• Quinta-feira, 26 de março de 2026
Assine nossa newsletter
Scot Consultoria

Recria como protagonista da virada de chave para sustentar a intensificação na pecuária

Com pressão sobre a reposição, alta do boi magro e sistemas mais intensivos, a recria se consolida como etapa decisiva para reduzir idade ao abate e ampliar a produção de arrobas por hectare.


Bela Magrela

A intensificação dos sistemas de produção de carne bovina no Brasil será tema no Encontro de Confinamento e Recriadores e, o 1º bloco quer discutir como a recria deixou de ser apenas uma fase intermediária para assumir papel central na construção do desempenho do rebanho. Com pressão crescente sobre a reposição, encurtamento do ciclo produtivo e valorização do boi magro, o desafio passa a ser produzir mais arrobas em menos tempo, sem comprometer a qualidade do bovino.

Nesta entrevista, o pesquisador da Apta Colina, Flávio Resende, instiga sobre como estratégias nutricionais, escolha do tipo de bovino e integração entre as fases do sistema podem transformar a recria em um dos principais vetores de produtividade da pecuária moderna.

Estamos há poucos dias do Encontro de Confinamento e Recriadores, e você participa do bloco “A base define o ciclo”. Quais discussões você espera ver aprofundadas nesse bloco e qual será a principal contribuição que você pretende trazer para esse debate?
Flávio Resende: Eu vou estar no fechamento do primeiro bloco, que fala sobre a transição da fase de cria para a recria. Hoje, a cria ainda enfrenta desafios importantes — os pesos médios de desmama no Brasil ainda são muito baixos e a eficiência reprodutiva das vacas está aquém do potencial. Por outro lado, já existem sistemas mais intensificados, com desmama acima de 160 a 170 quilos por vaca exposta e maior produção de arrobas por hectare.

O ponto central é que já temos um volume relevante de bezerros machos com 200 a 210 quilos, o clássico bezerro de sete arrobas, que é a base do sistema produtivo nacional. Esse bovino sustenta tanto a recria a pasto quanto os sistemas de terminação intensiva em semiconfinamento ou confinamento.

Ao mesmo tempo, houve uma redução significativa na idade de abate. Saímos de bovinos com mais de quatro anos para uma realidade em que a maioria é abatida com até 30 meses no Brasil. Isso tem gerado uma pressão muito forte sobre a reposição, principalmente do boi magro, que está mais escasso. A própria Scot já publicou sobre um levantamento feito, mostrando que se abate mais bovinos do que nascem bezerros. Hoje já vemos ágios de 15,0% a 18,0% na relação boi magro/boi gordo, bem acima dos padrões históricos. A pressão por reposição é uma situação que o país vive hoje e será um caminho sem volta. Porque os sistemas de terminação são cada vez mais intensivos e isso abre uma grande oportunidade para, talvez, a recria se intensificar mais nesse sistema de produção.

Esse cenário, somado à intensificação dos sistemas – com confinamentos cada vez maiores e modelos como a terminação intensiva a pasto (TIP) – abre uma oportunidade clara para avançar na recria. Hoje, por exemplo, a gente conhece fazendas no Mato Grosso que terminam 200,0 mil bois em sistema TIP.

E é exatamente isso que pretendo discutir: como a recria pode ser o elo de ajuste para sustentar esse novo patamar de intensificação da pecuária brasileira.

Temos discutido bastante a importância da cria na formação de um animal de alto desempenho. Mas, na prática, é na recria que esse potencial pode ser lapidado, ou perdido. Na sua visão, qual é o papel da recria dentro da construção do desempenho final? 
Flávio Resende: A recria é, de fato, a fase em que o sistema se define. Hoje, no Brasil, ainda vemos recrias longas, muitas vezes acima de 12 meses, chegando a 15, 18 ou até 24 meses em alguns casos.

No conceito do sistema 777, trabalhamos com uma recria de até 12 meses, colocando sete arrobas em 365 dias, com ganho médio diário (GMD) de cerca de 575 gramas. Mas, na prática, muitos sistemas já demandam uma aceleração maior.

O que estamos buscando é reduzir esse período para algo próximo de sete a oito meses, seguido de uma terminação de cerca de quatro meses. Com isso, é possível fechar o ciclo de recria e engorda em até 12 meses. Considerando desmama aos sete ou oito meses, esses bovinos podem ser abatidos com 19 a 20 meses, pesando acima de 20 arrobas, igual vários modelos de produção já existem no Brasil.

Ou seja, é na recria que se determina a eficiência do sistema: se esse bezerro ganha peso de forma consistente e estruturada, ele chega à terminação pronto para expressar desempenho máximo. Caso contrário, perde-se tempo, eficiência e rentabilidade.

A Recria Intensiva a Pasto (RIP) tem ganhado espaço como estratégia de aceleração do ciclo produtivo. Com base na sua experiência a campo e nos trabalhos da APTA, quais são os principais pontos de dúvida dos pecuaristas ao adotar esse sistema e onde estão, de fato, os maiores desafios de implementação?
Flávio Resende: Uma questão a ser abordada nesses sistemas cada vez mais curtos são as estratégias. As fazendas muitas vezes têm algumas dificuldades operacionais ou falta de volumoso no período da seca e muitas das vezes ele não consegue estabelecer um sistema, por exemplo, de uma recria intensiva à pasto, por exemplo, ou seja, não tem pasto na seca.

Nesse contexto, cresce o uso do sequestro — levar os bezerros para um confinamento de recria durante a seca e retorná-los ao pasto nas águas. E isso exige um planejamento muito bem ajustado entre duas etapas: a dieta no confinamento e a estratégia nutricional após o retorno ao pasto.

E esse é um ponto de estrangulamento. Muitas vezes, o bovino ganha peso no sequestro, mas, ao voltar para o pasto sem ajuste nutricional adequado, passa a ter desempenho proporcionalmente inferior ao de bovinos que não passaram por esse sistema.

Hoje já existem ferramentas nutricionais para corrigir isso, mas o sucesso depende de integração entre as fases. Quando bem estruturado, o sistema permite GMDs próximos de um quilo, ou seja, cerca de uma arroba por mês, o que é extremamente eficiente. E, também vou discutir bastante sobre isso no 1º bloco do Encontro de Confinamento e Recriadores.

É um ganho de produtividade muito interessante para as fazendas que só fazem recria. E mesmo para as fazendas que hoje intensificaram muito a terminação e que precisam fazer cada vez mais reposição dentro da própria fazenda.

Pensando na recria como fase estratégica para acelerar o ciclo e potencializar arrobas produzidas/ha, quais critérios técnicos, como época do ano, oferta de forragem e categoria animal, devem orientar a definição do tipo e do nível de suplementação?
Flávio Resende: Um fator importante que nós da APTA temos estudado é sobre tipo de bovino utilizado. Bovinos com maior frame e maior área de olho de lombo tendem a responder melhor aos sistemas intensivos de recria. Se ele tem menor estrutura corporal e a dieta não está bem ajustada, ao intensificar a recria ele pode antecipar a deposição de gordura — o chamado “boi bolinha” — o que compromete o desempenho final.

A genética para isso é extremamente importante e o ajuste nutricional que nós vamos fazer na fase de seca, após desmama – na fase de águas – de pastos de melhor qualidade, e eventualmente também na fase de transição do ano subsequente. Além disso, é fundamental entender as três fases da recria: o primeiro período de seca após a desmama, o período de águas e a fase de transição do ano seguinte. Cada uma exige um ajuste nutricional específico, considerando disponibilidade e qualidade de forragem.

Esse alinhamento entre genética, nutrição e ambiente é determinante para entregar um bovino mais jovem e mais pesado ao final da recria, que é justamente o objetivo dos sistemas mais intensivos. E isso é o que as fazendas estão fazendo hoje no Brasil.

A APTA vem desenvolvendo trabalhos relevantes com o uso de coprodutos como o DDG e, recentemente com enfoque na realidade de São Paulo, derivados da cana-de-açúcar. Com base nesses estudos e na experiência a campo, quais oportunidades esses insumos trazem para a intensificação dessa categoria?
Flávio Resende: Dentro das estratégias nutricionais, os coprodutos, especialmente o DDG, têm papel estratégico. Ele apresenta proteína não degradável no rúmen, o que permite formular dietas que sustentam ganhos elevados — na casa de um quilo por dia ou mais — sem induzir deposição de gordura.

O objetivo é claro: colocar arrobas de forma eficiente em 30 dias na fase de recria, sem comprometer o desempenho, ou seja, sem fazer o bovino virar “bolinha” no final.

Esses insumos permitem intensificar tanto sistemas de recria a pasto quanto modelos que passam por confinamento de recria, especialmente em situações onde a fazenda não tem disponibilidade de pasto na seca. É uma ferramenta importante para encurtar o ciclo produtivo e aumentar a eficiência do sistema como um todo. Falarei sobre isso na minha palestra.

Se você quer aprender mais sobre o assunto e tornar sua produção mais eficiente, garanta agora seu ingresso para o Encontro de Confinamento e Recriadores, que acontece entre os dias 7 e 10 de abril em Ribeirão Preto e em Barretos. Acesse o site para conhecer a programação do evento

Flávio Dutra Resende

Zootecnista pela Universidade Federal de Viçosa. Possui mestrado e doutorado em Zootecnia pela Universidade Federal de Viçosa. Atualmente é pesquisador científico da APTA e professor credenciado da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinária (FCAV - UNESP Jaboticabal). Atua como revisor científico da Revista Brasileira de Zootecnia, do Boletim de Indústria Animal e da Revista Ciência e Cultura. Tem experiência na área de zootecnia, com ênfase em avaliação de alimentos para animais, atuando principalmente nos seguintes temas: bovinos de corte, desempenho animal, qualidade de carne, confinamento e desempenho.

<< Entrevista anterior
Buscar

Newsletter diária

Receba nossos relatórios diários e gratuitos


Loja