O comportamento das chuvas no auge do crescimento vegetativo define o potencial produtivo dos canaviais do Centro-Sul.
Foto por: Freepik
Janeiro é um mês-chave para as lavouras de cana-de-açúcar no Centro-Sul, pois coincide com o auge do período chuvoso, época em que a maior parte dos canaviais que comporão a safra seguinte (2026/27) já estão estabelecidos no campo, sejam soqueiras em rebrota, ou cana-planta.
Nesse momento do ciclo, a combinação de chuvas frequentes, temperaturas elevadas e maior disponibilidade de radiação solar criam as condições ideais para a máxima atividade fisiológica da planta, marcada por intenso perfilhamento e alongamento dos colmos.
Essa fase é decisiva, porque é justamente no crescimento vegetativo que se define o potencial produtivo da lavoura. Chuvas bem distribuídas em janeiro favorecem a emissão e a sobrevivência de perfilhos, resultando em um maior número e tamanho de colmos.
Contudo, temperaturas elevadas associadas à falta de chuvas reduzem a atividade fisiológica da planta e, quando esse cenário resulta em estresse hídrico, o potencial produtivo é comprometido, limitando a produtividade que poderá ser alcançada adiante, mesmo com bom manejo posterior.
Por outro lado, o excesso de chuva pode provocar encharcamento e comprometer o sistema radicular.
Por que janeiro pesa mais no desenvolvimento da cana do que nos meses pós-colheita?
Apesar de sua importância, janeiro não atua de forma isolada. O efeito das chuvas depende do histórico climático anterior, das condições do solo, do tipo de canavial, do manejo adotado e das precipitações dos meses que estão por vir.
O pico da colheita ocorre entre junho e agosto, período marcado pelo tempo seco e maior concentração de açúcar nos colmos, o que favorece a colheita mecanizada e o rendimento industrial. Após a colheita, especialmente entre setembro e novembro, as soqueiras entram em fase de rebrote, mas esse início de desenvolvimento é lento e pouco determinante para a produtividade final.
Já em fevereiro e março, o regime de chuvas continua exercendo influência sobre o desenvolvimento dos canaviais, embora com menor capacidade de redefinir o potencial produtivo estabelecido em janeiro.
Quando janeiro registra precipitações abaixo da média, chuvas bem distribuídas nos meses seguintes podem, sim, amenizar os impactos negativos, contribuindo para a recuperação do vigor vegetativo e para o melhor crescimento dos colmos. No entanto, essa recuperação tende a ser parcial, pois déficits hídricos ocorridos na fase inicial de perfilhamento deixam efeitos estruturais na lavoura.
O clima tem se mostrado favorável?
O comportamento do clima no início de 2026 é o principal ponto de atenção para a formação da safra de cana-de-açúcar 2026/27 no Centro-Sul.
Modelos climáticos indicam que janeiro registrou volumes de chuva abaixo da média histórica, com déficits que chegam a 150mm abaixo do habitual, dependendo da região produtora – veja na figura 1.
Embora não se trate de um cenário de seca, a redução no volume e na regularidade das precipitações ocorre justamente no período de maior exigência hídrica da cultura.
Figura 1.
Anomalias de precipitação no Brasil de 28/12/2025 a 26/1/2026.
Fonte: NOAA
Quando observado em perspectiva ampla, o quadro climático se mostra pior. Nos últimos 3 meses, os acumulados nacionais ficaram abaixo da média, com apenas dezembro apresentando chuvas acima da média – veja na figura 2.
Figura 2.
Percentual da chuva observada em relação à média histórica no período de 26/10/2025 a 25/1/2026

Fonte: CPC/NOAA
O que preocupa é a atualização dos modelos, que passou a indicar a extensão desse padrão de chuvas abaixo da média para fevereiro, março e abril, caracterizando um trimestre inteiro com anomalia negativa de chuvas nas principais regiões produtoras – figura 3.
Figura 3.
Anomalia de precipitação prevista para fev/mar/abr.
Fonte: Agrolink
Diante desse quadro, a expectativa para a safra 2026/27 não é de tranquilidade. Ainda que haja expectativa de crescimento na moagem, o prolongamento do déficit hídrico ao longo do primeiro trimestre torna essa recuperação frágil e dependente do comportamento efetivo das chuvas nos próximos meses.
Assim, o mercado acompanha com atenção a evolução do regime pluviométrico, ciente de que a falta de chuva pode neutralizar projeções otimistas para o ciclo.
Zootecnista pela FCAV/Unesp, Jaboticabal/SP. Atua na área de ciências agrárias, análises e consultoria de mercados agropecuários. Analista de mercado, com elaboração e realização de análises setoriais e pesquisas nas áreas de grãos, carne, leite, imóveis rurais e despojo bovino. Técnico da pesquisa-expedicionária "Confina Brasil".
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