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Scot Consultoria

Herbicida mais utilizado no Brasil vira alvo de polêmica


Quinta-feira, 3 de maio de 2018 - 09h50

Fonte: http://www.projetosojabrasil.com.br

 


O glifosato é o principal herbicida comercializado no Brasil para combater plantas daninhas. Surgiu comercialmente no começo dos anos 70 e está registrado em mais de cem países. Quimicamente, é considerado como um herbicida não-seletivo, ou seja, o seu amplo espectro combate a maioria das invasoras. 


Presente há pelo menos 30 anos no mercado brasileiro, o glifosato, herbicida mais utilizado no país, virou o centro de uma polêmica.


O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública visando suspender a liberação comercial de sementes transgênicas tolerantes ao glifosato enquanto não for realizado um processo de reavaliação toxicológica da substância pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa).


Essa medida traz preocupação para a próxima safra no Brasil, tendo em vista que a maioria das lavouras fazem uso dessas sementes.


As procuradoras do MPF, responsáveis pela ação, defendem que o uso excessivo da substância desequilibraria o meio ambiente, com o surgimento de pragas resistentes e com a necessidade de aumentar a dose do herbicida, além do fato de que o defensivo estaria relacionado aos problemas de saúde pública.


Para discorrer sobre o assunto, convidamos o agrônomo e pesquisador da Embrapa Soja, Dr. Dionísio Luiz Pisa Gazziero.


Gazziero possui graduação em Agronomia pela Universidade Federal do Paraná (1974), mestrado em Fitotecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1980) e doutorado em Agronomia pela Universidade Estadual de Londrina (2003). É Pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Soja). Tem experiência na área de agronomia, com ênfase em matologia, atuando principalmente nas culturas de soja, milho, trigo e girassol.


Confira a entrevista na íntegra:


Scot Consultoria: Para iniciarmos, o senhor poderia comentar sobre as suas pesquisas atuais na Embrapa Soja?


Dionísio Luiz Pereira Gazzielo: Hoje dedicamos parte do tempo aos estudos sobre resistência aos herbicidas, mas nosso foco é pesquisar sobre manejo integrado de plantas daninhas resistentes ou não. Trabalhamos com integração de métodos de controle. 


Scot Consultoria: O herbicida mais usado no país foi alvo de polêmica nos últimos dias. O Ministério Público Federal anunciou que quer proibir a venda de sementes tolerantes ao defensivo glifosato, até que a reavaliação toxicológica seja concluída pela Anvisa. Qual a sua opinião sobre este assunto?


Dionísio Luiz Pereira Gazzielo: Na área da saúde deixo os especialistas se responsabilizarem por ela, mas esse é um assunto que se repete desde que essa tecnologia chegou ao mercado. Aliás, já era moda antes mesmo da chegada da soja RR. Qualquer agrotóxico tem risco mínimo desde que utilizado conforme as recomendações, equipamentos de proteção etc. etc. etc. Outro ponto para se comentar é que uma coisa é o glifosato e a outra é uma cultivar geneticamente modificada. É preciso entender o que é agricultura e como ela funciona. Minha sugestão é que antes de iniciativas como essa, o MP deveria conversar com os diferentes segmentos na área da saúde, do ambiente e da agricultura.


Scot Consultoria: Qual o fundamento científico por traz desse pedido do MP?


Dionísio Luiz Pereira Gazzielo: Precisamos nos basear em ciência com metodologia aceita internacionalmente e não deixar que outros interesses ou falta de conhecimento se misturem com ciência. Precisamos que os especialistas de cada área digam o que pode e o que não pode ser feito. E não leigos no assunto. Hoje no Brasil existe um movimento contra a agricultura e o agricultor, tentando influenciar a sociedade de forma errônea. Acho que se as pessoas do MP que fazem esses movimentos, estivessem nos ajudando (aos técnicos) com ações para conscientizar os usuários de agrotóxicos, na obrigatoriedade da assistência técnica e nas ações de fiscalização, parte dos nossos problemas seriam solucionados e o Brasil seria bem melhor.


Scot Consultoria: Essa medida pode interferir em algum nível o plantio da próxima safra no Brasil?


Dionísio Luiz Pereira Gazzielo: Com certeza. Não estamos preparados.  


Scot Consultoria: Você acredita que se aprovada essa medida abre mais espaço para o mercado informal de sementes?


Dionísio Luiz Pereira Gazzielo: Mercado de sementes tem regras e informalidade não é uma palavra que deveria ser aceita em um país que segue suas regras. 


Scot Consultoria: A seleção de daninhas resistentes às moléculas de herbicidas de amplo espectro, como o glifosato, já é uma realidade? É possível reverter este cenário?


Dionísio Luiz Pereira Gazzielo: Claro. É possível prevenir e manejar a resistência.


Scot Consultoria: Quais seriam os impactos no manejo de daninhas realizado pelo produtor caso a proibição se efetive?


Dionísio Luiz Pereira Gazzielo: Seria um impacto altamente significativo não só para o produtor, mas também para o Brasil. Mas, não acredito que irá acontecer. Acho que a Anvisa não vai ceder a pressões, se não houver provas cientificas que justifiquem. 


Entrevistado:



Dionísio Luiz Pereira Gazzielo, pesquisador na Embrapa Soja



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