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Carta para o Mundo 2026

Entre progresso, desinformação e consumo excessivo, um convite à razão, à verdade e ao cuidado com o planeta.


Foto por: Freepik

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Caro Mundo,

Neste primeiro dia do ano, feriado universal, dia da paz, decidi fazê-lo útil para colocar em prática uma das melhores dicas que as publicações nas redes sociais nos oferecem a cada 31 de dezembro: o ano que começa são mais 365 oportunidades de fazermos algo de bom. No meu caso, nada além de dirigir-lhe algumas palavras que há muito gostaria de dividir com você, Mundo. Perdoe minha falta de formalidade, mas, como ambos somos idosos, creio que não irá se importar em não ser chamado de senhor.

Antes de qualquer coisa, importante admitir que não tenho palavras suficientes para expressar toda minha admiração por você. Do seu início repleto de fogo, gelo, som e fúria, das tantas transformações sofridas até ser o berço da vida, permitindo que formas tão maravilhosamente simples fossem evoluindo até que, hoje, um dos seus viventes é capaz de escrever uma carta a você! 

Nós, seres humanos, crescemos e nos multiplicamos não deixando nenhum canto inexplorado, sendo agentes de mudanças muito grandes, e temos deixado marcas profundas em você: acima e abaixo do solo, nos oceanos e na atmosfera. As mudanças foram tão intensas que há a proposta para chamar a era geológica atual de antropoceno (a era do Homo sapiens), com a indicação para que o início dela seja 1950, em função do início dos testes com bombas atômicas e as fortes marcas que elas deixaram¹.

Não que tenhamos feito tudo com má intenção. Muito pelo contrário! Foi apenas o esforço para, inicialmente, sobreviver e, depois, se dar ao luxo de não passar fome, ter um teto para nos proteger e ir progredindo para atender outras necessidades como ter saúde e uma vida mais longa. Nessa trajetória de cerca de 300 mil anos, evoluímos muito e somos capazes de façanhas espetaculares, como fazer microchips cujas conexões na escala nano (1 mm = 1 milhão de nanômetros) que não podem ter um erro maior do que cinco átomos de silício, mas, mesmo com essa complexidade, conseguimos produzir massivamente. Por outro lado, acumulamos falhas colossais, como, por exemplo escolher chumbo tetraetila como aditivo à gasolina e usá-lo por quase 100 anos, o que custou a morte e perda de qualidade de vida para bilhões de pessoas, além de contaminar você de chumbo até nos confins dos seus polos. Isso, mesmo que, à época do seu lançamento, em meados dos anos 1920, o uso deste aditivo mortal tenha sido desaconselhado por pesquisadores das universidades de Harvard, Yale e do Instituto de tecnologia de Massachusetts (MIT) e de autoridades de saúde dos EUA. Lamentavelmente, esses avisos foram ignorados.

Hoje, aqueles microchips produzidos aos bilhões permitem que quase toda informação relevante que ocorra em você esteja à disposição para 7 de cada dez pessoas que o habitam e portam um celular. Você poderia imaginar que, havendo tanta gente com acesso à informação, nunca mais ocorreria um erro como este, certo?

Infelizmente só resolvemos o gargalo do acesso das pessoas às informações, mas não a de terem a informação correta. Isso, mesmo que disponível, pois ela acaba eclipsada por uma grossa nuvem de desinformação. Além disso, como você bem sabe, a informação depende da interpretação de quem a recebe, que pode falhar por falta de base ou capacidade cognitiva. Todavia, a boa informação tem sido particularmente vítima da falta de isenção no julgamento. Deixam-se de lado os fatos e as evidências para, ao filtrar com uma lente ideológica, poder manter sua crença pessoal, mesmo que ela não tenha amparo na realidade.

Para a questão de a mentira suplantar a verdade, caro Mundo, o historiador Yuval Harari tem uma boa explicação: gerar uma mentira não custa nada (ou quase nada), enquanto ter uma informação sólida e robusta demanda esforço, tempo e dinheiro. Esse grande diferencial faz com que haja muito mais desinformação do que informação válida e esse desequilíbrio pode fazer com que recuperar a boa informação frequentemente seja como “achar uma agulha no palheiro”.

Você já deve ter notado, inclusive, que tudo que há de pior, relacionado ao ódio ou à mentira, tem um alcance muito maior do que pela via da civilidade e da verdade. Uma parte do ódio e da desinformação serem prevalentes advém de como nosso cérebro funciona, programado para sempre gastar o mínimo de energia possível, e, portanto, com uma forte preferência por mensagens simples e que lhe tragam conforto. Afinal, a verdade frequentemente depende de análise mais profunda e, por vezes, pode ser desconfortável. Por desconfortável aqui, não se trata de algo necessariamente desagradável, mas apenas que exija “desconstruir” uma “ex-verdade”, que não mais se aplica, para dar lugar à atualização que restabelece a realidade.

Além disso, temos um vestígio evolutivo (que ainda pode ser útil em casos de emergência) que nos faz gostar de uma contenda e, uma vez no modo “briga”, automaticamente o sistema “teimosia” é acionado. O modo “teimosia”  faz com que o cérebro fique imune à realidade e, mesmo com dados claríssimos da real situação, acima de quaisquer suspeitas e que podem até já estar, inclusive, sendo fisicamente sentida, o modo de “negação”, atua em segundo plano e mantém firme a conclusão furada. Cá entre nós, Mundo, somos muito bons na negação da realidade! Muitas vezes prefere-se uma mentira conveniente e quentinha, do que a luz fria da verdade. Infelizmente, as consequências de evitar a realidade são, invariavelmente, frustração, dor e arrependimento futuro.

Mas, Mundo, o problema não para aí. Há um complicador ainda mais poderoso que se aproveita desse nosso modus operandi: as empresas da Internet que intermediam o acesso à informação mais lucram quanto mais nós agirmos negativamente. Seus algoritmos incitam o pior do ser humano, como o ódio e a mentira, pois elas dão mais engajamento (a moeda corrente da Internet), fechando um círculo pernicioso na interação entre a humanidade e a tecnologia da informação mediada pelas “Big Techs”.

Os grandes ganhos estão com as, cada vez mais com essas poderosas, “Big Techs”, mas ficam muitos prejuízos para a sociedade em função desse imoral modelo de negócios. Quando são questionadas, evocam riscos à liberdade de expressão, algo que devemos, sim, preservar com toda a disposição, mas não à custa de denegrir reputações ou sustentar falsidades. Quem deu uma explicação muito boa sobre essa situação foi o Demi Getschko, pioneiro da Internet no Brasil e referência no assunto, quando disse, mais ou menos, assim: se o carteiro traz cartas falando mal de você é errado culpá-lo, mas, se ele ganha com isso (sabendo conteúdo e usando-o para tal), aí, é muito diferente.

Mundo, somos, enfim, bastante complicados. E vamos seguir mudando você, seja reduzindo sua biodiversidade, usando mais áreas urbanas e para produção de alimentos, deixando-o mais quente e com ainda mais gente. E muitos de nós temos consciência que você tem seus limites, ainda que não sejam exatamente bem delimitados, o que, na verdade, é motivo para sermos ainda mais conservadores. Há melhoras em algumas áreas, como uso de energia renováveis, mas, a maneira como funcionam nossas sociedades têm suas manias e distorções que nos sabotam e seria muito interessante tentar mudar velhos vícios e substituir por algumas virtudes ao alcance de todos.

Em relação a nossa autossabotagem, por exemplo, você deve ter percebido como, nos últimos cento e poucos anos, as mudanças aceleraram demais. Um dos motivos para isso tem ligação com Freud, mas não exatamente com o próprio pai da psicanálise, mas seu sobrinho “americano” Edward Bernays, pioneiro da propaganda que, promovendo a “cultura do desejo”, baseada na irracionalidade do consumidor, incentivou, com muito sucesso a massificação do consumo.

O estímulo ao consumo massal juntou-se às inovações tecnológicas da época, como a linha de montagem criada por Henry Ford, e houve um grande aumento na disponibilidade de bens de consumos que, barateados pela produção em escala, permitiram que muito mais pessoas tivessem acesso a elas, o que, em si foi positivo, com desenvolvimento, aumento de renda e conforto. O problema tem sido a dose adotada por uma sociedade baseada no frenesi do consumo, em que uma das grandes motivações da vida para muitas pessoas é possuir bens e pagar por serviços, sempre havendo algo a mais a ser conquistado, numa lista de “sonhos de consumo” intermináveis.

O outro lado da moeda, Mundo, e você sabe melhor do que ninguém: uma quantidade de descarte de bens gigantesco, exploração excessiva dos recursos naturais, poluição, degradação e desequilíbrio ambiental, piora da sanidade (física e mental) e, portanto, da qualidade de vida das pessoas.

É possível fazer diferente, Mundo?

A resposta é sim. Uma oportunidade que está ao alcance de todos é procurar alinhar suas ações ao que é melhor para você e seus habitantes. Mesmo que seja apenas caprichar um pouco mais nas escolhas e nas atitudes cotidianas. Pode ser exercendo a cidadania ao exigir que as empresas recebam os descartes que elas são legalmente obrigadas a dar fim (como baterias ou medicamentos) ou, até, simplesmente como ao não deixar uma torneira pingando. Cada atitude conta e o bom exemplo pode estimular mais gente a aderir e, se 8 bilhões de pessoas fecharem as torneiras que pingam, a economia de água será gigante!

Das inúmeras opções, a minha preferida, pois vai contra ser manipulado pela “cultura do desejo”, é usar a razão para evitar o consumo excessivo. Nada contra o consumo, nem contra realizar compras que deem prazer, mas, apenas e tão somente evitar os exageros, ao cair na armadilha dos mestres do marketing. A proposta é não se deixar levar e retomar as rédeas da decisão de consumo, fugindo do “ter por ter” ou apenas para mostrar o “poder ter”. Você, Mundo, obtém um grande benefício ambiental, mas a pessoa que evita a armadilha de Bernays, tem um ganho ainda maior, afinal quanto menos se investe no “ter” mais se valoriza o “ser”, ou seja, o foco sai do bem e volta ao indivíduo. O investimento é em si mesmo!

Para a compra que visa apenas ganhos de aparência, como comprar um Porsche ou uma Ferrari como símbolo de riqueza, aqui vale lembrar o filósofo estóico greco-romano Epíteto, que alertava que, se você se orgulha de ter um belo cavalo, você se orgulha de algo que é do cavalo e não seu. Enfim, o animal que é bonito, não você! Não há crime algum comprar um desses carros, mas se o objetivo é se sentir belo, o investimento no “ser” é mais efetivo e pode ser bem mais barato!

Mundo, meu velho, já o aborreci demais com tanta informação. Desculpem-nos por nossas limitações, mas eu sinceramente creio que podemos melhorar. Rever nossa caminhada mostra que, não raro, são as próprias contradições nos levando aos extremos e suas consequências, como as do consumo excessivo e de descompromisso com a realidade de hoje, que nos fazem encontrar caminhos mais virtuosos. E, ao contrário do que muita gente acha, rever nossa história mostra que, com dois passos à frente e um para trás, evoluímos demais. Evoluir parece ser nossa sina!

Vou finalizar compartilhando uma informação bem pessoal: Sou pesquisador da Embrapa e amo o que faço, mas já estou terminando a curva que deve me levar à reta final da minha atuação profissional. O tempo para fazer algo a mais vai se esgotando e, mesmo que eu não “saia da pista” antes, a perspectiva já é curta. Meu objetivo para esse período final é juntar os muitos avanços feitos pela pesquisa tropical brasileira e tentar modelar uma produção de carne bovina que, ao mesmo tempo em que exija menos de você, Mundo, garanta rentabilidade suficiente aos produtores para os estimularem a continuar alimentando seus habitantes.

De maneira bem simplificada, a proposta teria como base em melhor desempenho em pastagens, com um foco maior em desempenho individual (sacrificando produção por área), uso parcimonioso de suplementação concentrada, associado ao uso de confinamento (para terminação, para aliviar o uso do pasto no retorno da seca e, até, ajudar a cria melhorar seus índices), o aproveitamento dos dejetos deste para adubação das pastagens e culturas,  o uso do consórcio gramínea-leguminosa e de sistemas integrados e bioinsumos, na busca de ter o máximo de sinergia entre todos esses componentes para fazer uma produção menos dependente de insumos externos, privilegiando ao máximo a economia circular. Se, nesse modelo, ainda conseguir inserir tecnologias de pecuária de precisão e até de inteligência artificial, o monitoramento do desempenho individual dos animais e do manejo das pastagens permitirão decisões econômicas mais inteligentes. A produtividade desses sistemas não visaria chegar perto do que já se obtém hoje com sistemas baseados em maiores inputs de concentrado e adubação, mas tentaria ser competitivo economicamente ao aumentar a margem via redução de custos, o que faria dele uma opção mais acessível e mais resiliente às variações do custo dos insumos. Não seria uma proposta para substituir os excelentes modelos atuais de alta produção disponíveis, mas ter uma alternativa a mais. Por exemplo, nada impediria que uma mesma fazenda usasse ambos os modelos em áreas diferentes.

O trabalho de pesquisa é sempre incerto, mesmo que esteja apenas juntando tanta coisa boa que o esforço de tantos outros pesquisadores criou, mas ainda que seja apenas a semente de um caminho novo mais suave para você nos suportar, Mundo, seria minha forma de agradecer por tanto que você tão generosamente nos deu e nos dá!

Que, sendo mais atentos à boa informação e escolhendo mais o “ser” do que o “ter”, façamos por merecer uma caminhada que termine num tempo a perder de vista, com muita vida e alegria em você, meu Velho

¹Um exemplo de uso dessa marca foi um estudo de 2008 do Instituto Karolinska, na Suécia, que aproveitou o pico de carbono-14 na atmosfera devido aos testes nucleares dos anos 1950-1960 para determinar a taxa de renovação das células de gordura em humanos.

Sergio Raposo de Medeiros

Engenheiro agrônomo, formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo, com mestrado e doutorado pela mesma universidade. É pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste e especialista em nutrição animal com enfoque nos seguintes temas: exigência e eficiência na produção animal, qualidade de produtos animais e soluções tecnológicas para produção sustentável.

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