Enquanto países sofrem com problemas na bovinocultura de corte, o Brasil surfa uma onda de recordes.
Foto por: Freepik
Os Estados Unidos vêm passando por um momento único, e complicado, em sua vida pecuária.
O rebanho é o menor da história (USDA), onde a recuperação projetada para 2026 está aquém da necessidade para conter a alta que atinge os preços da carne bovina por lá.
Ainda, casos de bicheira-do-novo-mundo na fronteira com o México, levaram ao fechamento do trânsito de gado com seu parceiro comercial do Sul. Um movimento que bloqueou a importação de, aproximadamente, 1,0 milhão de cabeças.
Figura 1.
Importação de gado bovino pelos Estados Unidos, em milhões de cabeças, por ano.
*até fevereiro.
Fonte: USDA / Elaborado por Scot Consultoria
Desde 1989 (37 anos), Canadá e México foram os únicos fornecedores de bovinos ao país. Quando um deles teve problemas com a entrega (em 2004, com um caso de Encefalopatia Espongiforme Bovina, a vaca louca, a importação do Canadá foi suspensa) o outro assumiu totalmente os envios.
Agora, tem-se a bicheira-do-novo-mundo causadora do fechamento da fronteira com o México e, assim, o Canadá passou a ser o único fornecedor para os estadunidenses.
Figura 2.
Participação do Canadá e do México na importação anual de bovinos pelos Estados Unidos.
*até fevereiro
Fonte: USDA / Elaborado por Scot Consultoria
E o Brasil nisso tudo?
Com a suspensão da exportação de bovinos vivos do México para os EUA, o Brasil passou a ser o maior exportador mundial. Não que competissem pelos mesmos clientes, uma vez que o México atendia apenas os EUA, enquanto o Brasil atende clientes próximos do Oriente Médio. Mas, outro ponto passou a ser a questão. A possibilidade de os Estados Unidos passarem a serem clientes de bovinos vivos do Brasil. Isso seria mesmo possível?
O nível dos preços da carne bovina por lá pode estimular a demanda de confinadores/terminadores, por bovinos do Brasil, com potencial para diminuir o custo de produção, e até estimular a retomada do rebanho bovino estadunidense.
A bronca é com relação à raça. O grande exportador de bovinos de raças europeias (britânicas) no Brasil, é o Rio Grande do Sul, que está a 11,2 mil quilômetros do porto de Houston-TX, o provável ponto de recepção dessas boiadas. Em um cenário de frete marítimo elevado, isso seria um obstáculo. É uma viagem de 34 a 47 dias.
Alguns cálculos. Com um bovino brasileiro negociado, em média, considerando todos os transportes e seu faturamento (sem separar por estado, região, categoria), temos um preço de US$3,07 por kg de bovino. Enquanto a média de preços do bovino mexicano entrando nos Estados Unidos, segundo relatório do USDA, para fevereiro de 2025 (com trânsito ainda normal de bovinos), negociado em média por US$5,22 por kg.
Essa diferença, de US$2,15 por kg, poderia compensar um frete maior e tarifas, entre outras despesas. Ou seja, existe a possibilidade, basta ver disponibilidade e a vontade de estimular esse negócio.
Enquanto isso...
Em março, o Brasil embarcou 91,7 mil bovinos vivos, sendo a Turquia o principal destino, com 41,5 mil bovinos (ou 45,3% dos embarques).
Figura 3.
Destinos dos bovinos vivos brasileiros em março de 2026.
Fonte: Secex / Elaborado por Scot Consultoria.
Destes, 18,5 mil bovinos saíram do Rio Grande do Sul, e 15,7 mil bovinos saíram de São Paulo (considerando que as fontes de origem “Não Declaradas” foram referenciadas com o estado de pertencimento do porto de saída).
O Pará foi o estado com o maior volume de bovinos exportados com, 46,2 mil cabeças (50,4% do volume). E, também, o originador com maiores clientes (Argentina, Argélia, Arábia Saudita, Egito, Iraque, Jordânia, Líbano e Marrocos).
Figura 4.
Principais originadores de gado vivo exportado pelo Brasil em março de 2026.
Fonte: Secex / Elaborado por Scot Consultoria.
Chama a atenção a importação argentina, embora tenha sido um dos menores volumes embarcados, dos compradores do Pará. O Líbano foi o maior comprador, com 11,4 mil cabeças (12,4% do volume brasileiro e 24,7% do volume paraense exportado).
Figura 5.
Compradores de gado vivo paraense em março de 2026.
Fonte: Secex / Elaborado por Scot Consultoria
A Turquia é o país que mais diversifica fornecedores, comprando bovinos do Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Rondônia, Acre, Amazonas, Goiás, Minas Gerais, Paraná, São Paulo e Tocantins.
Figura 6.
Originadores do gado bovino exportado para a Turquia em março de 2026.
Fonte: Secex / Elaborado por Scot Consultoria
A exportação brasileira está com bom desempenho. Isso mostra que, temos volume para atender qualquer mercado, seja com carne ou com bovinos.
Análise originalmente publicada em Broadcast Agro
Engenheiro agrônomo, formado na Esalq/USP, Piracicaba/SP. Fundador e CEO da Scot Consultoria. Atua na área de ciências agrárias, análises e consultoria de mercados agropecuários. É analista e consultor de mercado, com atuação nas áreas de pecuária de corte, leite, grãos e insumos agropecuários. É palestrante, facilitador e moderador de eventos conectados ao agronegócio. Atuou como Membro de Conselho Consultivo de empresas do setor e dirige as ações gerais da Scot Consultoria.
Engenheiro agrônomo, formado pela FCAV/Unesp, Jaboticabal/SP. Atua na área de ciências agrárias, análises e consultoria de mercados agropecuários. Analista de mercado, com elaboração e realização de análises setoriais e pesquisas nos mercados do boi, carne e mercados internacionais, com enfoque para commodities agrícolas. Técnico da pesquisa-expedicionária “Confina Brasil” e coordenador da equipe de mídias sociais da Scot Consultoria
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