Com preços firmes e menor oferta, o confinador precisou ampliar o raio de originação de gado para garantir a reposição em 2025.
Foto: Bela Magrela
Artigo originalmente publicado na revista DBO.
O mercado de reposição atravessou o ano com as cotações subindo. A demanda, que estava contida em 2024, ganhou força logo no início de 2025. O volume de negócios aumentou.
Em 2025, o ágio entre o bezerro de desmama e o boi gordo cresceu. Esse diferencial subiu mês após mês em 2025. Considerando São Paulo, a cotação do bezerro de desmama subiu 11,3% desde dezembro de 2024 e, mesmo em momentos do ano em que a cotação do boi gordo caiu, o preço se manteve firme. A cotação vigente em dezembro é a maior desde janeiro de 2022.
Essa valorização é resultado de um mercado menos ofertado, após dois anos intensos de abates de fêmeas, e à demanda aquecida por categorias mais jovens – cenário que vem apertando a relação de troca, que é a pior em um ano.
Diante desse contexto, analisamos os resultados da pesquisa com produtores realizada durante a expedição da Scot Consultoria, o Confina Brasil. Uma das questões da pesquisa abordou a distância média percorrida pelos produtores para aquisição de bovinos. Os resultados estão a seguir:
O raio médio de originação representa a distância média percorrida pelos produtores para a aquisição de bovinos de reposição (bezerros, garrotes, novilhas e boi magro), destinados à composição dos plantéis de produção.
O raio médio de compra de reposição observado nos confinamentos visitados pela expedição foi de 418,5km.
São Paulo, Mato Grosso e Minas Gerais foram os estados que apresentaram os maiores raios médios de reposição, além do Pará, Bahia, Goiás e Tocantins, todos acima da média geral (figura 1).
Figura 1.
Raio médio de reposição dos confinamentos visitados (km).
Fonte: Confina Brasil / Elaborado por Scot Consultoria.
Em São Paulo, o raio médio atingiu 700,0km, o que representa uma diferença de 281,5km (ou 67,3%) acima da média geral. Em Mato Grosso, a distância média foi de 575,0km, 37,4% acima, enquanto em Minas Gerais o raio médio, de 560,0km, ficou 33,8% acima da média geral.
Por outro lado, Pará (14,7%), Bahia (10,5%), Goiás (10,2%) e Tocantins (3,5%) apresentaram raios médios ligeiramente superiores à média geral. Esses resultados indicam que, embora também haja movimentação de gado entre regiões, a abrangência das compras é menor nesses estados em comparação com os três primeiros.
Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná apresentam os menores raios médios de compra de reposição, com movimentações concentradas dentro dos próprios estados ou entre vizinhos – fato que, até 2024, era ainda usual em função do status sanitário referente à febre aftosa e, nos próximos anos, talvez possa sofrer alteração. Situação semelhante ocorre no Mato Grosso do Sul, onde a autossuficiência reduz as distâncias médias nas operações de reposição de bovinos.
Em maio de 2025, o Brasil foi reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), como livre de febre aftosa sem vacinação. Com a retirada das barreiras sanitárias entre estados e a ampliação das possibilidades de trânsito animal, eventuais ajustes nas movimentações de bovinos poderão ocorrer conforme o avanço das novas condições, podendo influenciar o raio médio de reposição.
Na tabela 1, apresentamos os valores mínimo, médio, mediano e máximo do raio de reposição (km) das propriedades visitadas, por estado e total geral.
Tabela 1.
Distância média de reposição de bovinos nos confinamentos pesquisados (km).
| UF | Mínimo | Média | Mediana | Máximo |
|---|---|---|---|---|
| SP | 400,00 | 700,00 | 650,00 | 1.000,00 |
| MT | 200,00 | 575,00 | 500,00 | 1.900,00 |
| MG | 500,00 | 560,00 | 500,00 | 750,00 |
| PA | 150,00 | 480,00 | 500,00 | 1.000,00 |
| BA | 250,00 | 462,50 | 400,00 | 800,00 |
| GO | 50,00 | 461,11 | 500,00 | 950,00 |
| TO | 100,00 | 433,33 | 250,00 | 1.300,00 |
| MS | 100,00 | 327,78 | 300,00 | 600,00 |
| RS | 150,00 | 237,50 | 250,00 | 300,00 |
| SC | 70,00 | 153,75 | 150,00 | 280,00 |
| PR | 50,00 | 120,00 | 115,00 | 200,00 |
| Geral | 50,00 | 418,48 | 300,00 | 1.900,00 |
Fonte: Confina Brasil / Elaborado por Scot Consultoria.
A elevada demanda por bovinos em estados com alta concentração de confinamentos, notadamente São Paulo (com raio médio de 700,00km), além da competitividade regional das unidades produtivas do Sudeste e Centro-Oeste por bovinos de reposição, impulsiona as cotações de reposição locais a patamares superiores. Para garantir a rentabilidade e otimizar custos, os produtores paulistas adotam uma estratégia logística de expansão do raio de originação, buscando gado em regiões onde os preços são mais competitivos.
O fluxo interestadual resultante se concentra em estados fornecedores como, por exemplo, Mato Grosso, Tocantins, Acre, Maranhão, Pará e Rondônia, onde as cotações de reposição chegam a ser inferiores em 5,0% a 29,9% em comparação com os preços observados em São Paulo.
A figura 2, de diferencial de preços, comprova essa atratividade econômica na maior parte das praças pecuárias do país em relação a São Paulo.
Figura 2.
Diferencial de preços do boi magro em diferentes estados brasileiros, em relação a São Paulo.
*Até novembro de 2025.
Fonte: Scot Consultoria
A figura 3, que ilustra a variação mensal da cotação do boi magro nessas praças, valida o resultado logístico dessa busca por preços, ao registrar, na praça paulista, patamares de preços mais desfavoráveis ao comprador.
Figura 3.
Variação mensal de preços de reposição de boi magro em diferentes estados brasileiros.
Fonte: Confina Brasil / Elaborado por Scot Consultoria
Os resultados da pesquisa evidenciam que, diante da firmeza do mercado de reposição em 2025, os produtores podem ter passado a ampliar o raio médio de originação como estratégia para viabilizar a recomposição dos rebanhos.
O Confina Brasil nasceu com o propósito de entender a realidade da pecuária intensiva nacional e, ao longo dos anos, tornou-se um verdadeiro retrato do campo brasileiro em movimento: diverso e resiliente.
Em sua sexta edição, em 2025, ao completarmos mais uma jornada de quilômetros rodados, porteiras abertas e histórias compartilhadas, reafirmando o mote que guiou esta edição: sempre em frente.
Durante quatro meses, a equipe da Scot Consultoria esteve na estrada coletando informações para construir um retrato da atividade de confinamento no país. O resultado desse trabalho está reunido no Benchmarking Confina Brasil 2025, uma análise gratuita e detalhada que sintetiza informações técnicas, econômicas e produtivas das propriedades visitadas.
Engenheiro agrônomo, formado na Esalq/USP, Piracicaba/SP. Fundador e CEO da Scot Consultoria. Atua na área de ciências agrárias, análises e consultoria de mercados agropecuários. É analista e consultor de mercado, com atuação nas áreas de pecuária de corte, leite, grãos e insumos agropecuários. É palestrante, facilitador e moderador de eventos conectados ao agronegócio. Atuou como Membro de Conselho Consultivo de empresas do setor e dirige as ações gerais da Scot Consultoria.
Zootecnista, formada pela Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade Estadual Paulista, campus de Jaboticabal (FCAV/UNESP), com MBA em Gestão de Negócios pela Pecege USP/Esalq. Atua na área de ciências agrárias, análises e consultoria de mercados agropecuários. Analista de mercado, com atuação nas áreas de pecuária de corte, leite, frango, suínos, grãos e insumos agropecuários. É editora-chefe da área de pecuária de leite. Elabora textos e artigos para publicações da Scot Consultoria e revistas e mídias conceituadas do setor. Ministra palestras e treinamentos nas áreas de mercado de leite, boi gordo, grãos e assuntos relacionados à agropecuária em geral.
Receba nossos relatórios diários e gratuitos