Coproduto do etanol de milho pode substituir ingredientes convencionais e contribuir para ganhos de desempenho e eficiência em sistemas de recria e terminação.
Foto: Bela Magrela
A expansão da produção de etanol de milho no Brasil tem aumentado a disponibilidade de coprodutos que podem ser utilizados na alimentação de bovinos. Entre eles, o DDG vem ganhando espaço nas estratégias de suplementação, especialmente em sistemas que buscam maior eficiência na recria e na terminação.
Entretanto, a composição nutricional desses coprodutos pode variar, assim como os custos e as condições de uso em cada sistema. Por isso, a definição da estratégia passa pela avaliação conjunta da dieta, da forragem disponível, das metas de desempenho e dos custos envolvidos.
Chamamos o professor Joanis Tilemahos Zervoudakis para comentar sobre o assunto.
Na recria intensiva, quais oportunidades o DDG oferece para acelerar o ganho de peso e encurtar o tempo necessário para produzir uma arroba?
Joanis Zervoudakis: A utilização dos coprodutos das biorrefinarias de etanol de milho permite uma ampla possibilidade de estratégias nutricionais para suplementação dos bovinos mantidos em sistemas de recria intensiva a pasto, em função da ampla variação na composição bromatológica desses coprodutos, que apresentam variações quantos aos seus teores de proteína, extrato etéreo e fibra.
Dessa forma, alguns desses coprodutos, como o DDG de alta fibra, possibilitam a formulação de suplementos apenas com esse ingrediente e um núcleo mineral. Em termos operacionais, essa versatilidade e facilidade na preparação e fornecimento dos suplementos garante um manejo e a operação de suplementação mais simples e com maior potencial de aplicação nos mais diversos cenários produtivos.
Na prática, como definir o nível de inclusão do DDG?
Joanis Zervoudakis: O nível de inclusão dos coprodutos das biorrefinarias, comumente chamados de “DDG”, depende de alguns fatores que deverão ser analisados de forma conjunta. Entre eles, podemos destacar: qualidade e oferta de forragem disponível para pastejo, metas de ganho de pesos previamente delineadas, composição bromatológica (específica de cada um dos vários coprodutos das biorrefinarias), custo do frete e custo operacional necessário para preparação e fornecimento dos suplementos para bovinos em sistema de pastejo.
Estudos realizados em nosso setor de pesquisa na UFMT (campus Cuiabá), demonstraram a possibilidade de substituir totalmente o milho e o farelo de soja por DDG durante a terminação a pasto no período seco do ano, com suplementação em torno de 0,4% do peso corporal e ganho médio diário de 900g.
Adicionalmente, estudos mais recentes do nosso grupo de pesquisa evidenciaram o potencial de uso apenas do DDG de alta fibra + núcleo mineral em estratégias de suplementação na seca para ganhos na recria intensiva a pasto, com ganhos em torno de 850g/dia.
Além do custo do DDG, quais indicadores o produtor deve acompanhar para saber se a sua inclusão está realmente trazendo ganho de eficiência para o sistema?
Joanis Zervoudakis: Além do custo dos coprodutos, fatores relacionados a sua densidade e teor de matéria seca deverão ser considerados uma vez que terão impacto direto no custo do frete, custo do armazenamento e operacional para preparação e distribuição dos suplementos.
Além disso, cabe ressaltar que nem todo DDG é igual e que esses coprodutos possuem composições bromatológicas distintas em termos de proteína, fibra, extrato etéreo e enxofre. Portanto, a máxima eficiência em termos de desempenho dependerá também da melhor adequação dietética em cada cenário produtivo e para cada coproduto a ser usado.
O DDG é uma alternativa para reduzir o custo da dieta ou também é uma ferramenta para aumentar a eficiência produtiva?
Joanis Zervoudakis: Ambas situações. Os estudos já realizados no Brasil denotam sua importância como ingredientes estratégicos em formulações que buscam maiores níveis de suplementação, sem maiores riscos de distúrbios metabólicos decorrentes da maior digestão de amido, como por exemplo no milho. Esse fator aliado a seu excelente perfil nutricional e facilidade de manejo das dietas, torna esses coprodutos uma excelente opção nutricional para substituição de ingredientes convencionais (milho e/ou farelo de soja), o que confere melhor eficiência produtiva e menor custo de produção.
DDG representa apenas uma nova opção de ingrediente ou estamos diante de uma mudança na forma de pensar a nutrição e a intensificação da pecuária?
Joanis Zervoudakis: Em função da ampliação das biorrefinarias de etanol de milho em vários estados do Brasil, a oferta desses coprodutos tem promovido uma importante alteração na nossa matriz de alimentação, de forma a promover a intensificação da nossa pecuária, seja a pasto ou em confinamento.
Essa grande oferta e potencial de se suplementar um elevado número de bovinos (cria, recria e engorda) possibilitará maior produção de carne sem a necessidade de se abrir novas áreas de pastagens, contribuindo assim para uma maior intensificação e sustentabilidade dos nossos sistemas produtivos de carne bovina.
Graduação em zootecnia pela Universidade Federal de Lavras, mestrado, doutorado e pós-doutorado em Zzootecnia pela Universidade Federal de Viçosa, e pós-doutorado em Nutrição de Bovinos de Corte na Colorado State University (2019). Atualmente é professor titular da Universidade Federal de Mato Grosso e coordenador do sSetor de Pesquisas em Bovinos de Corte da UFMT. Tem experiência na área de nutrição e produção de bovinos de corte.
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