O setor, apesar de apresentar ritmo aquém do esperado em 2025, ganhou tração no final do ano e tem boa perspectiva para 2026.
Foto: Freepik
Artigo originalmente publicado no Broadcast Agro.
O Brasil assume, pela primeira vez na história, a posição de maior produtor de carne bovina.
Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados (USDA, em inglês), a produção brasileira está estimada em 12,4 milhões de toneladas de equivalente carcaça¹ (tec.), aumento de 4,6% em relação a 2024.
Os Estados Unidos, que liderou o ranking até então, passou ao segundo lugar, com produção estimada em 11,8 milhões de tec, queda de 4,0% no mesmo comparativo. O país passa por um momento em sua produção de carne bovina, estruturalmente desafiador.
Do lado das exportações, 2025 foi de recordes.
Apesar do tarifaço imposto pelo governo norte-americano à carne bovina em agosto, que trouxe incertezas ao mercado, o volume exportado em 2025 já era o maior da história em novembro – os embarques somaram 3,8 milhões de tec de carne bovina in natura.
Em outubro, o maior volume exportado em um único mês – 435,3 mil tec. A exportação, em 2025, teve papel importante.
Mas, a produção brasileira ainda tem, como maior consumidor, o mercado interno – responsável por absorver quase 60,0% da produção.
Figura 1.
Produção de carne bovina, volume exportado e volume disponível no mercado interno, em mil tec.
*A estimativa da produção de carne bovina foi feita com base nos dados divulgados pelo Sistema de Inspeção Federal (SIF), em 19/12, referentes a outubro e novembro de 2025.
Fonte: Secex, MAPA, Scot Consultoria. Elaboração: Scot Consultoria.
O consumo no mercado interno é influenciado por diversos fatores, como feriados, períodos festivos e, principalmente, pelo poder aquisitivo do consumidor.
De acordo com o IBGE, a renda média mensal do brasileiro, até agosto de 2025, foi de R$3,6 mil, sendo que cerca de 2,8% desse valor foi destinado ao consumo de carne bovina.
Além disso, a taxa de desocupação atingiu o menor patamar desde 2012, com 5,4% em agosto e 6,0% na média anual.
Cenário favorável para a demanda, principalmente para alimentos.
Os dados de gastos com o consumo de carne no Brasil mostram uma tendência de concentração nos primeiros e últimos meses do ano.
Em 2025, até agosto, esse comportamento tem se repetido.
Figura 2.
Gasto médio mensal com carne bovina por pessoa assalariada, entre 2020 e 2024, e gasto mensal em 2025, com base no peso médio mensal do IPCA de carne bovina.
Fonte: IBGE. Elaboração: Scot Consultoria.
Em São Paulo, considerando que a renda média da população em 2025 foi de R$4,3 mil por mês até setembro e que o gasto mensal com carne bovina representou, em média, 2,4% desse valor, ou R$102,54, e considerando o preço médio da carne bovina no varejo, de R$56,14/kg, o volume médio de carne bovina adquirida foi de 1,83kg.
Por tratar-se de uma média não ponderada, pode-se considerar que a quantidade de carne comprada, em alguns momentos, foi superior.
O preço médio da carne bovina no varejo apresentou alta em todos os meses de 2025, em comparação com os mesmos períodos de 2024.
No entanto, ao analisar os preços máximos e mínimos praticados em cada ano, 2024 teve maior volatilidade – a variação entre o preço máximo e mínimo foi de 19,5%, ou R$8,98/kg.
Em 2025, a oscilação foi de 2,7%, ou R$1,48/kg, ou seja, preços mais lateralizados (figura 3).
Figura 3.
Preço médio deflacionado (IGP-DI) da carne bovina desossada, em R$/kg, no mercado varejista em São Paulo (eixo da esquerda) e a variação anual, em % (eixo da direita), entre 2024 e 2025.
*até 19/12.
Fonte: Scot Consultoria.
Entre janeiro e dezembro (19/12), considerando os preços médios mínimos e máximos registrados em 2025, a oscilação de preços do dianteiro foi de 14,1%, ou R$2,16/kg.
Para o frango médio*, a variação foi de 25,8%, ou R$1,68/kg, enquanto o suíno especial** apresentou oscilação de 9,4%, ou R$1,12/kg.
A melhor relação de troca entre o corte bovino e a carne suína ocorreu em fevereiro, quando 1kg de dianteiro comprava 1,16kg de carne suína. A pior foi observada em maio, com 1,40kg.
Na comparação com o frango médio, a melhor relação foi de 1,94kg, enquanto as piores ocorreram em junho e julho, quando 1kg de carne bovina comprava 2,48kg de frango.
*Ave que leva em consideração o peso médio da linhagem para um lote misto, com rendimento de carcaça estimado em 74,0%.
**Animal abatido, sem vísceras, patas, rabo e gargantilha.
O dianteiro avulso como corte bovino para a comparação se deve ao fato de ser o corte de menor preço no atacado e, consequentemente, ser mais sensível às variações do poder de compra do consumidor. Dessa forma, seu comportamento pode servir como um termômetro da demanda no varejo e do consumo interno.
Figura 4.
Cotação média mensal da carcaça do dianteiro avulso, do suíno especial e do frango médio, em R$/kg (eixo da esquerda), e a relação de troca entre a carne bovina e as proteínas alternativas, em kg (eixo da direita).
Fonte: Scot Consultoria.
As vendas no fim de ano tendem a ser mais aquecidas, impulsionadas pelo pagamento do 13º salário, das bonificações, contratações temporárias e pelas confraternizações e festividades.
O cenário no fim de 2025 está sendo mais interessante para a indústria, do que em 2024 – apesar disso, no ano, a margem média da indústria foi relativamente menor em 2025.
O motivo para as margens mais interessantes neste fim de ano? O aumento expressivo no preço da arroba e a dificuldade de repasse ao longo da cadeia.
Considerando o Equivalente Scot Desossa*, a margem média de comercialização em dezembro (até 19/12) está em 16,2% (figura 5).
Figura 5.
Média mensal da margem da desossa em 2024 e em 2025.
*Até 19/12.
Fonte: Scot Consultoria.
Em maio, a maior margem para o ano – 22,5%. Cenário que foi resultado da queda no preço da arroba no período e do bom preço da carne bovina no setor atacadista sem osso e coprodutos.
A menor margem ocorreu em abril – em 13,1% –, momento em que a cotação da arroba atingiu R$318,40, segunda maior média do ano.
A margem de comercialização não representa lucro, pois não considera os custos operacionais. Margens mais elevadas, contudo, indicam maior flexibilidade nas estratégias de precificação.
*Equivalente desossa: preços da carne sem osso no atacado + couro + sebo + miúdos + derivados + subprodutos.
Para 2026, a expectativa é que o abate de bovinos no Brasil diminua (USDA). Com isso, os preços da arroba tendem a se manter firmes e, poderão, a depender do tamanho da redução de oferta, subir.
No cenário exportador, o Brasil deve seguir sólido e a estimativa é de que 2026 seja o segundo melhor ano da história para o setor – 200,0 mil toneladas abaixo que em 2025 (USDA).
A questão principal passará pelo mercado doméstico: a indústria frigorífica conseguirá repassar uma eventual alta da arroba para o consumidor brasileiro?
As margens em 2025 se estreitaram e, para 2026, assim deve seguir – a não ser que o preço da carne suba e, as perspectivas, nesse sentido, são positivas.
Considerando os indicadores macroeconômicos apresentados (renda per capita e taxa de desocupação) como cenário de entrada, outros pontos podem se somar a eles, como a isenção do imposto de renda para salários de até R$5 mil, o ano eleitoral e a realização da Copa do Mundo, que tendem a fortalecer o consumo e sustentar os preços da carne bovina.
¹Tonelada equivalente carcaça: é uma unidade de medida de padronização cujo objetivo é estimar a quantidade de determinado produto sob diferentes formas de apresentação. O cálculo é realizado com base no peso, considerando apenas as partes que são aproveitadas para o consumo humano, da seguinte forma: tonelada métrica de carne in natura com osso x 1,0; tonelada métrica de carne in natura sem osso x 1,3; tonelada métrica carne industrializada x 2,5.
Engenheiro agrônomo, formado na Esalq/USP, Piracicaba/SP. Fundador e CEO da Scot Consultoria. Atua na área de ciências agrárias, análises e consultoria de mercados agropecuários. É analista e consultor de mercado, com atuação nas áreas de pecuária de corte, leite, grãos e insumos agropecuários. É palestrante, facilitador e moderador de eventos conectados ao agronegócio. Atuou como Membro de Conselho Consultivo de empresas do setor e dirige as ações gerais da Scot Consultoria.
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