Perspectiva de safras recordes (soja e milho) no Brasil e um cenário oportuno para o país.
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Felipe Fabbri, consultor de mercado da Scot Consultoria, destaca em entrevista como o dólar, a taxa de juros no Brasil, o conflito comercial Estados Unidos e China e a perspectiva de safras recordes e de demanda global poderão influenciar a competitividade dos grãos brasileiros para a safra 2025/26. Fabbri também adianta o que o público pode esperar de sua palestra no Encontro de Intensificação de Pastagens.
Scot Consultoria: Como a valorização do dólar, a política monetária interna (Selic elevada) e a potencial entrada em vigor da Lei Antidesmatamento da União Europeia (EUDR) afetam a competitividade dos grãos brasileiros no mercado internacional?
Felipe Fabbri: Cada variável afeta o mercado em um ponto diferente, sob nosso ponto de vista. O real depreciado ante o dólar, como temos visto na comparação anual, tende a manter os nossos produtos no mercado internacional mais competitivos e a sustentar as cotações em reais no mercado doméstico. Considerando o contexto de guerra comercial entre Estados Unidos e China indefinida até o fim de agosto de 2025, nosso principal concorrente e comprador, respectivamente, temos espaço para que a demanda por soja brasileira siga aquecida, mesmo com o avanço da colheita nos Estados Unidos a partir de setembro, e isso favoreça a nossa competitividade no cenário internacional, principalmente no mercado se soja. O mercado de milho tem uma pressão menor do cenário internacional, tendo o mercado interno maior relevância na precificação e demanda pelo produto – uma maior oferta internacional, como a projetada para o ciclo 2025/26, que iniciará os trabalhos em setembro no Brasil, tende a manter os preços internacionais mais frouxos e limitar o mercado interno ao preço de paridade de importação de milho que a indústria nacional teria como potencial compra.
A Selic elevada, em contrapartida, pode, com maior atratividade dos investidores internacionais por ativos de menor risco, gerar pressão de baixa ao dólar e, indiretamente, pressionar a cotação das commodities agrícolas. Essa é uma tendência, mas não necessariamente um fato. Um fato atrelado à Selic é um potencial desestímulo à produção – crescimento de área menor ou redução de uso de tecnologia –, por conta da elevação da taxa básica de juros do país e consequentemente um aumento também das taxas de financiamento público e privadas.
A implementação da lei em questão (EUDR) foi postergada para o fim de 2025 para grandes empresas e para micro e pequenas para junho de 2026, buscando dar mais tempo de adaptação dos exportadores e a finalização dos instrumentos de fiscalização pela própria União Europeia. Acreditamos que ainda haverá limitação para a sua instrumentação a partir das datas previstas e que nova postergação possa ocorrer. Por isso, por ora, não vemos diminuição da competitividade brasileira no mercado internacional.
Scot Consultoria: Diante da possibilidade de inviabilidade das exportações para os Estados Unidos devido à taxação, como você enxerga a evolução da demanda interna por sebo bovino e óleo de soja, considerando seu uso na composição obrigatória do biodiesel B15?
Felipe Fabbri: A taxação pouco impacta o mercado de óleo de soja, na nossa visão. Os norte-americanos não são grandes compradores deste produto. Por outro lado, a exportação de sebo bovino é crescente nos últimos anos e, em função de políticas de estímulo fiscal locais, tem os Estados Unidos como destino de mais de 90,0% dos embarques, aqui, acreditamos em um impacto direto e uma redução nos embarques – ao menos, via Brasil.
A entrada em vigor do teor de 15,0% de biodiesel na mistura a partir de agosto será um estímulo à demanda, tanto por óleo de soja e soja em grão, quanto por sebo bovino e nos leva a crer em um fator de sustentação aos preços, ao menos até o fim do ano. Do lado do óleo de soja, a oferta de matéria-prima (soja em grão) é sazonalmente menor na segunda parte do ano, em função da entressafra no Brasil – com estímulo à demanda interna (a Abiove estima que o B15 deverá demandar um acréscimo de soja na ordem de 700,0 mil toneladas) e uma potencial demanda de exportação mais firme, conforme comentamos a respeito da guerra comercial Estados Unidos e China, há espaço para que os preços do óleo sigam elevado.
Com o aumento do teor na mistura e um preço de óleo de soja mais elevado, a procura por outras fontes para a produção dos biocombustíveis, dentre elas o sebo bovino, pode ser beneficiada, mantendo o preço firme apesar da inviabilidade de exportação direta via Brasil aos norte-americanos.
Scot Consultoria: As estimativas são de recordes de produção do milho no Brasil, na safra 2024/25, e nos Estados Unidos (2025/26), o que isso deve impactar no mercado interno e externo?
Felipe Fabbri: A expectativa de boas safras no mundo pode levar a uma pressão nos preços – ou limitação de potencial recuperação, considerando que a estimativa para o ciclo 2025/26, que se iniciará no Brasil, é de áreas menores em Argentina e Estados Unidos, e de crescimento modesto no Brasil.
A expectativa é de demanda crescente e firme para o próximo ciclo, mesmo com a projeção de uma safra recorde. Se o clima não colaborar e as expectativas de produção não corresponderem às perspectivas atuais, os preços, tanto da soja, como do milho, poderão ganhar sustentação no mercado internacional e dar firmeza aos preços no mercado interno, principalmente se a desvalorização do real ante ao dólar persistir.
Scot Consultoria: Considerando que os prêmios de exportação já se mostram firmes, mas com espaço limitado para novas altas, e que em agosto, os preços dos contratos de soja na Bolsa de Chicago subiram impulsionados pelo último relatório do USDA, que trouxe redução na produção norte-americana, quais fatores poderiam dar maior tração às cotações da soja no mercado interno?
Felipe Fabbri: Acho que uma das respostas dessa pergunta está em outras perguntas da nossa conversa: a redução de oferta de soja no mercado brasileiro no segundo semestre (entressafra), somado a mudança na política de inclusão do biocombustível de B14 para B15, serão fatores de maior demanda no mercado interno. Somamos a esse contexto a indefinição, por ora, da guerra tarifária entre Estados Unidos e China que, mesmo com a safra norte-americana 2025/26 iniciando a colheita em setembro, colabora com a exportação e deve manter os olhos do mercado asiático à soja brasileira e os prêmios nos portos brasileiros sustentados, o que, soma-se à perspectiva de um câmbio em um patamar elevado ainda – apesar de mais comedido em relação ao fim de 2024 e começo de 2025. Por fim, há a possibilidade de atuação do fenômeno climático La Niña nas águas do Pacífico para o período de semeadura no Brasil – a depender da intensidade do fenômeno, podem ocorrer intempéries climáticas e elevar a cotação da soja em Chicago e, consequentemente, os preços em reais.
Scot Consultoria: O Encontro de Intensificação de Pastagens está se aproximando. O que o público pode esperar da sua palestra durante o evento?
Felipe Fabbri: As variáveis potenciais para impactarem o preço dos grãos no Brasil para o ciclo 2025/26 e o poder de compra do pecuarista serão colocadas na mesa durante o evento. Nossa ideia é apontar, para quem trabalha com agricultura, estratégias para proteger o seu ganho no ciclo que está em início no Brasil e, para o comprador de grãos (indústria ou pecuarista), o oposto – fatores que podem ajudar no seu posicionamento para diminuir o seu custo com a aquisição de alimentos e aumentar a sua receita.
Felipe Fabbri é zootecnista, mestre em Nutrição e Alimentação de Monogástricos pela Unesp de Jaboticabal e coordenador da equipe de inteligência de mercado da Scot Consultoria.
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