Estudos conduzidos na Esalq/USP mostram ganhos consistentes em desempenho e eficiência alimentar com inclusão de DDG/DDGS e WDG/WDGS, reforçando o papel estratégico desses coprodutos no avanço da terminação e da recria no Brasil.
Bela Magrela
O avanço da indústria brasileira de etanol de milho tem provocado reflexos diretos na nutrição de bovinos de corte. Desde 2017, o Departamento de Zootecnia da Esalq/USP vem conduzindo uma série de experimentos para avaliar o impacto dos coprodutos desse setor – como DDG, DDGS, WDG e WDGS – no desempenho dos bovinos de corte. Em julho de 2025, os resultados consolidados foram publicados na revista Animal Production Science, reforçando evidências de que esses ingredientes não apenas substituem milho e fontes proteicas tradicionais, mas podem elevar o ganho de peso e a eficiência alimentar dos bovinos em confinamento.
Ao todo, nove experimentos analisaram diferentes níveis de inclusão desses coprodutos em dietas típicas de São Paulo e do Centro-Oeste. Os resultados mostraram respostas consistentes: melhora no ganho de peso, maior eficiência biológica e padrões distintos de consumo, dependendo da dieta controle utilizada. O professor titular da Universidade de São Paulo, Flávio Portela, falou mais sobre o assunto e detalhou quais resultados seus estudos tem colhido à campo com o uso desta matriz nutricional, o coproduto da indústria de etanol de milho.
Em julho de 2025 o senhor publicou um estudo na revista Animal Production Science, falando sobre a inclusão de coprodutos da indústria de etanol de milho na dieta dos bovinos de corte. Qual foi o objetivo desta pesquisa e o que foi possível concluir?
Flávio Portela: No departamento de zootecnia da Esalq, a nossa pesquisa com os coprodutos de etanol de milho teve início em 2017. Até o presente momento, nós conduzimos nove experimentos com a experiência de desempenho e de metabolismo, estudando os diversos coprodutos da indústria, a fibra seca com solúveis, a fibra úmida com solúveis e o DDGS. Esses trabalhos se basearam principalmente no estudo de nível de inclusão desses coprodutos. Nós trabalhamos com níveis de inclusão desses coprodutos em dietas contendo milho, polpa cítrica, farelo de soja e caroço de algodão nas dietas controle, como aqui em São Paulo, em dietas mais comuns no Centro-Oeste, no Mato Grosso, contendo milho, caroço de algodão, casca de soja, sempre com milho moído seco. Então, nesses nove experimentos, nós avaliamos o nível de inclusão dos três coprodutos da indústria de etanol de milho e eles foram, de modo geral, bem consistentes mostrando o efeito positivo da inclusão deles no desempenho animal quando substituídos pelo milho, e uma fonte proteica tradicional como farelo de soja, farelo de algodão ou caroço de algodão. Concluímos que a inclusão desses coprodutos tem resultado em maior ganho de peso, maior eficiência alimentar dos bovinos.
Do ponto de vista do metabolismo de carboidratos e proteínas em ruminantes, o uso crescente de DDG tem, de fato, aumentado a eficiência biológica do bovino, ou estamos principalmente substituindo ingredientes tradicionais e deslocando gargalos ruminais? O que os estudos dizem?
Flávio Portela: A inclusão desses coprodutos da indústria de etanol nas dietas de bovinos em terminação, vai depender da relação de preço do coproduto versus o preço do milho e da fonte proteica convencional que está na dieta controle – a dieta que está sendo usada no confinamento. A questão da relação de preço, quando ela está favorável – quero dizer que está mais barata do que o milho e o suplemento proteico. A combinação que vai sair com o mesmo preço, 10,0% mais caro, 20,0% mais caro, ou até 30,0% mais caro, ainda é possível usar esses coprodutos como uma fonte proteica e energética para mudar a energia da dieta, aumentar a energia e realmente causar um grande impacto positivo em desempenho. Quando essa diferença de preço está 30,0%, 40,0% para cima, ou mais, a gente passa a usar esses coprodutos no máximo como uma fonte de proteína com um nível bem menor de inclusão na dieta, com baixa substituição em relação ao milho. Esses coprodutos, de modo geral, melhoram a eficiência biológica – a eficiência alimentar do bovino. O mecanismo de ação depende do coproduto. De modo geral, os coprodutos úmidos têm mais energia do que os secos, a fibra úmida tem mais energia que a fibra seca, o WDGS tem mais energia do que o DDGS. E, dependendo da dieta controle que você estiver usando, a inclusão desses produtos úmidos tende a diminuir consumo, sobe o ganho de peso e melhora, obviamente, a conversão alimentar. O aumento em ganho de peso, às vezes, não é tão grande quanto no coproduto seco porque ele abaixa o consumo. Já os coprodutos secos, dependendo da dieta controle, não mudam o consumo de matéria seca, aumentam o ganho de peso e melhoram a eficiência alimentar. Então o padrão de resposta, em termos de consumo, depende muito da dieta controle. Quando você tem milho moído seco na dieta, o coproduto seco (DDGS), normalmente não aumenta consumo, aumenta ganho de peso. Quando você tem grão úmido na dieta, então os coprodutos podem ajudar a aumentar o consumo em coproduto seco, em relação a uma dieta com grão úmido mais farinha de soja, por exemplo. Então, o padrão de resposta depende da dieta controle, mas na grande maioria dos estudos e da experiência no campo, a gente tem observado a melhoria da eficiência alimentar, da eficiência biológica dos bovinos.
É difícil explicar o valor energético desses coprodutos. A gente não consegue explicar com base na análise química e as equações que estimam a energia que os laboratórios usam sempre subestimam esses coprodutos. A presença do óleo e a grande quantidade de proteína que escapa para o intestino explicam em parte esse maior valor energético desses coprodutos. A gente tem dificuldade em conseguir explicar os aumentos de ganho de peso, melhorias em conversão alimentar e eficiência alimentar que a gente observa quando utiliza esses coprodutos. Eles podem ter um efeito positivo, também diminuindo a quantidade de amido na dieta e o risco de acidose. Isso pode acontecer conforme você usa esses coprodutos e isso pode ajudar também a explicar essas respostas que a gente tem tido.
Qual a porcentagem máxima que o senhor tem observado, quando se têm utilizado essa estratégia a nível de campo, em dietas para o gado de corte e em quais fases? Aproveitando que o senhor tem muito contato com os produtores, qual a dificuldade que os produtores têm enfrentado para adotar esse coproduto em sua fazenda?
Flávio Portela: Nas dietas de terminação e confinamento, e até mesmo nos sistemas de terminação em pasto (TIP) com níveis altos de inclusão de concentrado, o que a gente tem observado são inclusões na dieta total, que vão chegar a 30,0%, 40,0% no máximo, na maioria das vezes. Quando o preço fica muito atrativo, a gente tem visto os nutricionistas chegarem a níveis mais altos, com 50,0% de inclusão, por exemplo, da fibra seca ou da fibra úmida na dieta, às vezes mais. Nós temos dados de pesquisa com a fibra seca indo a 60,0% da matéria seca na dieta na fase de terminação, com resultado superior à dieta controle, sem nenhum efeito negativo, com o bovino consumindo 60,0% da fibra seca e com desempenho superior à dieta sem esse coproduto. Com o DDGS, nós temos trabalhos com resposta positiva até inclusão de 40,0% na dieta.
Quando nós fomos para níveis mais altos, então nós começamos a ver uma depressão de consumo e de desempenho. Depende muito da dieta controle que a gente está trabalhando, mas o que a gente mais vê no campo são inclusões entre 20,0% a 40,0% desses coprodutos nas dietas de terminação. E eles vêm sendo usados intensamente como suplementos proteicos energéticos para os bovinos em recria, seja bezerro desmamado no início da seca, seja garrote na fase de águas. Esses suplementos têm uma praticidade grande, porque já está pronto e é um proteico energético que vai de 20,0% a 33,0% de proteína, dependendo do coproduto que está usando. Então, traz muita facilidade para o produtor e nós temos observado que têm contribuído para o crescimento da prática de suplementação na recria.
Com relação ao nível de PB e NDT do DDG / DDGS e de WDG/WDGS o senhor considera importante, compararmos o preço por quilograma de energia, pelo preço pago desse produto, já que envolve o operacional alinhados com a nutrição? E também pensando na alta eficiência de absorção deste ingrediente, qual a “perda” dele nas fezes?
Flávio Portela: Olha, a gente tem que considerar tanto o valor proteico quanto o valor energético e até mesmo a questão de minerais que o produto tem. Quando o preço, como eu falei, está favorável, a gente começa a trabalhar com ele não apenas como uma fonte proteica, mas como uma fonte energética, porque esses coprodutos, tanto as fibras quanto WDG, WDGS, DDG e DDGS (fibra úmida e fibra seca com solúveis). Todos esses coprodutos têm valor energético mais alto do que o do milho ou da combinação de milho com farelo de soja, milho com farelo de amendoim, milho com farelo de algodão, e até mesmo milho com caroço de algodão dependendo do nível de inclusão dos coprodutos na dieta. Então, é importante que a gente entenda esse valor energético alto do coproduto. Muitos nutricionistas às vezes fazem a conta por quilo de proteína apenas, mas quando você faz isso você não consegue explorar a todo do potencial desses coprodutos, que é, na verdade, a combinação de alta proteína e alto teor de energia que eles têm. E é por isso que, invariavelmente, eles melhoram o desempenho quando são incluídos acima de 10,0%, 15,0%, e vão para 20,0%, 30,0%, até 40,0% na dieta onde eu tenho mais milho combinado com uma fonte convencional de proteína.
Com relação à excreção de nitrogênio, a gente sempre pensa que é um problema porque quando eu começo a incluir nível alto, 20,0% ou mais na dieta de um DDGS, o nível de proteína na dieta sobe e vai para valores bem mais altos do que numa dieta convencional. Sem esses coprodutos, vai para 15,0%, 16,0%, às vezes 17,0% de proteína bruta. Entretanto, alguns estudos mostram que existe um aumento considerável da retenção de nitrogênio. Nós concluímos um estudo agora onde a inclusão de DDGS aumentou o consumo, obviamente, de proteína e de nitrogênio, e por consequência aumentou a retenção de nitrogênio sem afetar a excreção de nitrogênio na urina com resposta de melhor desempenho do bovino no processo. Mas existe uma eficiência muito grande de utilização tanto da proteína quanto da energia desses coprodutos pelos bovinos.
Professor Portela, o que você viu de mudança na estrutura dos coprodutos secos no Brasil desde o início de seu uso – de 2019 para cá?
Flávio Portela: Com relação a mudanças na estrutura, na qualidade desses coprodutos secos, o que a gente tem visto é uma melhoria dos processos. A qualidade desses produtos tem melhorado, principalmente no tocante a qualidade dos processos de secagem desses materiais. Mas, todo coproduto tem uma variação da sua composição. Agora existem empresas que conseguem entregar um produto mais uniforme e consistente. Hoje o Brasil já é exportador de DDGS, há empresas exportando um volume considerável e há tendência de crescimento, principalmente, para o mercado asiático e um aumento no consumo interno. Portanto, eu tenho visto uma melhoria na qualidade destes coprodutos.
Encerrando nosso papo, o que você espera desse segmento nos próximos anos, considerando o volume de oferta que deverá ser produzida versus o tamanho de demanda no mercado?
Flávio Portela: O que nós estamos vendo é um crescimento acelerado da indústria do etanol de milho, que já fechou 2025 próximo de 25,0% do etanol brasileiro e continua crescendo de forma vigorosa. O Brasil já é exportador de DDGS e de alguns outros coprodutos de etanol, mas tem um mercado muito grande no Brasil, um rebanho muito grande, e nós estamos vendo um processo crescente de tecnificação na pecuária de corte, um processo se acelerando agora nesses últimos anos e uma adoção crescente desses coprodutos, seja em sistemas de terminação em confinamento, terminação em pasto, ou na recria. E agora, com a valorização do bezerro, a gente vai começar a ver também uma tensão um pouco maior com a vaca de cria. O mercado brasileiro é imenso, mas a indústria vai também entrar para o mercado externo e garantir espaço para exportação.
A oferta de coprodutos tende a aumentar nos próximos anos e para o professor Dr. Flávio Portela, o cenário combina expansão industrial, tecnificação da pecuária e um ganho nutricional energético potencial. Nesse contexto, os coprodutos dessa indústria de etanol de milho, tanto os ricos em matéria seca quanto os úmidos, deixam de ser alternativas pontuais e se consolidam como peças estratégicas na construção de uma pecuária mais eficiente, intensiva e competitiva.
A pecuária brasileira é, sim, o maior espetáculo da Terra. E nesse show não pode existir improviso. Para não se ver na corda bamba, é preciso estratégia, gestão e informação de qualidade. Tudo isso você encontra no Encontro de Confinamento e Recriadores, que ocorre entre os dias 7 e 9 de abril, em Ribeirão Preto (SP), no Multiplan Hall do Ribeirão Shopping, e dia 10 de abril em Barretos (SP), no Confinamento Monte Alegre. Garanta seu ingresso.
Possui graduação em Engenharia Agronômica pela Universidade de São Paulo (USP)(1984), mestrado em Nutrição Animal e Pastagens pela Universidade de São Paulo (1991) e doutorado em Animal Science pela University of Arizona (1996). Tem experiência na área de Zootecnia, com ênfase em Nutrição e Alimentação Animal. Atuando principalmente nos seguintes temas: fontes proteicas, processamento de grãos, desempenho, vacas leiteiras, digestibilidade de nutrientes. Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo.
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