Rota 1 do Circuito Cria percorreu fazendas nos dois estados e encontrou caminhos opostos para o mesmo objetivo: transformar o bezerro em resultado.
Foto: Bela Magrela
Desde 2024, a expedição Circuito Cria, realizada pela Scot Consultoria, percorre fazendas referência em cria e ciclo completo, para mapear indicadores zootécnicos, sanitários, estruturais, entre outros. A pesquisa expedicionária vai a campo para trocar experiências e trazer na bagagem tendências do setor, histórias e vivências de sucesso de pecuaristas que veem no bezerro o caminho para o crescimento da pecuária de corte no Brasil.
A Rota 1 chegou ao fim em 6 de agosto, após levar a equipe por diversas propriedades do Mato Grosso e do Pará, em um mergulho na rotina de quem vive a pecuária de cria. Mais do que levantar informações sobre os sistemas de produção, a jornada permitiu evidenciar o que ocorre dentro da porteira e a paixão de quem escolheu fazer da cria o seu negócio.
Algumas características se mostraram recorrentes ao longo das visitas, entre elas a integração entre as fases de cria, recria e engorda. Na maioria das propriedades, os produtores optam pela condução do ciclo completo, estratégia que proporciona maior controle sobre a operação, melhor aproveitamento dos recursos e maior giro do sistema, além de oferecer mais alternativas para lidar com os desafios do mercado. Nesse processo, se destaca também a participação de famílias, ao lado de uma equipe de campo dedicada, todos comprometidos em garantir o bom desempenho da atividade.
O que se viu ao longo da rota foram realidades diferentes, marcadas pelas particularidades de cada região, estrutura e perfil de produtor, mas conectadas por um mesmo objetivo: produzir mais e melhor dentro das condições de cada propriedade.

Foto: Bela Magrela
No Mato Grosso, as fazendas visitadas em Poconé, Barra do Bugres, Brasnorte, Juara, Marcelândia, Nova Canaã do Norte, Alta Floresta e Nova Guarita mostraram realidades específicas. Em algumas delas, a divisão entre cria e recria praticamente desapareceu. O bezerro desmamado já segue direto para o cocho. As fêmeas entram em sequestro até a prenhez ou até o pasto apresentar condições de recebê-las, enquanto os machos seguem da desmama para a terminação, sem passar por uma recria tradicional a pasto.
Um dos relatos que mais chamou atenção durante a expedição foi justamente a percepção de que a recria praticamente deixou de existir dentro da porteira. “Ela não sumiu, mas deixou de ser uma etapa para virar um intervalo curto e controlado”, explicou o médico-veterinário e coordenador técnico da pesquisa, Diego Rossin.
A inversão mais visível está na novilha. No modelo antigo, ela ocupava o pior pasto da propriedade: "o criador de antigamente tinha até raiva dessa categoria", resumiu um produtor de Nova Guarita. Hoje é a categoria prioritária, recebendo a melhor nutrição do sistema em algumas realidades. As fêmeas são desafiadas entre 12 e 14 meses, com cerca de 280 a 300 quilos, e seguem recebendo proteinado durante toda a fase de primípara, até a reconcepção, onde a suplementação só recua a partir da secundípara. O resultado é um plantel jovem, com idade média abaixo de seis anos, o que também muda o olhar sobre as vacas de descarte. De categoria magra e desvalorizada, elas passam a chegar ao abate pesadas e bem remuneradas, ganhando inclusive apelo comercial na comercialização de um nicho de carne.

Foto: Bela Magrela
Para os machos desmamados, o processo também foi acelerado, o uso se torna opcional, seja para, recria, venda ou para terminação, dependendo da atratividade do mercado e da meta de produção. O cenário também mudou para essa categoria dentro da fazenda. Há propriedades em que os machos são terminados em confinamento próprio, a pasto de modo mais intensificado, ou ainda destinados a outra fazenda do mesmo grupo, separando as operações. Essa lógica de introduzir uma precocidade e intensidade de giro de estoque cada vez maior, tanto nas fêmeas para reprodução quanto nos machos para terminação, foi resumida por um dos pecuaristas quase como visão de negócio: "não interessa reduzir custo, interessa diluí-lo produzindo mais — diluição de custo fixo, giro alto e nenhuma categoria parada esperando para produzir". Fica nítido que as operações estão se estruturando, como qualquer empresa, para superar os desafios e entregar um bovino novo e bem-acabado.
O ciclo produtivo se fecha com cruzamento industrial escalonado. A cabeceira do rebanho é inseminada com Nelore para reposição de matrizes, o restante cruzado com Angus para gerar a F1 (Nelore/Angus), que por sua vez é inseminada jovem com Brangus ou Charolês em esquema terminal, desmama uma cria e é abatida pesada, ainda na janela de bonificação por dentição. A diferença em relação ao Pará é que, no Mato Grosso, esse arranjo é sustentado por remuneração diferenciada, com bonificação por idade e carcaça.
Vale ressaltar que a lavoura tem ganhado mais espaço, promovendo um ecossistema eficiente e sustentável. Resultado do avanço da integração lavoura-pecuária, como estratégia de manejo, onde o ciclo soja, milho consorciado com capim, seguido de pasto, cumpre duas funções simultâneas:
• garante alimento na seca;
• e pode, dependendo do sistema, funcionar como programa permanente de reforma de pastagem, pela rotação das áreas de plantio.
Em Nova Guarita, a integração permitiu antecipar a estação de monta, que agora começa em julho, chegando ao primeiro dia de estação com 65,0% das matrizes aptas. Vários gestores foram diretos ao dizer que sem a agricultura, a lotação atual não existiria. Ter estratégia para o período seco, aliás, é pré-requisito no estado, e não diferencial.

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No Pará, as visitas iniciaram na BR-163, em Castelo dos Sonhos e seguiram em direção a região cortada pela Transamazônica, que reúne municípios como Uruará, Altamira, Novo Repartimento e Marabá. Hoje é uma das praças mais movimentadas do país para compra de bezerros, mas a modernização por ali segue um caminho diferente do observado no Mato Grosso. A intensificação ainda está em construção, moldada pelas condições climáticas e pelas particularidades regionais, em que o solo, a logística e a infraestrutura impõem um ritmo próprio à evolução do sistema.
O avanço genético é expressivo, e revela uma região em transição. Há propriedades operando com 100,0% de inseminação artificial, sem touro e sem repasse, rodando até três IATFs por estação. Mesmo com grande parte dos touros reprodutores utilizado nos plantéis ainda vindos de fora, foi nítido observar o desenvolvimento de núcleos locais de Nelore PO, com um propósito claro: produzir um bovino adaptado à região, criado com sal mineral, pensando na predominância nutricional da região, apoiados em programas de avaliação genética que já classificam o rebanho e direcionam as melhores matrizes ao melhoramento. A válvula está sendo aberta, a região começa a produzir sua própria genética, e não apenas a importar de fora.
Na maior parte dos anos, essa região do Pará tem o oposto de um problema de pasto: chuva, umidade e luminosidade combinam-se para produzir capim vigoroso e sustentar alta lotação, quando bem manejado. O gargalo, no entanto, está do outro lado da porteira. Com poucas plantas frigoríficas na região e nenhuma bonificação por qualidade de carcaça, uma novilha F1 Angus vale, na prática, o mesmo que uma novilha Nelore para o abate. O frigorífico que poderia remunerar essa genética está a 1.100 ou 1.200 quilômetros de distância, ainda dentro do próprio estado. O que, de maneira geral, faz com que essa categoria saia ainda jovem da região.

Foto: Bela Magrela
Uma das opções comerciais que vem ganhando espaço é a negociação direta por contrato com empresas exportadoras e centrais de genética. Esse modelo remunera o bezerro cruzado ao preço de São Paulo (com ágio de 25% para machos e 15% para fêmeas), válido para animais de até 300 quilos. Na prática, isso desenhou, em algumas realidades, a possibilidade de uma desmama antecipada e uma recria curta e muito objetiva, justamente na fase de melhor conversão, sobretudo no cruzado Angus. Nesses contratos, a referência de preço passou a ser São Paulo, e não a praça local. Boa parte desses animais seguem para o navio, realidade já consolidada na região, até mesmo incluindo fêmeas F1 prenhes exportadas em pé.
Vale registrar, ainda, o pano de fundo em que essa pecuária opera: municípios onde pecuária e cacau já são atividades consolidadas, dividindo espaço e renda na mesma paisagem. É para esse cenário que a região caminha nos próximos anos, com genética própria ganhando corpo e insumos advindos da agricultura ou até mesmo das indústrias de etanol de milho cada vez mais próximas.

Foto: Bela Magrela
Os técnicos da Scot voltam para a estrada no dia 24 de agosto para a rota 2, que sairá do Tocantins, descendo para Minas Gerais e Goiás, finalizando a última fase da pesquisa expedicionária no Mato Grosso do Sul, no dia 18 de setembro.
Toda a informação coletada a campo ao longo destes três anos deve se tornar pública em um relatório construído pela equipe responsável pela expedição.
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