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Exportação de carne bovina: amiga ou inimiga?

O debate sobre a exportação de carne bovina cresceu nos últimos anos, com algumas correntes de pensamento apontando-a como contrária ao consumo interno.


Foto: Shutterstock

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Os seguidos recordes da exportação geraram debates, em que um dos argumentos foi a possibilidade da diminuição da disponibilidade interna de carne bovina.

Na Argentina, sob essa ótica, medidas de contenção da exportação foram tomadas para atenuar a inflação. Ações desse tipo começaram em 2008, para diversos alimentos além da carne bovina.

Para conversar sobre isso, adotamos o conceito de disponibilidade interna, que é o resultado da soma da produção e da importação, e subtração da exportação, dividido pela população.

A exportação de carne bovina é uma espécie de motor para aumento de produção. A demanda externa (como comumente é chamada a exportação) estimula a produção (o Brasil é o maior exportador do mundo), onde os ganhos beneficiam a cadeia através do aumento da produtividade e, assim, não prejudicam a disponibilidade interna.

Figura 1. 
Produção, exportação, importação e a disponibilidade interna, em milhões de toneladas de carcaça, anual, no Brasil.
Fonte: Secex, IBGE / Elaborado por Scot Consultoria

Nos últimos 29 anos, na série histórica, é notável o avanço da exportação e da produção de carne bovina, assim como da disponibilidade interna de carne bovina (aquilo que fica para consumo no Brasil).

A produção brasileira cresceu 232,8% nesse intervalo. A exportação cresceu 5.791,0%, e a importação caiu 61,0%. Mesmo com o crescimento de quase 25 vezes mais que a produção, a exportação não diminuiu a disponibilidade interna, cujo crescimento foi de 105,7%.

A importação de carne bovina nada afetou, pois, comparada à produção e à exportação os números são marginais.

A produção de carne oscila ao longo de cada ano, dependendo de fatores intrínsecos à pecuária de corte, e ao ciclo pecuário de preços. A oferta ou retenção de fêmeas, a depender da rentabilidade da cria (produção de bezerros), faz com que ocorra uma maior ou menor produção de carne, como consequência da maior ou da menor oferta de matéria-prima (bovinos).

Não apenas isso. Mas a atividade tem atingido patamares produtivos interessantes. Em um ciclo de 10 anos, atualmente, até três bovinos com o mesmo peso, são abatidos. Antigamente era apenas um. O intervalo diminuiu em três vezes, mostrando maior eficiência produtiva e, consequentemente a produção triplicou. Em sistemas intensificados, ocorre o abate de até cinco bovinos num ciclo de 10 anos.

Olhando para os anos recentes, de 2020 em diante, quando a exportação cresceu fortemente, vemos uma situação “confortável” para a carne.

Figura 2. 
Produção e exportação, em milhões de toneladas de carcaça, e a participação da exportação na produção, mês a mês, no Brasil.
*estimativa
Fonte: Secex, IBGE, MAPA / Elaborado por Scot Consultoria

Chama a atenção a crescente participação da exportação na produção. Apesar disso a produção crescente garantiu a disponibilidade em índices sempre maiores que no início dos anos 2000 (início das políticas de incentivo – ou pelo menos tirada do desincentivo – à exportação).

O fato de a exportação não ter reduzido a disponibilidade interna de carne no período analisado demonstra que a dinâmica entre produção e exportação ocorre quase que de forma sincronizada, onde o incentivo para atender o mercado externo vem correlacionado com um aumento de produção, o que, consecutivamente, aumenta a disponibilidade interna.

Ou seja, em momentos de ganho produtivo/produção, o crescimento da oferta foi suficiente para atender simultaneamente o avanço das exportações e o aumento da disponibilidade interna. Nesse contexto, a exportação atuou como vetor de crescimento da cadeia, estimulando ganhos em eficiência e diluição de custos.

Algumas linhas de pensamento apontam para que, em períodos de ajuste da oferta, com menor disponibilidade de animais para abate, a produção perde ritmo, e, nesse cenário, a exportação passa a competir com o mercado interno pela matéria-prima disponível.

É justamente nesse ponto que surge a percepção da exportação como “vilã”. Não por reduzir estruturalmente a oferta, mas por intensificar a disputa por um volume momentaneamente menor de carne bovina.

Fator que interfere no preço. Porém, o mercado se ajusta. Os preços se equiparam na medida em que o importador de carne passa a pagar mais, o preço interno se ajusta a ponto de manter a competitividade, e não “perder” essa carne para o mercado doméstico.

Figura 3. 
Variação da disponibilidade interna e preço da carne bovina, em base 100, mensal, no Brasil.
Fonte: Secex, IBGE, Scot Consultoria

Para o consumidor brasileiro, cuja demanda é altamente sensível à renda, esse movimento pode resultar em substituição por proteínas cujos preços estejam mais acessíveis, como a carne de frango e a suína.

Outro ponto relevante nesse contexto é a relação entre o preço da carne bovina no mercado doméstico e a cotação da arroba do boi gordo. Em momentos de maior demanda externa, a sustentação dos preços da arroba tende a ocorrer mesmo diante de oscilações no consumo interno, refletindo a maior competição pela matéria-prima.

No entanto, o repasse dessa elevação ao consumidor final nem sempre ocorre na mesma intensidade ou velocidade. Em um ambiente de renda pressionada, aumentos na cotação da arroba podem resultar em compressão das margens da indústria frigorífica e do varejo, limitando ajustes de preços mais intensos da carne no mercado interno.

Já em cenários de oferta menor, como o esperado com o avanço da retenção de fêmeas, a elevação da cotação da arroba tende a encontrar maior espaço para repasse ao consumidor, reforçando a pressão sobre os preços da carne bovina e, consequentemente, sobre o consumo.

Dessa forma, a exportação não altera o volume disponível, mas o nível de preços e, consequentemente, o padrão de consumo.

Figura 4. 
Preço da carne bovina, deflacionada pelo IGP-DI, e IPCA peso mensal, em porcentagem.
Fonte: IBGE, Scot Consultoria

A trajetória do preço real da carne bovina apresenta relação próxima com sua participação no orçamento das famílias, medida pelo peso no IPCA. Esse movimento sugere que, mesmo diante de oscilações de preço, o consumo de carne bovina mantém certa rigidez no curto prazo, preservando sua relevância na cesta de consumo.

No entanto, essa relação também reflete os limites dessa rigidez, uma vez que, em ambientes de preços persistentemente elevados, a substituição por proteínas mais acessíveis tende a ganhar força. Fato que ainda não ganhou força em 2026.

Para 2026, o mercado de carne bovina deve ser diferente daquele observado no período recente de forte expansão da oferta.

Os sinais de retenção de fêmeas, após anos de elevada taxa de abate, indicam uma desaceleração no crescimento da produção (mas ainda o segundo volume da série histórica).

Ao mesmo tempo, a demanda externa permanece aquecida, sustentada principalmente pela continuidade das compras chinesas. Assim, não há indicativos de retração relevante nas exportações brasileiras.

Esse conjunto de fatores sugere um cenário de maior restrição relativa da oferta interna, ainda que a produção se mantenha em patamares historicamente elevados.

Nesse contexto, a exportação deixa de atuar apenas como motor de expansão produtiva e passa a exercer papel relevante na formação dos preços domésticos.

Ao estimular investimentos, ganhos em produtividade e crescimento da produção ao longo das últimas décadas, a exportação pode assumir um papel desafiador em momentos de restrição de oferta, ao intensificar a concorrência entre mercado interno e externo.

Assim, mais do que determinar o volume produzido, o desempenho das exportações em 2026 será decisivo para definir o nível de preços da carne bovina no Brasil e o grau de acesso do consumidor doméstico ao produto.

Originalmente publicado por Agroanalysis FGV

Pedro Gonçalves

Engenheiro agrônomo, formado pela FCAV/Unesp, Jaboticabal/SP. Atua na área de ciências agrárias, análises e consultoria de mercados agropecuários. Analista de mercado, com elaboração e realização de análises setoriais e pesquisas nos mercados do boi, carne e mercados internacionais, com enfoque para commodities agrícolas. Técnico da pesquisa-expedicionária “Confina Brasil” e coordenador da equipe de mídias sociais da Scot Consultoria

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