• Quinta-feira, 30 de julho de 2026
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Padronização de coprodutos do etanol de milho e a ampliação da exportação

Perspectivas para a padronização feita pelo MAPA.


Divulgação

Impulsionado pela expansão das usinas de etanol de milho, o Brasil vive um novo momento no mercado de coprodutos destinados, principalmente, à nutrição animal. Em julho, o Ministério da Agricultura publicou uma norma que padroniza a classificação dos coprodutos, trazendo mais segurança para compradores e favorecendo a diversificação do consumo. Além disso, a produção desses insumos cresce em ritmo acelerado, enquanto a abertura de novos mercados, como a China, amplia o potencial exportador do setor.

Convidamos a diretora de relações internacionais e comunicação da União Nacional do Etanol de Milho (UNEM), Andréa Veríssimo, para comentar o assunto.

No início de julho, o MAPA criou um padrão para coprodutos do etanol de milho usados na nutrição animal. O que mudou para o comprador e para o mercado de coprodutos brasileiro?

Andréa Veríssimo: Até então o setor não tinha um padrão oficial de identidade e qualidade para os produtos das biorrefinarias, cada negociação dependia de especificações definidas caso a caso entre comprador e vendedor, o que podia gerar divergências comerciais. A Portaria MAPA nº929, publicada em 1º de julho e assinada pelo ministro André de Paula, muda esse cenário  ao estabelecer o padrão de identidade e qualidade para os produtos da biorrefinaria de milho e de outros cereais amiláceos. 

A portaria define formalmente 13 categorias de produto: de fibras úmidas e secas, como WF, DF, WFS e DFS; grãos úmidos de biorrefinarias, como o WDG e o WDGS; grãos secos de biorrefinaria com solúveis, como DDG, DDGS e o HPDDG de alto teor proteico; o DDGS com alto ou baixo teor de óleo, além de CDS e CFP, com critérios objetivos de composição, tolerâncias, amostragem, classificação e rotulagem.

Para o comprador, isso significa clareza sobre o que exatamente está adquirindo, ou seja, níveis mínimos e máximos garantidos por tipo de produto, o que facilita a formulação de dietas e reduz o risco de divergência na entrega. Para o mercado, cria-se uma linguagem técnica comum para toda a cadeia, o que aumenta a transparência das negociações, dá segurança jurídica e fortalece a credibilidade dos Brazilian Distillers Grains, tanto no mercado interno quanto na exportação.

A norma foi construída ao longo dos últimos anos em conjunto com o MAPA, com a academia, especialmente com o professor Flávio Portela, da Universidade de São Paulo (USP), a UNEM, por meio do nosso Comitê de Coprodutos, e as empresas do setor, passando por consulta pública e usando como referência a experiência dos Estados Unidos, maior produtor e exportador mundial desses coprodutos. Ela entra em vigor 90 dias após a publicação, ou seja, no final de setembro.

Hoje, a pecuária de corte é a principal compradora do mercado de coprodutos. Com a mudança, outros setores, como o de monogástricos, poderão aumentar sua presença de mercado?

Andréa Veríssimo: Esse é um dos efeitos mais importantes da padronização. Os coprodutos das biorrefinarias diferem bastante entre si em composição química e valor nutritivo, e a falta de uma nomenclatura e caracterização oficiais dificultava que nutricionistas de suínos, aves e peixes confiassem no produto para formulação de dietas mais exigentes. Diferentemente do gado de corte, que tolera uma faixa maior de variação.

Com parâmetros oficiais definidos por categoria e com produtos como o High Protein Distillers Dried Grains (HPDDG) especificamente caracterizados pelo maior teor de proteína e menor fibra, a tendência é que a formulação para monogástricos ganhe mais segurança técnica. Isso deve favorecer o avanço do coproduto brasileiro em suinocultura, avicultura, piscicultura e até pet food. Alguns mercados já usam DDG/DDGS, mas têm espaço para crescer à medida que a padronização consolida a confiança na qualidade e na consistência do produto.

Qual a perspectiva de produção de coprodutos secos para 2026? A mudança temporária do teor de etanol anidro na gasolina de 30,0% para 32,0% (E32), anunciada pelo Governo Federal, poderá elevar o processamento do milho e a oferta de coprodutos?

Andréa Veríssimo: A produção de produtos da biorrefinaria de milho segue diretamente atrelada ao ritmo de moagem de milho para etanol, e esse ritmo está em expansão. O Brasil já opera 29 biorrefinarias, com mais 13 projetos autorizados pela ANP e 14 unidades programadas, ou seja, a base de processamento vai continuar crescendo em 2026 e nos próximos anos, e isso puxa junto a oferta de DDG, DDGS e demais produtos.

O E32, aprovado pelo CNPE em 14 de julho, com vigência inicial de 180 dias, prorrogáveis por mais 180, deve adicionar cerca de 1 bilhão de litros por ano ao mercado. Em cerca de um ano, a mistura obrigatória saiu de 27,0% para 32,0%, um salto que representa aproximadamente 2,4 bilhões de litros anuais adicionais incorporados ao mercado. Esse volume estimula maior moagem de milho e de cana de forma complementar e, como os produtos são gerados na proporção do grão processado, a expectativa é de crescimento da oferta de secos acompanhando esse movimento. Vale reforçar que o E32 é uma medida temporária, que reforça a segurança energética do país e é pensada como uma ponte técnica rumo ao E35 já previsto na Lei do Combustível do Futuro, então seu efeito sobre o processamento deve ser sentido já ao longo do segundo semestre.                                         

Em 2025, a China abriu seu mercado aos coprodutos brasileiros e já é o principal destino das exportações, elevando a participação da exportação em relação à produção. Como você enxerga a relevância do mercado externo e o risco de choque de oferta no mercado interno?                                   

Andréa Veríssimo: O mercado externo é hoje uma das frentes mais estratégicas para o setor. A abertura da China em maio de 2025 foi um marco, e no final do primeiro trimestre deste ano vimos as primeiras exportações de farelo de milho do Brasil para o país. A China tem como pilar fundamental a segurança alimentar de sua população e os produtos de alimentação animal contribuem diretamente para essa estratégia. A fome da China é muito grande, e a demanda deles é maior do que a nossa produção nacional de farelos de milho. Sabemos da transformação que a abertura do mercado chinês para produtos como a soja, milho e carnes trouxe para o agronegócio brasileiro. Além da enorme demanda reprimida desde os primeiros conflitos comerciais com os Estados Unidos, há grande potencial de crescimento pela frente.

Sobre um risco de choque de oferta, não vejo esse cenário como o mais provável no curto prazo, porque a demanda externa está crescendo em paralelo à expansão da capacidade de processamento no Brasil. Novas biorrefinarias estão entrando em operação e o efeito do E32 sobre a moagem amplia a oferta total disponível tanto para o mercado interno quanto para exportação.

Além disso, a própria padronização trazida pela Portaria nº929 dá mais previsibilidade para que produtores planejem a alocação entre os dois mercados com segurança técnica e comercial. Ou seja, a leitura da UNEM é de que o crescimento das exportações tende a ser absorvido pelo aumento da produção, e não por uma disputa direta com o comprador doméstico, mas seguimos acompanhando de perto para garantir esse equilíbrio.

Além da China, quais outros mercados a UNEM tem trabalhado para que o Brasil acesse?                                                                                                                 
Andréa Veríssimo: Temos investido fortemente no Sudeste Asiático, dentro do projeto Brazilian Distillers Grains, realizado em parceria com a ApexBrasil. Em maio, participamos da ILDEX Vietnam 2026, em Ho Chi Minh City, mercado com forte demanda para suinocultura, avicultura e aquicultura. No mesmo mês, realizamos uma missão comercial em Bangkok, na Tailândia, com apoio da ApexBrasil, do MAPA e do Ministério das Relações Exteriores, que resultou em 80 reuniões de negócios em três horas.

A Tailândia tem uma indústria de ração animal robusta e produção doméstica de milho insuficiente para suprir sua demanda, o que abre espaço real para o DDG/DDGS brasileiro. Nessas duas ações, também recebemos interesse de compradores de Bangladesh, Cingapura e Índia, o que reforça que o Sudeste da Ásia é um mercado estratégico. Ainda no segundo semestre de 2026, realizaremos ações promocionais no Japão, Coreia do Sul e Alemanha, participando neste último país da Eurotier, a maior feira global de produtos e serviços para animais.

Andréa Veríssimo

Médica-veterinária pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e mestre em administração rural pela Universidade de Lincoln na Nova Zelândia, com especialização em agronegócio, public affairs e análise de dados. Atualmente atua como gerente de relações internacionais na União Nacional do Etanol de Milho (UNEM).

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