Análise de todas as safras de soja desde 2000 mostra que o fenômeno tende a favorecer o vigor das lavouras no Sul, e aumenta o risco climático em Mato Grosso e Goiás.
Foto: Magnific
A importância da soja para o Brasil dispensa apresentações. Trata-se da principal cultura agrícola do país, com peso direto na renda do produtor, na balança comercial, na demanda por fretes, armazenagem, insumos e no funcionamento de boa parte da cadeia do agronegócio. Por isso, qualquer sinal de mudança no clima durante a safra naturalmente ganha atenção.
Nos últimos meses, também não faltaram textos sobre formação de um super El Niño no Pacífico. O tema já entrou no radar do mercado, dos produtores e dos analistas, principalmente porque o fenômeno costuma alterar o padrão de chuvas no Brasil durante a primavera e o verão.
O problema é que boa parte da discussão costuma parar na constatação mais óbvia: “El Niño pode afetar a safra”. Isso é verdade, mas diz pouco. A pergunta relevante é outra: afeta onde, de que forma e com que intensidade?
Foi com esse objetivo que esta análise comparou 25 safras de soja, separando anos de El Niño, La Niña e neutralidade, para observar como o vigor das lavouras respondeu nos principais estados produtores do Brasil.
Antes de avançar para os dados, vale relembrar rapidamente o que é o ENSO, sigla usada para descrever as variações de temperatura no Oceano Pacífico equatorial. Quando essa região do oceano fica mais quente que o normal, temos o El Niño. Quando fica mais fria, temos a La Niña. Quando as temperaturas ficam próximas da média, o cenário é considerado neutro.
Essas mudanças na temperatura do Pacífico alteram a circulação atmosférica e, com isso, influenciam o padrão de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do Brasil.
De forma geral, anos de El Niño costumam estar associados a maior volume de chuvas na região Sul, temperaturas mais elevadas e maior risco de irregularidade das precipitações no Centro-Oeste, além de atraso no início da estação chuvosa e maior risco de seca em áreas do Norte e do Nordeste. A La Niña, por sua vez, tende a provocar efeitos opostos nessas mesmas regiões.
O ponto central, porém, é que o ENSO não determina o que vai acontecer em uma safra específica. Ele altera probabilidades. Em anos de El Niño, por exemplo, é comum chover melhor no Sul, mas isso não impede que alguma região do Rio Grande do Sul enfrente estiagem. Da mesma forma, um El Niño não significa, automaticamente, quebra de safra no Centro-Oeste.
Por isso, olhar apenas uma safra pode levar a conclusões erradas. Mas, quando várias safras são comparadas em conjunto, separando anos de El Niño, La Niña e neutralidade, as tendências médias ficam claras.
Para avaliar a relação entre ENSO e vigor das lavouras, a análise utilizou o EVI (Enhanced Vegetation Index, ou Índice de Vegetação Aprimorado), um indicador de sensoriamento remoto usado para medir a saúde, a densidade e o vigor da vegetação. Em termos práticos, quanto maior o EVI, mais verde e ativa tende a estar a lavoura, quanto menor, maior o indício de estresse ou perda de vigor.
O recorte considerou cinco dos principais estados produtores de soja do Brasil: Paraná, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Goiás. Além da relevância produtiva, esses estados têm uma característica importante para este tipo de análise, já possuindo áreas consolidadas de soja no início dos anos 2000, o que permite comparar uma série longa com menor distorção.
Para evitar confundir o efeito do clima com o efeito da abertura de novas áreas agrícolas, a coleta do EVI foi restrita aos talhões que já eram classificados como soja em 2000 e continuaram sendo soja em 2024, segundo o MapBiomas. Ou seja, a comparação foi feita sempre sobre uma base relativamente estável de áreas produtivas, e não sobre regiões que passaram a produzir soja apenas nos anos recentes.
Com isso, a análise observa como o vigor médio dessas mesmas áreas variou ao longo de 25 safras, separando os anos entre El Niño, La Niña e neutralidade. O objetivo não é avaliar cada propriedade individualmente, mas identificar se existe um padrão estadual médio de resposta das lavouras aos diferentes cenários do ENSO.
A figura 1 mostra a área estável com soja considerada na análise, com destaque para os estados selecionados.
Figura 1.
Área com soja considerada na análise
Fonte: IBGE, Mapbiomas / Elaborado por Scot Consultoria
O EVI foi analisado nos meses de dezembro e janeiro, fase em que a soja está, em geral, entre o crescimento vegetativo e o enchimento de grãos, período decisivo para a formação da produtividade.
A classificação de cada safra foi feita com base na tabela oficial da NOAA, que acompanha a temperatura do Pacífico equatorial pelo índice ONI, durante o período dezembro-janeiro-fevereiro.
Das 25 safras analisadas, 9 foram de El Niño, 5 neutras e 11 de La Niña. Com essa divisão, foi possível comparar o vigor médio das lavouras em cada cenário climático.
A tabela 1 resume o vigor médio da lavoura em cada estado, separado pelos três grupos. Lembre que a escala vai de zero a um, quanto maior, mais verde e saudável estava a lavoura na média daquele grupo de safras.
Tabela 1.
Vigor médio da soja (EVI dez-jan) por estado e grupo ENSO.
| Estado | La Niña (n=11) | Neutro (n=5) | El Niño (n=9) | Diferença El Niño − La Niña |
|---|---|---|---|---|
| RS | 0,466 | 0,482 | 0,505 | +0,039 (+8%) → El Niño favorece o Sul |
| PR | 0,600 | 0,634 | 0,621 | +0,021 (+3%) → sinal fraco |
| MS | 0,619 | 0,620 | 0,600 | −0,019 (−3%) → sinal fraco |
| GO | 0,639 | 0,590 | 0,584 | −0,055 (−9%) → La Niña favorece o CO |
| MT | 0,650 | 0,636 | 0,613 | −0,037 (−6%) → La Niña favorece o CO |
Fonte: NASA (MODIS) via GEE, Mapbiomas via GEE / Elaborado por Scot Consultoria
Nos dados, o Rio Grande do Sul é o caso mais claro. Em anos de El Niño, o EVI médio ficou em 0,505, em anos de La Niña, caiu para 0,466, diferença de 8,0%. A relação também aparece visualmente na figura 2, em que a tendência entre a intensidade do ENSO e o EVI é positiva, quanto mais aquecido o Pacífico, maior tende a ser o vigor médio da soja no estado.
Figura 2.
EVI dez/jan versus intensidade do ENSO, no Rio Grande do Sul. 
Fonte: NASA, Mapbiomas / Elaborado por Scot Consultoria
No Centro-Oeste, o sinal muda de direção. Em Mato Grosso, o EVI médio foi maior em anos de La Niña do que em anos de El Niño, 0,650 contra 0,613. A figura 3 mostra essa relação negativa entre o ONI e o EVI, sugerindo que anos de El Niño tendem a estar associados a condições menos favoráveis ao vigor da soja no estado. Esse efeito está ligado à irregularidade das chuvas, a temperaturas elevadas ou à combinação dos dois fatores.
Figura 3.
EVI dez/jan versus intensidade do ENSO, em Mato Grosso.
Fonte: NASA, Mapbiomas / Elaborado por Scot Consultoria
No Paraná e Mato Grosso do Sul, o sinal é mais fraco. A diferença entre os grupos climáticos é menor e a relação visual com o ONI aparece menos definida, como mostra a figura 3. Isso sugere que, na média estadual, o ENSO tem influência limitada, possivelmente porque os estados estão em uma zona de transição entre os padrões climáticos do Sul e do Centro-Oeste.
Figura 3.
EVI dez/jan versus intensidade do ENSO, no Mato Grosso do Sul. 
Fonte: NASA, Mapbiomas / Elaborado por Scot Consultoria
O produtor do Rio Grande do Sul pode trabalhar com a expectativa de uma safra com perfil hídrico mais favorável do que a média, não vai chover em todo lugar, mas a probabilidade joga a favor.
Já o produtor de Mato Grosso e Goiás deve dar atenção redobrada ao risco de veranico no enchimento de grãos. Cuidados como escalonamento da data de semeadura, escolha de variedades mais resistentes a estresse hídrico e atenção à previsão de curto prazo passam a pesar mais. No Paraná e Mato Grosso do Sul, o efeito esperado é mais atenuado e outros fatores, como padrão de chuvas de curto prazo e manejo tendem a pesar mais.
Ressalta-se que as tendências apontadas aqui devem entrar na conta como mais uma informação no planejamento, e não como uma previsão certeira.
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