Estratégias de implantação e manejo de forrageiras de inverno em sistemas tropicais e subtropicais, com foco em produtividade e capacidade de suporte.
Foto: Freepik
Estou escrevendo esse texto em 13 de março de 2026. Em mais uma semana a estação de outono chegará no hemisfério Sul. É oportuno nesse momento trazer aqui o tema “pastagens de inverno”.
Para desenvolver o conteúdo deste artigo tenho que dividir o Brasil em dois ambientes quanto ao tipo climático – subtropical, compreendendo a parte Sul dos estados do Mato Grosso do Sul e São Paulo, e os estados da região Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul); e o tropical, no restante das regiões e estados do país.
Ainda tenho que caracterizar dois sistemas de produção – um de pastagens tropicais estabelecidas com espécies forrageiras tropicais e subtropicais de ciclo de vida perene, e um de integração lavoura/pecuária (ILP).
E, por fim, caracterizar as espécies forrageiras em: clima temperado, também conhecidas por forrageiras de inverno; e espécies forrageiras de clima tropical e subtropical.
Agora sim, vamos lá:
Nesta modalidade, as pastagens estabelecidas com forrageiras de clima tropical e subtropical de ciclo perene são exploradas solteiras entre outubro e março (estações de primavera/verão), que é a estação das chuvas na maior parte do território nacional, e em consorcio com forrageiras de inverno entre abril e setembro (estações de outono/inverno).
Na região Sul, esta modalidade de exploração de pastagens já vem sendo adotada pelos pecuaristas há pelo menos seis décadas. Lá têm sido estabelecidas as forrageiras: Aveia, Azevém, Centeio, Cevada, Cornichão, Ervilhaca, Trevos, Trigo, Triticale, solteiras; mas na maioria das fazendas, tem sido em misturas, o que mais recentemente têm sido citadas como “mixes”. Já na região tropical do Brasil basicamente tem sido estabelecida as forrageiras Aveia e Azevém, solteiras ou em misturas.
Neste artigo vou usar as forrageiras Aveia e Azevém para explicar como estabelecer pastagens de inverno já que estas são plantadas tanto na região subtropical como na região tropical do Brasil.
Na região subtropical do país ocorrem chuvas nas estações de outono/inverno e esta condição possibilita o estabelecimento de pastagens de inverno sem a necessidade de irrigação. Por outro lado, na maior parte da região tropical do país as estações de outono/inverno coincidem com a estação seca, e, então, para o estabelecimento e maximização da exploração de pastagens de inverno há a necessidade de irrigação.
Neste sistema em questão a semeadura é feita entre o início de abril a início de junho, idealmente em abril para ter mais período de uso da pastagem de inverno.
Como métodos para a semeadura o pecuarista tem os seguintes:
• Sobressemeadura
Neste método a sequência de procedimentos pode ser a seguinte: antes dos bovinos entrarem em um piquete as sementes são semeadas a lanço sobre o pasto; os bovinos são colocados no piquete para pastejarem e ao mesmo tempo pisotearem as sementes no solo; os bovinos são retirados do piquete e mudados para um outro piquete; após a retirada dos bovinos faz-se a roçada do resíduo pós-pastejo e o material roçado formará uma camada de palha protetora sobre as sementes pisoteadas.
• Plantio direto
Neste método a sequência de procedimentos pode ser a seguinte: os bovinos são colocados no piquete para pastejar; após a retirada dos bovinos faz-se a roçada do resíduo pós-pastejo e o material roçado formará uma camada de palha sobre a qual será feita a semeadura com plantadora de plantio direto.
Atenção às recomendações das taxas de semeadura, das quais vão depender da espécie ou das espécies que serão estabelecidas e o método de semeadura, se a lanço ou se em linha. Os técnicos de empresas que vendem sementes certificadas e/ou o consultor do pecuarista poderão orientá-lo quanto às taxas de semeadura.
A partir daí é esperar boas chuvas, na região subtropical, e fazer as irrigações na região tropical do país.
Em condições adequadas, o primeiro pastejo é realizado até 45 dias após a semeadura, quando as forrageiras alcançam suas alturas alvos, no caso da Aveia, 25cm e 15cm no caso do Azevém, aproximadamente 80,0% das alturas alvo recomendado para a pastagem já estabelecida, que são, respectivamente, de 30cm e 20cm.
Estas forrageiras têm um potencial de acumular entre 6 e 10 toneladas de matéria seca por hectare em um período de 120 a 150 dias, desde que o solo seja corrigido e as adubações aplicadas sejam em doses que possibilitem explorar estes potenciais.
Considerando um potencial médio de 7 toneladas de MS/ha, um período de 120 dias de pastejo, com uma eficiência de uso de 80,0% da forragem acumulada e um consumo de 2,67% do peso corporal dos bovinos, a capacidade de suporte média será de 3,89 UA/ha.
Por outro lado, a qualidade da forragem destas forrageiras tem potencial de permitir ganhos entre 0,70 e mais de 1,0 kg/animal/dia somente com suplementação mineral. Esta amplitude de variação depende de vários fatores, tais como a oferta de forragem (kg de MS/100,0 kg do peso corporal ou % do peso corporal), o bovino – seu grau de sangue, seu sexo, sua idade, seu peso corporal, o tipo de suplemento e o seu nível de suplementação.
Bem, sobre a produtividade por área (kg ou @/ha) vou deixar você calcular de acordo com o tipo de animal que pastejará aí na sua fazenda.
A semeadura das pastagens de inverno é realizada após a colheita da cultura agrícola cultivada na primavera/verão (outubro a março) ou simultaneamente ao plantio da cultura agrícola de segunda safra, em meados do verão a meados do outono (fevereiro a abril).
Na região subtropical do Brasil são semeadas as mesmas espécies que foram citadas neste artigo para o sistema “pastagens de inverno sobressemeadas sobre pastagens perenes tropicais e subtropicais”. Já na região tropical do país são semeadas espécies forrageiras tropicais de ciclo de vida perene, tais como as do gênero Brachiaria SP, e da espécie Panicum maximum, e as de ciclo anual, tais como o milheto e o sorgo de pastejo.
Se na área for cultivada apenas uma safra, ou seja, a safra de primavera/verão, é possível adotar um destes dois métodos de semeadura:
• semeadura com plantadora de plantio direto sobre a palhada da cultura agrícola;
• ou semeadura a lanço com distribuidor de adubo sobre a palhada seguida por um cultivo mínimo com gradagem leve.
Se houver atraso no plantio e na colheita da cultura agrícola de primeira safra, a janela para semeadura da forrageira de inverno ficará apertada. Nesta situação a semeadura da forrageira é feita por sobressemeadura aérea com aviões agrícolas e/ou com drones, ou com semeadoras próprias para semeadura de sementes de forrageiras acopladas sobre a barra do pulverizador ou a lanço com distribuidor de adubos no final do ciclo de produção da cultura agrícola.
Se a área for cultivada com safra e segunda safra (safrinha), por exemplo, com a “dobradinha” soja/milho, ou soja/sorgo, a semeadura da forrageira é realizada por ocasião do plantio da cultura de segunda safra. Aqui o pecuarista poderá adotar um dos seguintes métodos:
• semear as sementes da forrageira a lanço sobre a palhada da primeira cultura, seguida por uma gradagem leve ou uma passagem de corrente para enterrar as sementes;
• semeadura simultânea das sementes da forrageira e da cultura agrícola;
• ou semeadura das sementes da forrageira por ocasião da adubação de cobertura da cultura agrícola.
Neste artigo eu já descrevi os potenciais de produção de forrageiras de inverno, tais como Aveia e Azevém.
Já as forrageiras de clima tropical em sistema de ILP podem acumular entre 5,5 e 11 toneladas de matéria seca por hectare e essa massa de forragem poderá ser colhida em um período de 45 a 150 dias durante a estação da seca. Esta grande amplitude de período de uso dependerá se será feito apenas um cultivo agrícola ou se dois cultivos, e se a cultura de segunda safra, por exemplo, o milho, será colhido para silagem (de planta e de grão úmido) ou se para grãos secos.
Considerando um potencial médio de 7,4 t de MS/ha de massa de forragem a capacidade de suporte média poderá variar entre 1,37 até 5,5 UA/ha. Esta grande amplitude de variação dependerá da oferta de forragem que será adotada, o período possível de pastejo e qual a massa de forragem residual que será deixada para a formação da palhada para o plantio direto da safra seguinte.
Por outro lado, a qualidade da forragem destas forrageiras tem potencial de permitir ganhos entre 0,47 e 0,70 kg/animal/dia. Esta amplitude de variação depende dos mesmos fatores já citados neste artigo para as forrageiras de clima temperado.
Bem, sobre a produtividade por área (kg ou @/ha) aqui também vou deixar você calcular de acordo com o modelo de produção adotado por você aí na sua fazenda.
Zootecnista, professor em cursos de pós-graduação nas Faculdades REHAGRO, na Faculdade de Gestão e Inovação (FGI) e nas Faculdades Associadas de Uberaba (FAZU); Consultor Associado da CONSUPEC - Consultoria e Planejamento Pecuário Ltda; Investidor nas atividades de pecuária de corte e de leite.
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