• Terça-feira, 31 de março de 2026
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Scot Consultoria

A agropecuária e a emissão de gases de efeito estufa

Entre ciência e produção, como a pecuária pode reduzir emissões sem comprometer a oferta de alimentos.


Foto: Freepik

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Fui convidado para dar uma palestra com intuito de auxiliar na capacitação de profissionais responsáveis pelos cursos técnicos agropecuários sob responsabilidade da Secretará de Educação do Estado de São Paulo, em um evento promovido pelo "De Olho no Material Escolar", e aproveito o conteúdo para passar para os leitores dessa coluna.

Efeito estufa

Começamos bem do básico, explicando o que é o efeito estufa: as casas de vegetação são estufas, em geral, feitas de vidro. Ele deixa passar a luz do sol, que aquece o interior da estufa. Tudo o que está dentro da estufa aquecida, reflete, então raios na faixa do infravermelho que, ao contrário da luz do sol, não passa pelo vidro, mantendo a temperatura da estufa maior do que a do exterior. No caso do nosso planeta, a luz do sol passa pela atmosfera e, parte dela é refletida de volta, e outra aquece os componentes da terra (oceanos, terra etc.) que refletem raios infravermelhos. Partes deste saem, mas parte acaba ficando retida nos componentes da atmosfera, particularmente no vapor d´água, mas também em alguns gases, com destaque para o gás carbônico (CO2), o metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O) que são chamados de gases de efeito estufa. Os gases fluorados, em bem menores concentrações, atuam com os demais gases de efeito estufa.

Bola de gelo

Sem o efeito estufa a Terra seria uma bola de gelo e graças a ele a temperatura média do globo fica próxima dos 15ºC. O problema é que estamos aumentando a “grossura” desse nosso cobertor natural. Isso tem causado o aquecimento global antropogênico (AGA), isto é, o aumento da temperatura média da Terra causado por atividade humana que, por sua vez, leva para mudanças nos padrões do clima de onde vem o nosso grande desafio: convivermos com as mudanças climáticas.

Já sentimos os efeitos das mudanças climáticas seja por secas mais intensas e duradoras, aumento da ocorrência de incêndios, chuvas torrenciais, inundações, quedas de barreiras, avalanches etc. Os eventos extremos estão mais frequentes, inclusive temperaturas muito abaixo do normal e nevascas mais intensas. Nem todos têm a “assinatura” das mudanças climáticas, mas todos são agravados pelo aquecimento global. Assim, por exemplo, chuvas são mais intensas porque o ar aquecido comporta mais água, o que explica a maior frequência de pluviosidade causando transtornos. Todavia, para ser um evento que evidencia mudanças no padrão climático são feitos estudos de atribuição. As repetidas secas na Amazônia, por exemplo, seriam um exemplo de ter a assinatura das mudanças climáticas. Para mostrar como o brasileiro está em relação a percepção sobre os eventos extremos, uma pesquisa deste ano da Ipsos para o Instituto Talano mostrou que 7 em cada 10 compatriotas acreditam que eles estão aumentando.

Persistência do aumento da temperatura

Enquanto isso, os dados sobre a temperatura global indicam que o aquecimento está se intensificando, com os últimos 11 anos sendo os mais quentes já registrados. Além disso, 2024, 2023 e 2025 se destacam como os três anos mais quentes, respectivamente, ocupando o primeiro, segundo e terceiro lugares. Eles aparecem destacados em relação aos demais. Os dados da Earth Berkeley da Universidade de Berkeley, nos EUA, do último relatório deste ano, mostram que 2026 tem grande probabilidade de ser o terceiro ou quarto mais quente, mostrando claramente uma persistência no aumento da temperatura.

Esse aumento está de acordo com o aumento do principal gás de efeito estufa (GEE), o CO2. Depois de se manter relativamente estável por milhares de anos, na casa dos 280 ppm até 1850, após a revolução industrial, foi para 315 ppm cem anos mais tarde, com um aumento de 0,3ºC em relação à média de temperatura do período entre 1850-1900, a chamada anomalia climática. Hoje, estamos em cerca de 430 ppm e a anomalia climática ultrapassou 1,4ºC. A única maneira de fazê-la parar de aumentar e diminuir é deixar de acumular os GEE na atmosfera.

Os valores são em CO2-equivalente, baseado no poder de aquecimento global considerando o efeito por 100 anos que nos dá a unidade em inglês “Global Warning Potential 100 years”, abreviada como GWP100. Como o CH4 tem 28 vezes maior potencial de aquecimento que o CO2, o valor da emissão em metano deve ser multiplicado por esse fator. Analogamente, a emissão do N2O é multiplicada por 273. Por exemplo, uma emissão contendo 100 g de CO2, 10 g de CH4 e 1 g de N2O, resultaria no seguinte cálculo para gerar seu valor em CO2-equivalente:

1 X 100 g de CO2 = 100 g de CO2-equivalente

28 X 10 g de CH4 = 280 g de CO2-equivalente

273 X 1 g de N2O = 273 g de CO2-equivalente

Total = 653 g de CO2-equivalente

Esse cálculo com esses fatores parte da premissa que a permanência dos três elementos na atmosfera é o mesmo, mas isto está longe de ser verdade: o CO2 pode permanecer mais de 100 mil anos, o N2O cerca de 100 anos e o metano, por sua vez, apenas cerca de 12 anos. Por isso, ele é conhecido como GEE de vida curta. O GWP100, portanto, superestima o efeito desse GEE. Pior, é menos sensível à sua redução. Em função disso há a proposta de usar o GWP estrela (GWP*) que levaria o tempo de permanência de cada gás como é, todavia, seu uso depende de um convencimento dos especialistas na área.

O CO2 é o principal GEE e vem primordialmente da queima de combustíveis fósseis. O CH4, o segundo mais importante, está ligado à pecuária, cultura do arroz, aterros sanitários e emissões fugidias (vazamentos) da atividade de petróleo e gás. Por fim, o óxido nitroso também está ligado ao setor agrícola com a emissão ligada ao uso de fertilizantes e à degradação dos dejetos animais.

Infelizmente, estamos aumentando a concentração dos GEE na atmosfera, como pode ser visto no quadro 1:

Quadro 1.

GEE 1990 2019
CO2 72,0% 76,0%
CH4 (CO2-eq) 21,0% 18,0%
N2O (CO2-eq) 5,0% 4,0%
Emissão Global 38 Gt CO2-eq 59 Gt CO2-eq

Fonte: IPCC AR6

Ainda assim, se estivéssemos mantendo a taxa de emissão do início do século XXI, esse valor seria muito mais alto (talvez uns 65 Gt). Há muitas ações de mitigação de emissão no mundo que têm ganhado tração e vida própria, isto é, a adoção é espontânea, pois ela tem menor custo. É o caso da energia elétrica produzida a partir de fontes renováveis (solar e vento). Em outubro de 2025, por exemplo, a manchete era que a energia elétrica de fontes renováveis tinha ultrapassado o carvão sendo a maior fonte desse tipo de energia. Portanto, esforços bem-sucedidos estão sendo feitos, apenas num ritmo menor do que o necessário.

Brasil x os três maiores emissores de GEE

O Brasil tem se mantido no Top 10 entre os maiores emissores, flutuando entre o 5o. e 8o. lugar, mas com uma relativamente modesta participação próxima dos 3,0%, contra os bem mais de 50,0% que representam os três maiores emissores: China, EUA e Comunidade Europeia. A participação da agropecuária seria perto de 1/3 dos 3,0%: 0,93% (com dados de 2020 e 2022). Assim, se num passe de mágica a gente fizesse o “agro brasileiro” sumir, ainda teríamos 99,0% do problema e um mundo passando fome. Por outro lado, é importante entender que a grande maioria dos países do mundo emite menos do que 1,0% e, portanto, todos devem contribuir. Felizmente, o Brasil pode ajudar muito, inclusive com chances de se beneficiar disso.

O inventário brasileiro das emissões nos dá uma fotografia da situação e nos cinco setores de 2022 (2,0 Gt CO2-eq) temos a seguinte ordem:

1o. mudança de uso da terra e florestas: 39,5%;

2o. agropecuária: 30,5%;

3o. energia: 20,5%;

4o. processos industriais e uso de produtos: 5,0%;

5o. resíduos: 4,5%.

Com a redução do desmatamento é provável que a agropecuária passe a liderança no próximo inventário, mesmo que não aumente sua emissão. Temos que lembrar que os valores em porcentagem são relativos. Por exemplo, o fato de o Brasil ter quase 50,0% da sua matriz energética com renováveis, contra apenas 14,0% no resto do mundo já faz o agro se destacar. Pode-se ver isso comparando o Brasil com os EUA: no inventário daquele país, a agropecuária aparece como responsável por 10,0% da emissão, mas numa base de 5,5 Gt CO2-eq, ou seja, ela emite 0,55 Gt CO2-eq. Esse valor para o Brasil é de 0,61 Gt CO2-eq (30,5% x 2,0 Gt CO2-eq). Ou seja, apesar de, em porcentagem o Brasil ter quase 3 vezes a emissão dos EUA, comparando o valor das emissões, essa diferença cai para apenas 1,11 vezes.

Do total da emissão do setor agropecuário no Brasil, 64,0% vêm da fermentação entérica, com 95,0% desse valor sendo de responsabilidade dos bovinos. A pecuária ainda responde por 4,6% da emissão dos dejetos animais. Sobram cerca de 30,0%, que recaem mais sobre a agricultura com manejo do solo (23,3%), calagem (4,3%) e aplicação de ureia (0,7%).

O CH4 da fermentação entérica é inerente ao metabolismo ruminal e pode ser considerada uma pequena taxa frente aos benefícios que ela traz, particularmente pela produção de bovinos poder ser feita com base em forragem, coprodutos e resíduos, praticamente não competindo conosco por alimentos. Especialmente graças aos ruminantes (ovinos, caprinos, búfalos e bois), a produção animal mundial usa apenas 14,0% de alimentos passíveis de consumo humano. No Brasil, de cada 100,0 kg de carne bovina, 97,0 kg foram produzidos com base em pastagem. Assim, não o “pum”, mas o “arroto do boi”, onde 95,0% do metano ruminal é eliminado eructado pela narina e boca é o nosso desafio. Desafio no sentido de reduzir:

1. por unidade por dia,

2. por quilograma de matéria seca consumida e, principalmente,

3. por quilograma de produto produzido (exemplo: kg de CH4/kg de carne ou leite), também conhecido como intensidade de emissão.

Dentre essas três métricas, a intensidade de emissão é a preferida, pois visa reduzir o metano, mas, ao mesmo tempo, manter a produção de alimentos.

Mas, de todos os GEE, por que o Metano é sempre tão destacado?

Além dele ser um potente GEE, como vimos, ele é o que mais pode fazer diferença para reduzir a temperatura, visto que ele se mantém na atmosfera por apenas 12 anos. Um trabalho de 2021 mostra que entre 2030 e 2100, é possível, incluindo lançar mão de opções (hoje) que necessitam aporte de dinheiro para que aconteçam, haveria um potencial de evitar o aumento de até 0,74ºC, um resultado gigantesco.

Alguns devem estar se perguntando, porque a preocupação se o metano é reciclado a cada 12 anos e, portanto, não acumularia. Isso, infelizmente, só seria verdade para um rebanho estável. No caso do Brasil, de 2013 a 2022 ele aumentou 14,0%, mas com a boa notícia que a emissão do CH4 no mesmo período teve um aumento menor, de 12,0%, ou seja, melhoramos nossa eficiência (reduzimos nossa intensidade de emissão).

Para mostrar a importância da escolha da intensidade de emissão como métrica preferencial veja o quadro abaixo:

Métrica Animal baixo desempenho Animal alto desempenho
kg CH4/dia 113 (-42,0%) 161
Ganho, g/cab.dia 200 540 (+2,7x)
kg CH4/kg de ganho 565 298 (-53,0%)

Fonte: Sergio Raposo de Medeiros.

Apesar do animal de baixo desempenho ter 42,0% menos emissão por dia, o animal de alto desempenho tem uma intensidade de emissão 53,0% menor. Além disso, precisamos de 2,7 menos animais de baixo desempenho para produzir a mesma quantidade de carne. O desafio é reduzir a intensidade de emissão em uma proporção maior do que o aumento do rebanho. A matemática aqui é simples: se reduzirmos a intensidade de emissão em 10,0%, mas aumentarmos o rebanho nos mesmos 10,0%, não saímos do “0 x 0”. Felizmente, temos condições de reduzir nosso rebanho, sem perda de produção, apenas sendo mais eficientes.

Opções para mitigar as emissões de GEE

Vamos usar uma publicação da FAO, que já falamos nesse espaço para listar as opções que temos para mitigar as emissões de GEE e o potencial delas. Começamos pela minha área, a nutrição animal: uso de modificadores da fermentação ruminal (exemplo: aditivos, nitrato etc.) e melhorias nos alimentos e na alimentação podem reduzir 15,0% a emissão atual de 6,12 Gt CO2-eq.  Já um melhor manejo da pastagem pode aumentar a produtividade pecuária e, ao mesmo tempo, sequestrar C tendo potencial de redução de mais de 39,0% nas emissões atuais. Essas mesmas coisas acontecem no caso das integrações lavoura-pecuária-floresta (ILPF) – e todas suas variações –, mas elas facilitam a bioeconomia circular, o que colocaria num patamar próximo dos 50,0% de potencial de mitigação com base na emissão atual.

No Brasil, como, apesar de imensos aumentos de produtividade nas últimas cinco décadas, ainda temos índices zootécnicos bem abaixo do potencial, a opção de reduzir o rebanho sem perder produção, podendo até aumentá-la é uma realidade. Um exemplo recorrente nesta coluna é o caso de passar dos 65,0% de desmame do rebanho para 80,0%, apenas com melhor manejo de pastagem e suplementação estratégica na seca: seriam necessárias 15 milhões de vacas para o mesmo número de bezerros desmamados. Reduzir a idade das novilhas (fase de cria) na entrada de serviço é outra opção de redução de rebanho.

Há também espaço para aumentar a velocidade de produção e precisar de menos animais para produzir a mesma quantidade de carne no tempo/período. Uma comparação com os EUA é interessante, ele produz quase a mesma tonelagem de carne que nós: o Brasil produz 12,4 t de carne x 11,8 t de carne dos EUA, mas com um rebanho muito menor (238 milhões de cabeças no Brasil x 87 milhões de cabeças nos EUA). São dois sistemas muito diferentes, sendo o Brasil baseado em pastagem e o dos EUA, em confinamento, mas é possível, como no exemplo das vacas de cria acima, lançar mão de muitos recursos de intensificação em pastagem (incluindo o uso de confinamento e confinamento em pasto, ambos de curta duração) que manterão as boas virtudes do pasto (como competir menos com alimentos humanos e ser mais desejável do ponto de vista de bem-estar animal, uma cobrança cada vez maior dos consumidores) e, ao mesmo tempo, ajudarão a reduzir nossa pegada de carbono. Por fim, se as estratégias de intensificação forem bem-feitas e selecionadas com atenção ao seu benefício:custo, como reiteradamente provado por análises econômicas, a rentabilidade do produtor vai aumentar.

Final

Por fim, temos uma perspectiva ainda melhor pelas oportunidades da pecuária de precisão e a hologenômica podem nos dar, em especial no contexto da inteligência artificial oportunizando ganhos ainda mais rápidos e relevantes.

Podemos concluir que somos emissores relevantes no mundo, mas com um perfil de emissões que temos grandes possibilidades de reduzir. Que a agropecuária é o setor que mais pode contribuir, tanto com mitigação como por sequestro de C. Que a métrica ideal para a pecuária é a intensidade de emissão e que a redução dela deve ser acompanhada de redução no rebanho, pelo aumento de eficiência, otimizando o efeito de redução de emissão. Que manter nossa produção com base em pastagem é possível e desejável pelas inúmeras vantagens, com destaque à menor competição por alimentos passíveis de consumo humano, ao uso de áreas marginais (não favoráveis à agricultura), bem como seu uso em integrações (nas quais o C das raízes das forrageiras são o coração do sucesso destas). Não importa tanto quanto conseguiremos fazer, mas que cada ação para reduzir o AGA é importante para reduzir os efeitos nefastos das mudanças climáticas: cada centésimo de redução na anomalia da temperatura, conta!

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