Palestras da tarde do terceiro dia do evento da Scot mostram que eficiência econômica, liderança e visão estratégica são determinantes para sustentar resultados na pecuária intensiva.
O último bloco do Encontro de Confinamento e Recriadores da Scot Consultoria trouxe uma visão prática e estratégica sobre os principais desafios do confinamento em 2026. Em um ambiente de custos elevados e margens cada vez mais ajustadas, especialistas destacaram que o produtor precisa olhar além da porteira, incorporando gestão, inovação e valorização de ativos muitas vezes negligenciados.
A mensagem foi clara: o confinamento deixou de ser apenas uma ferramenta produtiva e passou a exigir visão empresarial, controle financeiro e capacidade de adaptação.
Abrindo o bloco, Sérgio Pellizer, CEO da Fazenda Conforto e sócio fundador do Hub Criah, apresentou uma mudança de lógica importante dentro da propriedade: o resíduo como fonte de receita e eficiência.
Segundo ele, a busca por produtividade passa por inovação constante. “A Conforto está sempre buscando investir um pouco mais”, afirmou, destacando testes com diferentes híbridos e tecnologias no campo.
Pellizer chamou atenção para o uso de insumos como o silicato de cálcio e magnésio, que impactam diretamente o sistema radicular. “Eu tenho raízes 33% mais compridas e uma área de superfície radicular 52% maior”, explicou, associando o ganho à maior resistência ao estresse hídrico e melhor absorção de nutrientes.
Além da produtividade, ele destacou um novo componente econômico: o crédito de carbono. “Esse intemperismo faz com que o carbono se retenha e fique milhares de anos no solo”, afirmou.
Mas o ponto central foi a valorização do esterco. “Se você confinar um boi durante um ano, só o esterco dele já pagou esse boi”, disse, defendendo que o produtor precisa “envelopar melhor esse produto” e enxergar o potencial de mercado. “Estamos no melhor momento para comercializar isso e ganhar dinheiro.”
A gestão da fazenda como empresa foi o foco da apresentação de Gabriel Gonçalves Martins, gerente de gestão do agronegócio da Carapreta Carnes Nobres. Para ele, o resultado está diretamente ligado à capacidade de liderança e análise de dados.
“O resultado só vai crescer quando a liderança escuta”, afirmou, reforçando a importância de discutir números com a equipe. Segundo ele, medir não é suficiente: “se a gente não conversa e não analisa os resultados, eles não viram ação”.
Martins também desmistificou a ideia de que evolução depende de grandes investimentos. “A gestão não começa com tecnologia cara, começa com o que está ao alcance de quem decide evoluir”, disse.
Ele destacou ainda a importância da atitude diante das limitações. “Você pode não ter as melhores condições, mas não pode se conformar”, afirmou. Para ele, o caminho passa por priorização e execução: “decidir evoluir continuamente dentro das condições possíveis”.
No fechamento, trouxe um conceito central: “controle sem processo é apenas dado e processo sem liderança não vira resultado”, reforçando que pessoas e gestão caminham juntas.
A análise econômica do confinamento foi aprofundada por Luciano Morgan, diretor do Confinamento Monte Alegre (CMA), que destacou a importância de conhecer profundamente os custos antes de qualquer decisão.
“Dependendo da operação, você já sai devendo R$333 por boi”, alertou, ao analisar a realidade dentro da porteira. Para ele, a decisão entre investir ou terceirizar precisa ser baseada em conta, não em percepção.
“Tem que fazer conta”, reforçou, destacando que a terceirização deve ser vista como parte do sistema produtivo. “Hoje o confinamento é uma ferramenta de aceleração de produção e pode incluir a terceirização”, afirmou.
Morgan também destacou ganhos simples, mas relevantes, dentro do sistema. “Só de ajustar o peso médio dos animais no pasto você pode ganhar de uma a três arrobas por hectare ao ano”, explicou.
O recado foi direto: profissionalização. “Seja especialista no que você faz ou seja parceiro de um especialista”, disse. E reforçou a necessidade de disciplina financeira: “faça orçamento anual e revise mensalmente”.
Encerrando o bloco, Thiago Amorim, diretor de pecuária da Motta Agropecuária, trouxe uma reflexão sobre o fator humano e o posicionamento do Brasil no mercado global.
Ele destacou a importância de entender o principal parceiro comercial do país. “Estudem a China, entendam a cultura e os movimentos deles”, afirmou, reforçando que o Brasil precisa evoluir na forma de negociação.
Segundo Amorim, o setor precisa mudar a postura. “A gente precisa negociar de igual para igual, parar com esse efeito de colono”, disse, defendendo maior valorização do produto brasileiro.
Ele também ressaltou o avanço tecnológico já disponível no campo. “Hoje conseguimos entregar um animal 100% rastreável, com histórico completo via QR Code”, afirmou.
No entanto, o principal alerta foi sobre pessoas. “A fábrica de peão está acabando”, disse, chamando atenção para a escassez de mão de obra qualificada. Para ele, o futuro passa por desenvolvimento humano: “precisamos cuidar das pessoas e desenvolver quem está dentro do negócio”.
Amorim também apontou a necessidade de integrar tecnologia e gestão de pessoas. “Pensem em como inserir a inteligência artificial dentro dessa escala, mas sem esquecer do fator humano”, concluiu.
As palestras da tarde reforçaram que o confinamento moderno exige uma abordagem muito mais ampla do que apenas produção. Resíduos viram ativos, gestão define resultados, decisões precisam ser baseadas em números e pessoas se tornam o principal diferencial competitivo.
Em um cenário de maior complexidade, quem conseguir integrar eficiência produtiva, gestão estratégica e desenvolvimento humano estará melhor posicionado para capturar valor na pecuária dos próximos anos.
Matéria originalmente publicada em: Gestão, resíduos e pessoas: os pilares do confinamento moderno em um cenário de margens pressionadas
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