scot Consultoria, que acontece entre os dias 7 e 10 de abril em Ribeirão Preto-SP e em Barretos-SP. Garanta agora seu ingresso!
Médico veterinário pela FMVZ/USP. Fez residência e mestrado na mesma instituição. Possui Doutorado e Pós-doutorado em Dairy Science (Universidade de Wisconsin). É professor Associado do Departamento de Zootecnia (ESALQ/USP) e professor orientador no Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal e Pastagens (ESALQ/USP).
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