A utilização de fontes de fertilizantes químicos e orgânicos combinados pode proporcionar a redução da dose de fertilizantes químicos como também os custos com adubação.
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No artigo de outubro de 2025 eu citei, descrevi e expliquei sobre as fontes de informações para a interpretação de análises de solos e para fazer as recomendações de correção e adubação para solos de pastagens. No artigo de novembro de 2025 apresentei estratégias para tomadas de decisões sobre compras de corretivos e adubos químicos simples, enquanto no artigo de dezembro de 2025 demonstrei avaliações comparativas entre fontes de adubos químicos simples com formulados NPKS.
Na parte 9 desta sequência de textos demonstrarei estratégias de adubação trazendo a alternativa dos fertilizantes orgânicos e organominerais, suas vantagens e desvantagens comparativas com fertilizantes químicos, quando e como utilizá-los.
Em 2024, o Brasil importou 84,0% dos fertilizantes usados na agricultura/pecuária (7,21 milhões de toneladas/45,61 milhões de toneladas), sendo 93,0% dos adubos nitrogenados, 76,0% dos fosfatados, 97,0% dos potássicos e 100,0% do enxofre. Sendo o quarto maior consumidor mundial de fertilizantes (participa de 8,0% do consumo global), produz apenas 1,17% da produção mundial (7,2 milhões de toneladas/614,0 milhões).
Nos últimos dez anos o consumo de fertilizantes no Brasil aumentou em 42,0%, passando de 32,2 milhões para 45,6 milhões de toneladas, enquanto a produção interna só aumentou de 6,52 milhões para 7,21 milhões de toneladas, aumento de 11,0%. Este cenário coloca o país numa condição de quase total dependência do mercado internacional, tanto de matérias-primas para a fabricação dos fertilizantes minerais como de fertilizantes acabados. Por isso, o governo brasileiro tem expressado uma grande preocupação em relação ao nível de preços dos fertilizantes e os efeitos no agronegócio. O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) tem incluído nos planos agrícola e pecuário, no capítulo sobre medidas setoriais, uma proposta de projeto de lei visando acelerar o processo de pesquisa, exploração e comercialização de minerais fertilizantes no território nacional, basicamente dos minerais potássicos e fosfatados.
Por outro lado, até que todos estes projetos sejam concretizados, o Brasil tem uma alternativa que deve ser considerada e investigada, que é o grande potencial de uso dos fertilizantes orgânicos, principalmente aqueles produzidos pelos grandes rebanhos confinados (2024): aves (1,6 bilhão de cabeças), suínos (43,9 milhões de cabeças), bovinos (8,0 milhões de cabeças de corte). Além de bovinos leiteiros, búfalos, caprinos e ovinos (não tem dados específicos para essas espécies). De fato, os produtores já vêm usando fertilizantes orgânicos e organominerais há muito tempo, mas ainda muito aquém do potencial.
Os fertilizantes orgânicos são dos tipos resíduos vegetais, tais como as palhadas das culturas e a adubação verde, principalmente com leguminosas; resíduos animais, provenientes das fezes e da urina dos animais através das quais ocorre a excreção de 75,0% a 95,0% dos elementos minerais e, aproximadamente, 40,0% do Carbono Orgânico (C-orgânico), dos totais ingeridos; os resíduos agroindustriais das indústrias de óleos vegetais, de sucos, de doces, de farinhas e de álcool; resíduos urbanos como o lixo e o esgoto processados.
Os fertilizantes orgânicos aumentam a capacidade de troca catiônica (CTC) do solo; contém todos os nutrientes de plantas; aumentam os micronutrientes como fonte e como complexos ou quelatos; diminuem o alumínio na solução do solo através da formação de compostos indisponíveis às plantas, com os radicais fenólicos e carboxílicos; substituem parcialmente o papel do calcário por serem fonte de cálcio e magnésio e por reduzirem a toxidez de alumínio; são fontes de fósforo (P) e aumentam a disponibilidade desse nutriente por reduzir a sua precipitação com o alumínio; melhoram a estrutura do solo porque aumenta a aeração e o crescimento radicular; conferem maior proteção superficial ao solo contra encrostamento; aumentam a capacidade do solo em reter água; mantém mais estável a temperatura do solo e aumentam a atividade microbiana.
As vantagens do uso desses fertilizantes estão relacionadas às menores perdas de nutrientes por lixiviação; menor índice de salinidade às sementes, plântulas e microorganismos; a possibilidade de se realizar uma única adubação, não precisando ser parcelada. As desvantagens estão relacionadas a sua baixa concentração em nutrientes minerais, necessitando de grandes quantidades, portanto, seu uso fica limitado ao local de sua produção; e à grande variação em sua composição química. O leitor poderá encontrar valores de composição de fertilizantes orgânicos nos boletins de recomendações de uso de corretivos e fertilizantes das comissões de fertilidade de solo. Entretanto, o ideal é coletar amostras destes fertilizantes imediatamente antes da sua aplicação e enviar para análise.
Especificamente sobre o uso de estercos, que está mais próximo da realidade das fazendas de pecuária: podem ser recolhidos e aplicados diretamente ou serem compostados, passando por um processo aeróbico de fermentação que dura de 60 a 90 dias. O uso de biocatalisadores tem sido usado como uma tecnologia alternativa para a redução do tempo de fermentação e, consequentemente, redução de perdas de nutrientes. Quando expostos a céu aberto, chegam a perder de 60,0% a 80,0% do nitrogênio (N) e 60,0% do potássio. A aplicação do gesso agrícola ou de superfosfato simples (SFS) contribui para reduzir as perdas de N desses resíduos. O gesso e o SFS ainda têm efeito desinfetante, desodorante e enriquece esses resíduos com fósforo (quando se usa o superfosfato simples), enxofre e cálcio (quando se usa gesso agrícola ou o SFS). Os estercos, quando são protegidos do sol e da chuva, só perdem de 2,0% a 3,0% do N.
Um fertilizante organomineral é composto por mais de 50,0% de material orgânico (mais de 500 kg/t), e no mínimo 25,0% de matéria orgânica. As fontes de material orgânico mais utilizadas para o preparo do organomineral são a turfa, o linhito (carvão fóssil) e os estercos. Também são utilizados, o lixo urbano, o lodo de esgoto e os resíduos industriais, após a sua compostagem. O organomineral pode ser produzido nas indústrias ou na própria fazenda. O fertilizante orgânico deve estar finamente moído e rico em húmus para formar uma mistura bem homogênea com os fertilizantes minerais. Deve ter no máximo 20,0% de umidade se for ensacado. As vantagens do organomineral são as de evitar empedrar adubos muito higroscópicos como o nitrocálcio e o nitrato de cálcio; 500 kg de composto orgânico em 1 t do organomineral evita a fixação de P por protegê-lo; evita a “queima” de sementes e plântulas, pois diminui o índice salino dos adubos.
Na adubação da pastagem com fertilizantes orgânicos e organominerais, deveria ser visado, exclusivamente, o fornecimento de nutrientes minerais às plantas, desde que seja mais viável economicamente do que a adubação química, e não para aumentar o teor de matéria orgânica (MO) do solo, pois haveria a necessidade da aplicação de 40 a 60 t/ha de resíduos orgânicos para elevar em 1,0% a MO no solo. Nessas quantidades, torna-se impraticável a sua aplicação, principalmente em grandes propriedades. A maneira mais fácil e rápida de aumentar o teor de MO do solo sob pastagem é através da sua ciclagem, a partir das perdas de forragem que formam a cobertura morta do solo e, principalmente da morte das raízes, e a partir das fezes dos animais. Quanto mais produtiva for a pastagem, maior será a produção destes componentes.
A utilização de fontes de fertilizantes químicos e orgânicos combinados pode proporcionar a redução da dose de fertilizantes químicos como também os custos com adubação.
Para demonstrar o comparativo de fontes de adubos químicos com adubos orgânicos continuarei usando as cotações daquela fazenda no Estado do Goiás — a mesma que usei para escrever a sétima e a oitava parte dessa sequência de artigos (leia os artigos de novembro e dezembro de 2025) — a fim de manter a coerência dessas avaliações.
Lembrando, aquela fazenda encontra-se sob clima tropical, no bioma Cerrado, com temperatura e precipitações médias históricas de 26,9 ºC e 1.411 mm anuais, respectivamente, em um sistema de pastagem de sequeiro, com metas de capacidade de suporte de 3,2 UA/ha e produtividade de 21,5 @/ha para um período de seis meses de chuvas (Tabela 01).
Tabela 1.
Doses de nitrogênio (N), P2O5, K2O e enxofre (S) recomendadas para alcançar a meta de capacidade de suporte de 3,2 UA/ha e produtividade de 21,5 @/ha.
| Elemento | Unidade | Dose |
|---|---|---|
| Nitrogênio (N) | kg/ha | 195 |
| P₂O₅ | kg/ha | 26 |
| K₂O | kg/ha | 60 |
| Enxofre (S) | kg/ha | 12 |
Fonte e elaboração: Adilson Aguiar.
Após avaliar comparativamente as fontes de adubos simples e formulados NPKS, a opção de menor custo por hectare foi R$1.826,00 com as fontes de adubos simples MAP, KCL, sulfato de amônio e ureia convencional a preços cotados em abril de 2025 por R$4.520,00, R$2.650,00, R$1.890,00 e R$3.170,00 por tonelada posta fazenda, respectivamente. Por outro lado, o custo de produção interna do composto orgânico ficou em R$256,00/t com 2,25% de N, 2,10% de P2O5, 1,35% de K2O e 0,75% de S, na matéria original. A dose desse composto com melhor relação de benefício/custo foi de 5,0 t/ha, que atenderam toda a demanda por P, K (potássio) e S, e complementadas com 180 kg/ha de ureia para atender todo o N demandado.
Tabela 2.
Doses de adubos, químicos e químicos somados ao compostos orgânicos, em toneladas por hectare, e custo em R$/hectare.
| Fonte | Químico | Q + Composto | Químico | Q + Composto |
|---|---|---|---|---|
| t/ha | R$/ha | |||
| Composto | 0,00 | 5,00 | 0,00 | 1.282 |
| MAP | 0,05 | - | 226 | 0,0 |
| KCL | 0,10 | - | 265 | 0,0 |
| Ureia | 0,43 | 0,18 | 1.244 | 526 |
| Sulfato de amônio | 0,05 | - | 95 | 0,0 |
| Total | - | - | 1.829 | 1.808 |
Fonte e elaboração: Adilson Aguiar.
Quanto à tomada de decisão pela escolha dos três tipos de fertilizantes disponíveis no mercado, fontes química, orgânica e orgânica-química (mais conhecida por organomineral), considerar que a resposta da planta pode ser até 20,0% e 30,0% maior quando se utiliza fertilizantes orgânicos e organominerais, respectivamente, comparada à resposta alcançada com uma fonte química ou inorgânica.
Assim, a dose de composto nesse caso poderia ter sido reduzida de 5,0 para 3,5 a 4,0 t/ha e o custo seria reduzido em R$256,00 a R$384,00/ha, tornando o composto mais competitivo. Entretanto, nesse caso, se deu preferência por buscar maiores produtividades e aumento de fertilidade de solo — já que a produção de estercos e, consequentemente, de compostos é abundante por causa do grande número de animais confinados anualmente naquela fazenda.
Zootecnista, professor em cursos de pós-graduação nas Faculdades REHAGRO, na Faculdade de Gestão e Inovação (FGI) e nas Faculdades Associadas de Uberaba (FAZU); Consultor Associado da CONSUPEC - Consultoria e Planejamento Pecuário Ltda; Investidor nas atividades de pecuária de corte e de leite.
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