Especialistas alertam para impacto climático, reforçam integração como caminho de produtividade e destacam limites da intensificação na pecuária.
A programação da tarde do Encontro de Recriadores da Scot Consultoria, nesta segunda-feira (7), aprofundou os debates sobre intensificação e escalabilidade na pecuária, com destaque para os impactos do clima, o avanço da integração lavoura-pecuária (ILP) e a pressão por maior produtividade dentro das propriedades.
Abrindo o bloco, o engenheiro agrônomo Marco Antônio dos Santos, da Rural Clima, chamou atenção para os desafios enfrentados no início do ano e os riscos à frente. “Foi um início de ano extremamente complicado. Janeiro trouxe muitos desafios, fevereiro teve excesso de chuvas no cerrado e março alongou o ciclo do milho”, afirmou.
Segundo ele, o cenário climático segue exigindo atenção. “Esse é um ano que o clima vai trazer problemas. Anos de El Niño são extremamente complicados para o Brasil, são anos onde a safra não vai direito”, alertou. “Para sair desses problemas tem que ter planejamento e fazer o dever de casa.”
Na sequência, Fernando Arantes, da Agro São João, reforçou o papel da integração como motor de crescimento dentro da fazenda. “Não precisa haver uma competição, agricultura e pecuária foram feitas para se complementar e gerar valor”, afirmou.
Ele destacou o potencial de geração de receita com sistemas integrados. “A mesma terra pode produzir grãos, carnes e receitas por 12 meses do ano. O futuro é integrar”, disse.
O consultor Fábio Vitor complementou a visão ao ampliar o conceito de ILP. “A integração não é somente essa janela de 90 a 120 dias. A gente tem várias oportunidades, incluindo confinamento e produção de silagem”, afirmou.
Segundo ele, o modelo está diretamente ligado à competitividade. “A integração lavoura-pecuária é o presente da competitividade. Mais resultado no mesmo espaço.”
A intensificação também foi tema da apresentação de Sérgio Malmegrim, da Agropecuária Vertente, que destacou o uso de tecnologia e gestão como pilares do sistema produtivo.
“O projeto de pivô é uma indústria dentro da fazenda, com técnicos trabalhando o tempo todo”, afirmou. “Em dezembro deste ano a gente vai estar com 25 a 30 mil animais em engorda embaixo de pivô.”
Para ele, o avanço da produtividade é condição para permanência no setor. “A gente precisa fazer coisas novas e mais produtivas. Se não ganhar produtividade todo ano, está fora do negócio.”
O painel sobre o Circuito Cria, conduzido pela Scot Consultoria, trouxe dados sobre a evolução dos sistemas produtivos no país. “Mais de 80,4% das fazendas são de ciclo completo”, destacou Diego Rossin.
Segundo ele, os investimentos feitos na cria impactam todo o sistema. “O produtor que investe em genética na cria consegue reaproveitar isso na recria e na engorda”, afirmou.
Letícia Vieira ressaltou o objetivo do projeto. “O Circuito Cria foi idealizado para levantar dados dos sistemas de cria pelo Brasil e acompanhar uma safra completa de bezerros”, explicou.
Entre os dados levantados, chama atenção o avanço da integração. “64,3% das fazendas visitadas fazem integração lavoura-pecuária”, disse Rossin. “70% também trabalham com agricultura.”
Encerrando a programação, o professor Flávio Portela, da ESALQ/USP, trouxe reflexões sobre até onde é possível avançar na intensificação da pecuária.
“Os americanos já abatem bois com 450 quilos de carcaça e a aposta é chegar a 500 quilos”, destacou.
Ele reforçou que, apesar do avanço do confinamento, a base do sistema continua sendo o volumoso. “80% da energia que o sistema consome vem de pasto e forragem conservada. Os grãos entram na terminação”, afirmou.
Para o pesquisador, a sustentabilidade da produção passa pela integração entre pecuária e agricultura. “Toda pecuária forte é puxada por uma agricultura robusta.”
Ao longo da tarde, ficou evidente que o futuro da pecuária brasileira passa pela capacidade de integrar sistemas, lidar com variáveis climáticas e aumentar a produtividade sem perder eficiência econômica.
Matéria originalmente publicada em: Clima, ILP e pressão por escala marcam debates da tarde no Encontro de Recriadores da Scot
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