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Scot Consultoria

Carne uruguaia reina no mercado europeu


Quinta-feira, 24 de julho de 2008 - 10h30

As restrições da União Européia à carne bovina brasileira geraram um cenário inédito no mercado internacional: o Uruguai, que até 2007 exportava volumes pequenos para o bloco, dobrou os embarques do produto este ano e está vendendo cortes nobres a preços recordes. A situação beneficia empresas brasileiras, como Marfrig e Bertin, que estão no país vizinho e têm conseguido exportar carne in natura para a União Européia a partir de suas unidades uruguaias. Com o Brasil praticamente fora do mercado e a Argentina limitando as vendas externas de carne, o Uruguai chegou a exportar filé mignon para a UE por US$33 mil por tonelada, preço jamais alcançado. Enquanto isso, o Brasil negocia o mesmo corte em mercados como Rússia, Hong Kong e países do Oriente Médio por, no máximo, US$11 mil a tonelada - isto é, um terço do valor que o Uruguai consegue no mercado europeu. As restrições da Europa - que definiu, no começo do ano, que só vai importar carne bovina proveniente de animais de fazendas brasileiras rastreadas e credenciadas - fez o Brasil vender muito menos carne in natura ao bloco no primeiro semestre deste ano: foram apenas 33,4 mil toneladas (equivalente-carcaça) no período, 77% abaixo das 145,7 mil toneladas do mesmo período de 2007, de acordo com dados da Secex compilados pela Scot Consultoria. Já o Uruguai exportou entre janeiro e o último dia 12 de julho, um volume de 54 mil toneladas (equivalente-carcaça) de carne bovina ao bloco, quase o dobro de igual intervalo de 2007, conforme números preliminares do Instituto Nacional de Carnes (INAC), órgão de estatísticas ligado ao governo uruguaio. O analista Rafael Tardáguila, da Blasina & Tardáguila Consultores Asociados, de Montevidéu, observa que há pouca carne para ser vendida no mercado, por isso o Uruguai ampliou os embarques à Europa. Além disso, o país também deslocou parte de suas exportações dos Estados Unidos para a Rússia, que está demandando mais carne este ano e por isso pagando mais. Um efeito imediato dessa demanda por carne maior também é a valorização do boi no mercado uruguaio. O fato de as exportações brasileiras para a UE serem restritas é o principal motivo para a recente valorização dos preços da carne bovina no mercado internacional, mas o produto já vinha em alta, observa um analista. Em outubro do ano passado, antes de a UE impor as restrições ao Brasil, frigoríficos brasileiros já conseguiram exportar filé mignon por mais de US$20 mil por tonelada, conseqüência da demanda aquecida e da menor oferta de carne. Não há dúvida de que o quadro favorece as empresas que estão no Uruguai, mas poder exportar à Europa a partir do país vizinho compensa apenas parte da perda por não exportar a partir de unidades no Brasil, diz Ricardo Florence, diretor de relações com investidores do Marfrig. A empresa já é hoje a maior em carne bovina do Uruguai e a maior exportadora do produto do país. Ele diz que a estratégia do Marfrig, desde o início das restrições européias, sempre foi atender os clientes a partir de Uruguai e Argentina. Questionado se a possibilidade de exportar à UE pelo Uruguai reduz a mobilização para que o Brasil volte a exportar, Florence afirma que o Marfrig tem plantas habilitadas a vender ao bloco e que o "Brasil tem se esforçado" para ampliar a lista de fazendas aptas a fornecer animais para abate. Hoje o número é de menos de 90 propriedades. Marco Bicchieri, diretor de estratégia comercial e de relações institucionais do Bertin, observa que, depois de disparar, os preços dos cortes para a Europa começam a recuar. “Chegou a um limite, e as férias [européias] reduzem a demanda”, afirma. Com isso, os novos negócios com filé do Uruguai, por exemplo, já saem na casa de US$28 mil, de qualquer forma, um preço elevado. Para Bicchieri, a alta do boi no mercado brasileiro acaba desestimulando o pecuarista a aderir ao sistema para exportar à UE, mas ele defende uma atuação mais “forte do Brasil junto a Bruxelas” para tentar reverter as restrições. O avanço do Uruguai na Europa pode ser até cobiçado, mas é preciso considerar que os volumes exportados pelo país são pequenos comparados ao que o Brasil poderia vender. E a razão é simples: o rebanho bovino uruguaio é de apenas 11,6 milhões de cabeças, os abates crescem pouco e por isso as empresas trabalham com capacidade ociosa. Esse quadro limita a possibilidade de elas ampliarem as vendas ao exterior, que já respondem por 75% do total que o país produz. O preço em alta do boi por causa da demanda aquecida é outro limitador neste momento. O analista Tardáguila observa que o preço está firme também por causa da entressafra no Uruguai, que vai até outubro. Levantamento da Scot Consultoria mostra que os preços da arroba no Uruguai saíram de US$32,10 no começo do ano para US$51,30 atualmente. No mesmo período, o preço no Brasil saiu de US$40,23 para US$55,94. A alta do boi no Uruguai já fez o Bertin reduzir os abates à metade em sua unidade no país, onde tem a capacidade de 800 animais por dia, de acordo com Bicchieri. Fonte: Valor Econômico. Agronegócios. Por Alda do Amaral Rocha. 24 de julho de 2008.
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