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Scot Consultoria

Confinamento e qualidade da carne

Entrevista com o zootecnista Emanuel Almeida de Oliveira

Segunda-Feira, 01 de Março de 2021 - 18h00
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Emanuel de Oliveira é zootecnista, com título de mestre e doutor em Zootecnia obtidos pela Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), UNESP, Campus de Jaboticabal. Realizou um treinamento em Clemson University localizado na Carolina do Sul, Estados Unidos. Foi professor substituto do departamento de Zootecnia da FCAV, ministrou aulas de bovinocultura de corte e concluiu seu pós-doutorado na Embrapa Pecuária Sudeste. Atualmente é nutricionista de rumintantes da empresa Royal de Heus.

Foto: Shutterstock


O convidado para nosso bate-papo de hoje é o Emanuel Almeida de Oliveira.

Emanuel de Oliveira é zootecnista, com título de mestre e doutor em Zootecnia obtidos pela Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), UNESP, Campus de Jaboticabal. Realizou um treinamento em Clemson University localizado na Carolina do Sul, Estados Unidos. Foi professor substituto do departamento de Zootecnia da FCAV, ministrou aulas de bovinocultura de corte e concluiu seu pós-doutorado na Embrapa Pecuária Sudeste. Atualmente é nutricionista de rumintantes da empresa Royal de Heus.

Scot Consultoria: Emanuel, quais estratégias os pequenos produtores que confinam pequenos e grandes ruminantes devem adotar quanto ao planejamento alimentar e financeiro, para evitar riscos em momentos de insumos caros, como esse que estamos presenciando?

Emanuel Oliveira: Os produtores podem realizar um levantamento do volume de oferta e valores dos insumos disponíveis na região. Com ajuda de um técnico, podem avaliar os diferentes cenários futuros, avaliar os valores de compra de animais de reposição e o provável valor de venda dos animais no mercado futuro, e, quando a opção for pela engorda confinada, adquirir sistematicamente os insumos em volumes suficientes para as melhores negociações.

Outro ponto muito importante para um adequado retorno financeiro é o planejamento para a reposição, quer seja pela compra bem feita ou pela recria eficiente de seus próprios animais. Basicamente, a atividade pecuária lucrativa tem como pilar esses dois pontos.

A experiência prévia na atividade, uma boa equipe de campo e manejos adequados, aliados ao conhecimento das características de sua propriedade, auxiliam na diminuição dos riscos com a atividade. Para a atual conjuntura do mercado, extremamente dinâmico, vale a pena buscar informações e aplicar novas tecnologias que poderão respaldar o pecuarista, conduzindo-o ao sucesso.

Scot Consultoria: Manter um bovino em sistema de confinamento possui um custo elevado. Qual é a divisão dos custos envolvidos no processo de engorda e terminação? Quanto custa manter um bovino em confinamento?

Emanuel Oliveira: Realmente, o custo de um animal mantido em confinamento é alto quando comparado, por exemplo, aos animais engordados no pasto. É muito complicado exemplificar um valor de diária em confinamento, tendo em vista as diferenças regionais de alimentos e mão de obra operacional da propriedade.

De maneira simples, poderíamos dividir os custos no confinamento em custos variáveis, que contemplariam a compra de animais, insumos alimentares e sanitários, custos com a identificação dos animais, além de impostos e algum outro custo que venha a somar-se com os apresentados. Também existem os custos fixos, que são representados pela manutenção de equipamentos e instalações, salários dos funcionários (mão de obra) e a depreciação. Também podem ser considerados os custos semi-fixos, como a eletricidade, combustíveis e telefonia, e, por fim, o capital de giro, o capital imobilizado e remuneração da terra.

Em muitos casos, os produtores estão muito mais atentos e acreditam que custo diário ou diária da engorda é o ponto mais importante na economia do sistema. Normalmente, avaliar a eficiência econômica simplesmente por uma diária mais barata pode gerar falsa impressão de eficiência e retorno financeiro garantido.  Uma diária de custo inferior e desempenho animal mais baixo podem gerar resultados econômicos pouco atrativos.  

A avaliação deve ser um pouco mais complexa e o produtor que tem interesse em manter-se na atividade deverá ter um controle mais rigoroso dos dados gerados na atividade, analisá-los e com sua interpretação, utilizá-los para evoluir sempre.

Scot Consultoria: A diversidade de insumos na dieta pode ser uma boa estratégia para garantir a viabilidade econômica de sistemas de confinamento? Quais as desvantagens dessa estratégia? 

Emanuel Oliveira: Acredito muito na diversidade de insumos para compor as dietas de animais confinados, caso exista essa possibilidade. Não depender apenas de poucos insumos, ou dos conhecidos como nobres, é interessante e muitas vezes auxilia na redução do custo das dietas, sem redução da eficiência produtiva dos animais. Como vantagens, reitero a redução dos custos totais das dietas e possibilidade de não depender apenas de amido como fonte primordial de energia, como ocorre nas dietas dependentes de milho. Melhorar a saúde ruminal dos animais, evitando que eventuais erros de manejo possam por em risco todo o sistema.

Como desvantagem vejo o desconhecimento das características nutricionais dos alimentos e o equívoco em utilizar em demasia determinados tipos de produtos ou mesmo, em alguns casos, a falta de padronização de alguns insumos.

Invariavelmente, o conhecimento das exigências das categorias que estão sendo exploradas, o conhecimento das características nutricionais dos insumos e o bom manejo do confinamento são essenciais para qualquer tipo de plano nutricional.

Scot Consultoria: O senhor poderia comentar algumas das principais diferenças observadas entre os sistemas de produção norte-americano e o brasileiro, no período em que esteve lá, e o que a pecuária brasileira pode aproveitar desses sistemas? Para a nutrição do rebanho brasileiro em pasto, quais os principais pontos que devem ser considerados pelos produtores nacionais?

Emanuel Oliveira: Clima, relevo, composição genética, forragem utilizada, mão de obra, tamanho das propriedades e organização da cadeia foram algumas características em que notei grandes diferenças. As características intrínsecas da região em que fiquei são mais complicadas para replicá-las em nosso país.

No entanto, as questões relacionadas à gestão da cadeia produtiva e os programas de classificação e tipificação das carcaças são possíveis de aplicação e adequação no Brasil. Inclusive, já observamos um avanço muito grande nesses aspectos.

Para a nutrição do rebanho no pasto, o principal ponto a ser observado é o manejo da pastagem. Nenhum plano nutricional se equipara ao baixo custo da arroba produzida em pastagens cultivadas, bem manejadadas e com suplementação adequada.

Scot Consultoria: Fatores como a cor, maciez, odor, sabor, teor de gordura, marmoreio e textura são determinantes da qualidade da carne bovina no âmbito sensorial. Na propriedade rural, quais são os principais fatores que interferem na qualidade da carcaça bovina?

Emanuel Oliveira: A integração do plano nutricional e o manejo dos animais são os principais fatores que influenciam na qualidade da carne e as características de carcaça da porteira para dentro.

A nutrição oferecida aos animais ao longo de sua vida, inclusive para as vacas durante o período de gestação, é ponto chave para animais mais eficientes e saudáveis durante todo o período de exploração. Planos nutricionais intensivos proporcionam abates de animais mais precoces e carcaças mais bem acabadas, que geram cortes cárneos de excelente qualidade.

Além disso, não se pode deixar de lado as boas práticas de manejo durante a produção dos animais e, principalmente, durante o embarque dos animais nas propriedades rurais. Um manejo racional de embarque, seguindo protocolos adequados, gera menores índices de contusões nas carcaças, reduz o estresse dos animais evitando a queda dos níveis de glicogênio, mantendo a cor em patamares adequados e o mais importante, diminuindo o sofrimento do animal.

Scot Consultoria: Você poderia apontar quais os principais avanços já obtidos por meio da seleção genética para a qualidade de carcaça no Brasil e quais avanços a genômica pode trazer nessa área?

Emanuel Oliveira: Observamos trabalhos de excelência em rebanhos de diversas raças no Brasil. Os produtores de genética estão realmente preocupados em entregar animais cada vez mais eficientes e que satisfaçam as expectativas dos consumidores. O uso mais intenso de tecnologias como o ultrassom, aliado a avaliações de alguns genes de interesse para a produção de carcaças com melhor acabamento e rendimento, pode ser observado em linhagens de animais da raça Nelore que apresentam maior grau de marmoreio, características que em anos anteriores nem passavam pela nossa cabeça. 


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