Projeto de intensificação da Fazenda Vale da Serra dobrou a lotação e busca aumentar a produtividade a partir de manejo, gestão e aproveitamento dos recursos disponíveis.
Foto: Bela Magrela
A decisão entre vender, arrendar ou continuar produzindo colocou a Fazenda Vale da Serra diante de uma escolha. Cíntia Oliveira, médica-veterinária e pecuarista decidiu permanecer na atividade e buscar uma forma diferente de trabalhar a propriedade. Dessa decisão nasceu o Projeto Segundo Andar, uma experiência de intensificação construída ao longo dos últimos anos. Ela foi uma das palestrantes do Encontro de Intensificação e Pastagens 2026 e apresentou ao público com detalhes o seu caso de sucesso.
A partir da vivência no campo, Cíntia passou a estruturar uma nova forma de pensar na propriedade, envolvendo manejo, pessoas, pastagem e gestão. Nesta entrevista, ela fala sobre essa trajetória, os desafios encontrados e os próximos passos do projeto.
Cintia, você contou no palco do EIP que o projeto Segundo Andar surgiu do desejo de tornar a propriedade mais produtiva. Quais foram os primeiros resultados colhidos a partir dessa mudança de visão?
Cintia Oliveira: Os primeiros resultados apareceram no pasto. O capim passou a cobrir melhor o solo e as pastagens ficaram mais produtivas. Isso nos permitiu começar a aumentar a lotação, que era o objetivo central do projeto. Queríamos dobrar a lotação da fazenda. Na safra encerrada em junho de 2026, alcançamos essa meta e, no momento de maior lotação, chegamos até um pouco além dela.
Na palestra, você mencionou quatro pilares que sustentam o projeto Segundo Andar: sustentabilidade, pessoas, pasto e números. Como esses pilares foram definidos e qual é o principal ponto essencial de cada um deles?
Cintia Oliveira: Primeiro respondendo sobre sustentabilidade. Definimos esse pilar pensando na continuidade do projeto. Se eu precisar reformar os pastos repetidamente, o custo de produção sobe e fica mais difícil sustentar o aumento da lotação.
Por isso, sustentabilidade para mim é manejar o pasto respeitando seus limites: observar a altura de entrada e saída dos animais e fazer as correções de solo necessárias. Assim, mantenho a pastagem produtiva por mais tempo, evito reformas desnecessárias e cuido também da sustentabilidade econômica da fazenda.
Segundo falando sobre as pessoas. O Segundo Andar exige uma forma de trabalhar que ainda é pouco comum na nossa região. Por isso, eu não espero encontrar uma equipe pronta no mercado. Preciso formar as pessoas junto com o projeto.
Isso significa treinar, valorizar, explicar por que fazemos cada manejo e deixar claro onde queremos chegar. Quando a fazenda avança, a equipe precisa avançar também, em conhecimento e em remuneração. É assim que conseguimos manter essas pessoas conosco e dar continuidade ao projeto.
Em terceiro, o pasto. Ele é a base do Segundo Andar e está diretamente ligado à sustentabilidade. Eu queria intensificar a fazenda de uma forma mais simples. Um confinamento exigiria investimentos, máquinas e uma estrutura de mão de obra que eu não tinha condições de assumir naquele momento.
Quando comecei, achei que precisaria reformar algumas pastagens. Hoje temos pastos com mais de 30 anos que melhoraram e se recuperaram com o manejo. Isso mostrou que entender o capim e respeitar seus limites era o caminho para aumentar a produção e preservar a base da fazenda.
E em quarto, os números. Eu acredito muito que quem não mede também não administra, não melhora. Por isso, os números fazem parte das decisões do dia a dia da fazenda.
Estou desenvolvendo, com a professora Janaina Martuscello e o professor Daniel D. Noronha, da Universidade Federal de São João del-Rei, em Minas Gerais, um sistema voltado à reprodução. Já comecei a usá-lo nesta estação de monta. Ele nasceu da minha necessidade de enxergar os dados da forma como penso a reprodução, especialmente a produtividade de cada matriz.
Você comentou que colheu 12 sacas de soja por hectare em uma fazenda de cria. Quais os principais pontos de atenção para intensificar essa categoria?
Cintia Oliveira: Quando precisei decidir se venderia a Fazenda Vale da Serra, se a arrendaria ou se a faria produzir, usei o arrendamento para soja como referência. Na nossa região, ele começa em torno de 5 sacas por hectare e pode chegar a 10 ou 12 sacas. Por enquanto não temos safrinha. Eu defini que, para considerar a fazenda produtiva, a pecuária precisaria me dar, em cinco anos, pelo menos o equivalente às 10 sacas por hectare que eu receberia com o arrendamento.
Nas simulações, vimos que, para atingir esse resultado com a cria, precisaríamos dobrar a lotação e colocar mais vacas por hectare. Cada vaca não vai parir dois bezerros por ano, e, também não conseguiríamos encurtar muito o intervalo entre partos. Foi daí que nasceu a meta do Segundo Andar. Na safra encerrada em junho de 2026, o resultado econômico da fazenda chegou ao equivalente a 12 sacas de soja por hectare. É nesse sentido que digo que colhi soja em uma fazenda de cria.
Para mim, o maior ponto de atenção é a seca. Quando aumento a lotação nas águas, sobra menos área para vedar pasto. Por isso, preciso planejar como alimentar os bovinos quando o capim parar de crescer.
Na Vale da Serra, a estratégia é transformar o excedente de capim das águas em feno para a seca. Assim, consigo cuidar melhor da recria, das vacas prenhes e, principalmente, das novilhas e primíparas. Manter a condição corporal dessas fêmeas ajuda a ter bons resultados na IATF logo no início da estação de monta.
A partir disso, um resultado puxa o outro: as vacas emprenham e parem mais cedo, os bezerros são desmamados e comercializados mais cedo, e consigo destinar as vacas vazias ao abate com antecedência. Chego à seca seguinte com a lotação ajustada e com mais condições de cuidar das categorias que quero manter na fazenda.
Eu chamo isso de manejo circular. Uma decisão bem feita melhora o resultado da próxima, e esse ciclo vai se fortalecendo a cada ano.
Para produtores que vivem uma situação semelhante à que você encontrou na fazenda, entre vender, arrendar ou buscar uma forma de tornar a propriedade mais produtiva, quais fatores devem pesar nessa decisão?
Cintia Oliveira: Quando escolhi ficar com a Vale da Serra pesou muito a minha história. Sou médica-veterinária, trabalhei a vida inteira em fazendas e me especializei em reprodução de bovinos de corte. Era uma atividade que eu conhecia, mas, principalmente, era o que eu queria continuar fazendo. A pecuária me traz felicidade, mesmo com todos os desafios que aparecem a cada dia e a cada ano.
Também pesou a minha disposição para aprender. Quando encontro um assunto que não domino, eu paro e estudo. Tenho facilidade para rever uma ideia e experimentar um caminho novo na fazenda. Isso foi fundamental para eu enxergar uma possibilidade de tornar a Vale da Serra mais produtiva.
Para quem está diante dessa escolha, eu começaria por aí: conhecer a realidade da propriedade, avaliar o que se sabe fazer, o que se quer fazer e se há disposição para aprender e conduzir as mudanças. No meu caso, esses fatores me fizeram escolher ficar.
Depois do Segundo Andar, o que podemos esperar do projeto Terceiro Andar? Quais são os próximos passos e onde você pretende chegar com a propriedade?
Cintia Oliveira: À medida que os resultados do Segundo Andar apareceram ao longo dos últimos cinco anos, minha decisão de ficar com a fazenda ficou mais forte. Também comecei a enxergar que podíamos avançar mais. É assim que nasce o Terceiro Andar.
Ele tem duas frentes. A primeira é intensificar mais a produção, agora com a consultoria da professora Janaína. Até aqui avancei com tecnologias de processo. Para dar o próximo passo, vou precisar também de tecnologias de produto, que elevam o custo de produção e deixam o resultado mais sensível a erros. Foi quando disse à Janaína: “até aqui eu vim sozinha, mas, a partir de agora, quero contar com a sua consultoria”.
A segunda frente é melhorar o que já fazemos. Com o amadurecimento da equipe, conseguimos ver com mais clareza os pontos sensíveis. Na última estação de monta, trabalhamos sem repasse de touro e a taxa de prenhez ficou quatro pontos percentuais abaixo da do ano anterior. Queremos recuperar esse resultado mesmo sem o repasse e reduzir a estação de monta de 120 para 90 dias.
Também queremos cuidar melhor de cada bezerro que nasce, reduzir a mortalidade e aumentar a meta de peso dos machos: antes era de 235 kg e, neste ano, passou para 245 kg. Fazemos a desmama antecipada e seguimos cuidando deles até atingirem esse peso.
Outra prioridade é fazer as áreas de feno produzirem mais, com o apoio da professora Janaína. Quanto mais alimento conseguirmos transferir das águas para a seca, mais condições teremos de aumentar o rebanho. O Terceiro Andar será construído melhorando cada etapa, sem perder de vista o resultado da fazenda.
Médica-veterinária, mestre em Reprodução Animal pela Universidade Federal de Goiás e MBA em Gestão Empresarial pela FGV. Há mais de 30 anos constrói sua trajetória dentro da pecuária de corte em Mato Grosso, unindo conhecimento técnico à experiência de quem vive a fazenda todos os dias. À frente da Fazenda Vale da Serra, liderou uma transformação baseada em intensificação, manejo de pastagens, reprodução, gestão de pessoas e eficiência dos processos. Idealizadora do conceito de Manejo Circular e do Projeto Segundo Andar
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