A China instituiu cotas de importação e uma sobretaxa de até 55% sobre o excedente de carne bovina, medida que pode impactar as exportações brasileiras e gerar reflexos no mercado do boi em 2026.
A China decidiu adotar um novo mecanismo de controle sobre as importações de carne bovina, combinando cotas de volume com a aplicação de uma sobretaxa de até 55,0% sobre o excedente importado. A medida, que passa a valer a partir de 2026 e terá duração inicial de três anos, preocupa o setor pecuário brasileiro, principal fornecedor do produto ao mercado chinês.
Em entrevista ao canal Terraviva, o zootecnista e analista de mercado da Scot Consultoria, Felipe Fabbri, explicou que o Brasil já paga uma tarifa básica, assim como outros países exportadores. A novidade é a criação de uma cota global em volume: tudo o que ultrapassar esse limite passará a ser tributado com uma taxa adicional elevada, nos moldes do que ocorre hoje com os Estados Unidos, porém em patamar muito mais agressivo.
Segundo Fabbri, o Brasil ficará com cerca de 45,0% da cota total estabelecida pela China, algo próximo de 1,1 milhão de toneladas por ano até 2028, volume superior ao de qualquer outro fornecedor. Em 2024, o país exportou aproximadamente 1,2 milhão de toneladas de carne bovina para o mercado chinês, e em 2025 o volume até novembro foi próximo de 1,5 milhão de toneladas. Caso a regra já estivesse em vigor, parte relevante dessas exportações teria sido sobretaxada.
A justificativa chinesa para a adoção da salvaguarda é a proteção da produção local, sob o argumento de que o aumento das importações teria prejudicado os pecuaristas do país. No entanto, Fabbri pondera que a análise ignora fatores estruturais importantes. Entre 2019 e 2024, a China enfrentou a maior quebra de produção de carne suína de sua história, em função da peste suína africana, o que impulsionou fortemente o consumo e a importação de carne bovina. Nesse contexto, o Brasil se consolidou como fornecedor estratégico, garantindo segurança alimentar ao país asiático.
Além disso, a parceria com a China trouxe avanços significativos à pecuária brasileira. A exigência de animais mais jovens — com até 30 meses — incentivou ganhos de produtividade, maior precocidade e intensificação dos sistemas produtivos. Hoje, o preço da arroba no Brasil, em dólares, gira em torno de US$55,00 a US$56,00, enquanto na China esse valor supera US$120,00, diferença que, na visão do analista, deveria ser enfrentada com ganhos de eficiência e não com barreiras comerciais.
No curto prazo, os impactos sobre o mercado físico do boi gordo devem ser limitados. De acordo com a Scot Consultoria, considerando uma média mensal de exportação de cerca de 100,0 mil toneladas, a cota só seria totalmente preenchida após aproximadamente 11 meses, o que empurra a aplicação efetiva da sobretaxa para o segundo semestre de 2026. Além disso, o início do ano costuma ser mais favorável ao pecuarista, com pastagens em melhores condições e menor pressão de oferta em comparação ao segundo semestre, quando se concentram os confinamentos.
Matéria originalmente publicada em: Entenda a nova taxa de importação da China sobre carne bovina
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