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Scot Consultoria

A importância dos coprodutos das usinas de etanol de milho na nutrição animal

Entrevista com o professor doutor da Universidade de São Paulo (USP), Flávio Augusto Portela Santos

Segunda-Feira, 13 de Abril de 2020 - 15h00
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Possui graduação em Engenharia Agronômica pela Universidade de São Paulo (USP)(1984), mestrado em Nutrição Animal e Pastagens pela Universidade de São Paulo (1991) e doutorado em Animal Science pela University of Arizona (1996). Tem experiência na área de Zootecnia, com ênfase em Nutrição e Alimentação Animal. Atuando principalmente nos seguintes temas: fontes proteicas, processamento de grãos, desempenho, vacas leiteiras, digestibilidade de nutrientes. Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo.

Foto: Scot Consultoria


Flávio Augusto Portela Santos concedeu uma entrevista exclusiva para a equipe da Scot Consultoria sobre as vantagens da utilização dos coprodutos das usinas de etanol de milho, DDG, WDG, DDGS e WDGS na nutrição animal. Confira!

Flávio Augusto Portela Santos possui graduação em Engenharia Agronômica pela Universidade de São Paulo (USP)(1984), mestrado em Nutrição Animal e Pastagens pela Universidade de São Paulo (1991) e doutorado em Animal Science pela University of Arizona (1996). Tem experiência na área de Zootecnia, com ênfase em Nutrição e Alimentação Animal. Atuando principalmente nos seguintes temas: fontes proteicas, processamento de grãos, desempenho, vacas leiteiras, digestibilidade de nutrientes. Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo.

Scot Consultoria: O DDG e o WDG estão ganhando espaço no mercado em substituição ao farelo de soja e outras fontes de proteínas. Poderia nos dar uma breve explicação de como é produzido e quais são as vantagens da utilização desse coproduto na nutrição animal?

Flávio Augusto Portela Santos: Os coprodutos de etanol de milho são produzidos por dois tipos de plantas industriais. Existem as plantas que produzem o DDG, WDG, DDGS e WDGS, e as plantas que estão produzindo um outro material, que é a fibra mais solúveis. Para produzir o etanol de milho, basicamente, o amido que é utilizado, 72% do grão de milho é composto por esta substância, e a indústria quer extrair esse amido para produzir o etanol. Todo o restante do material pode ser concentrado, todo o óleo, toda a proteína, toda a fibra, minerais e vitaminas serão concentrados nos coprodutos. Então, se tem um material rico em proteína, pois concentra toda a proteína do milho, sai de um grão de 8% a 9,5% de proteína e vai para um coproduto que pode variar de 18% a 33% de proteína, dependendo de como a indústria trabalha. Se tem um grão com 4% de óleo, e vai gerar um coproduto que varia de 6% a 12% de óleo, dependendo se a empresa extrai parte para vender como óleo ou não, a maioria hoje extrai parte do óleo. Sai de um grão que tem 10% a 13 % de fibras (FDN), e vai para um coproduto que tem 36% a 54% de fibra e altamente concentrado em diversos minerais, principalmente fósforo, o grão de milho é rico em fósforo e o coproduto é extremamente alto em fósforo, como também entra uma série de outros materiais.

As indústrias podem trabalhar de forma convencional, que seria o uso de milho na produção de etanol e produzir o DDGS ou WDGS. O DDGS é o grão destilado seco com os solúveis adicionados, a maioria das empresas do Brasil fazem o produto seco com a adição de solúveis, que é o uso xarope final do processo de fermentação, adicionado ao material e seco, produzindo o DDGS. Caso o material não seja seco, para confinamentos ou fazendas que estão próximas da indústria, por exemplo, o cliente pode comprar o produto úmido, que é o WDGS, um destilado úmido com solúveis. Então, existem os coprodutos secos ou úmidos, com ou sem adição dos solúveis. A grande maioria das empresas no Brasil estão comercializando com a adição integral do xarope, que seriam os coprodutos com solúveis, e tem empresas que fazem, após a destilação e produção de etanol, a centrifugação, para separar a fase líquida e depois extraem parte do óleo. Há empresas que não fazem a extração de óleo, mas a maioria hoje faz e, ao invés de colocar no mercado um produto com 10% a 12% de gordura (EE), coloca um produto com 6% a 8% de extrato etéreo. Parte desse óleo é vendido para a indústria de alimentação animal, indústria avícola e assim por diante. Esse óleo de milho bruto pode ser usado para alimentação de ruminantes e para a alimentação de monogástricos.

Existem outras tecnologias, por exemplo, para produção do DDGS e WDGS comum, o milho é moído e vai para o cozimento onde é exposto a enzimas para sacarificar o amido, para ficar mais fácil para a levedura produzir o etanol, e assim quebrar esse amido em partículas menores, perto de glicose, na verdade se chega em dissacarídeos, para facilitar a ação da levedura. Então, o milho é moído, vai para o cozimento, adiciona-se alfa amilase e amiloglucosidase (enzimas), quebra-se o amido até glicose, e toda essa massa vai para a fermentação por ação de leveduras e, então, o etanol é produzido. O material restante é separado para fazer os coprodutos.

Tem outras tecnologias que realizam todo o processo, até antes de chegar na destilação, normalmente, porém, essa massa é centrifugada, previamente à destilação, e é separada a fração fibrosa do restante. O resultado dessa separação é uma fibra úmida, e o que vai para a fermentação é um material mais concentrado, sem a fibra, contém todo o amido, praticamente, proteínas, tudo que tem no milho, menos a fibra. Assim, se tem um material muito mais concentrado para a fermentação, com um desgaste menor na indústria, e provavelmente uma maior eficiência de aproveitamento do amido para transformar em etanol.

Quando se traz esse material para destilação, produz o etanol e o material que será centrifugado, extrai o óleo, parcialmente, resultando em uma fase líquida e uma fase grosseira. Essa fase grosseira será seca e se tornará o DDG de alta proteína, um produto com mais de 40% de proteína bruta (PB) que as empresas que estão produzindo colocam no mercado para atender principalmente os monogástricos, competindo com o farelo de algodão, farelo de soja, e outros concentrados proteicos na alimentação de ruminantes. A fase líquida será evaporada, e posteriormente será adicionado o xarope de volta na fibra separada no início, dando origem à fibra úmida mais solúveis, que pode ser comercializado dessa forma.

Scot Consultoria: Existe algum nível máximo de inclusão do DDG e WDG na dieta de bovinos de corte e leite?

Flávio Augusto Portela Santos: Esses coprodutos, como podem variar de 18% a 33% de proteína bruta, e até o coproduto de alta proteína que vai até 42%, vai depender muito do preço, o nutricionista e o produtor vão julgar se entrará na dieta como proteico, como alternativa ao farelo de soja ou algodão, ou seja, uma inclusão pequena na dieta apenas para acertar a proteína, ou se ele está em um preço que vale a pena colocá-lo na dieta como proteico energético, que acerta a proteína tirando o farelo de soja, digo farelo de soja como exemplo principal, e substituindo parte do milho, o energético principal da sua dieta. Esses coprodutos têm essa possibilidade, de serem usados exclusivamente como proteico em baixa quantidade ou, quando estão com preços favoráveis em relação ao preço do milho, também podem entrar na dieta com níveis maiores, não entrando apenas com 10% para acertar a proteína, mas podendo chegar a 50% da dieta, colocando proteína, mas, principalmente, energia. E esses coprodutos apesar de serem produzidos a partir do milho, com extração de todo o amido para se fazer etanol e concentrar a fibra, possuem mais energia que o milho misturado com caroço de algodão e farelo de soja. Então, quando incluído na dieta nos valores de 20%, 30%, 40% a 50%, eles melhoram o desempenho de bovinos em confinamento em relação à dieta de milho, caroço e farelo de soja, ou milho, torta, e caroço de algodão.A inclusão desses coprodutos aumenta a densidade energética da dieta e o animal ganhará mais peso e normalmente com uma conversão alimentar melhor.

Scot Consultoria: O DDG é um alimento proteico, mas possui bom nível de energia na composição. Isso reduz o uso de milho na dieta? Existe algum nível máximo para considerar da energia advinda do DDG ou WDG para substituir o milho?

Flávio Augusto Portela Santos: Se o DDG entrar na dieta como um proteico energético, vai depender do preço dele. Os produtores a princípio verificam os preços, se estiver mais barato ou até o mesmo preço que o milho, indicaria o DDG dele devido ao maior valor proteico, além de que irá valer a pena incluí-lo na dieta, tendo em vista que o DDG possui mais energia que o milho, podendo estar mais caro que o grão e mesmo assim viabilizar a inclusão. Colocando o DDGS como exemplo e comparar com o milho, ele terá ao redor de 12% a 13% maior valor nutricional que o milho, então se pode até pagar mais caro que ainda vale a pena. Agora quando se pega o produto úmido, chega a encontrar até 50% do valor nutricional maior que o milho, melhorando o desempenho do animal.

Se olhar os dados americanos com o WDGS, produto úmido convencional, levando em consideração o desempenho do animal, o consumo corresponde ao que chamamos de quadrático, vai subindo até os 30% de inclusão na dieta, mais ou menos, e depois vai caindo o consumo em substituição ao milho, ureia, milho grão e farelo de soja. O ganho de peso vai subindo até os 30%, passa um pouco disso, e quando chega em 40% de inclusão o ganho de peso já começa a cair um pouco, ainda muito mais alto que o milho, mas o ápice do nível de inclusão do úmido vai a 30% da dieta, atingindo o máximo de consumo, depois começa a cair levemente e o ganho cai pouco, entre 30 a 40% parece ser a inclusão ótima do produto úmido, WDGS.

Quando se utiliza o DDGS, normalmente o melhor desempenho está oscilando ente 30% a 40% de inclusão na dieta. Tudo depende do preço que esse coproduto estará no mercado, é preciso acompanhar os valores diariamente.

Scot Consultoria: Em relação a armazenagem e logística, qual o entrave que o pecuarista pode encontrar na compra e utilização desse insumo?

Flávio Augusto Portela Santos: O produto seco é a mesma logística que qualquer farelo seco, mesmas preocupações de comprar um material que está na umidade adequada para ser conservado e armazenar esse material da mesma forma que se armazena a granel o farelo de soja, farelo de algodão, ou qualquer outro ingrediente seco utilizado na dieta, não muda nada nesse ponto. Já o produto úmido, é um material que vem com 30% a 40% de matéria seca, até um pouco mais, mas esse material para se utilizar, como tem muita água, necessita estar próximo da indústria, caso contrário, o frete o inviabiliza, estando perto da indústria, normalmente, esses confinamentos ou uma fazenda normal que está usando para a suplementação de animais, isso é, armazenado e a cada dois ou três dias é recebida uma carga, mesmo assim, como existem problemas de recebimento, como chuvas, entre outros, muitos têm ensilado esse material, mas é muito difícil ensilá-lo em silos trincheiras, pois começa a esparramar, como resíduos de cervejaria. Mas o que se tem feito é colocar uma lona no chão jogar o material e cobri-lo com a lona, como um silo de superfície, só não se consegue compactar, mas fechando bem. Alguns produtores aplicam benzoato de sódio apenas na superfície antes de fechar, e depois vai utilizando o material. Normalmente quem está próximo da indústria, recebe esse material semanalmente, a cada 15 dias e, por segurança, deixa uma parte estocada na fazenda para quando ocorrer algum imprevisto.

Scot Consultoria: Levando em consideração a primeira exportação de DDGS realizada pelo Brasil em dezembro de 2019, quais são as expectativas para a produção brasileira nos próximos anos? Você acredita que o produto brasileiro pode se tornar competitivo no mercado internacional? Isso pode futuramente afetar a cotação do milho no mercado interno?

Flávio Augusto Portela Santos: A expectativa, dependendo do que ocorre agora com toda a crise atual, mas, até então, no site da UNEM (União Nacional do Etanol de Milho) há dados que a expectativa é que por volta de 2028/2030 o Brasil esteja produzindo um volume próximo de 50 bilhões de litros de etanol, que ao redor de 8 bilhões sejam de etanol de milho. Fazendo a conta de que para cada tonelada de milho se tem 420 litros de etanol e 285 kg de coprodutos secos, seja o DDGS ou a fibra, mais solúveis, estamos falando de 17 milhões de toneladas de milho usadas para produzir todo esse etanol de milho. Se tiver realmente essa quantidade, terá uma disponibilidade de DDGS ou de fibra seca mais solúveis entre cinco e seis milhões de toneladas. Esse valor dá para confinar cerca de 22 milhões de cabeças, considerando uma dieta de 2kg de matéria seca desse material por dia, ou suplementar 90 milhões de cabeças com 0,5kg por dia durante a seca por 120 dias. Se esses números se concretizarem será um volume expressivo, seja para uso no mercado interno, seja para exportar, mas o mercado interno tem capacidade de absorver isso tranquilamente, agora, se será vantajoso para a indústria exportar, dependendo do peço que estiver, será outra conversa, pois disputará mercado com os Estados Unidos.

Com a indústria de etanol comprando o milho é sempre um fator que mantém o preço mais alto, isso aconteceu nos Estados Unidos, até que se ajustaram. Quando começaram com o programa de etanol de milho houve uma explosão no preço do milho, rapidamente a indústria de milho respondeu e os americanos passaram a produzir 100 milhões de toneladas a mais e, até alguns dias atrás 130 milhões de toneladas eram destinadas para a produção de etanol dos 360 milhões de toneladas que eles produzem. Depende da velocidade de crescimento da demanda no Brasil e como as indústrias vão operar. Nos Estados Unidos, quando iniciou o investimento maior, várias plantas começando ao mesmo tempo, nós estamos vendo isso acontecer em Mato Grosso, mas talvez não seja na mesma velocidade do americanos, dando um tempo maior para a indústria de milho ir se adequando, e aumentando a oferta sem causar o mesmo impacto que houve nos Estados Unidos no preço do milho. Lógico que quando o preço do milho dos EUA fica maior tem um impacto mundial maior que o Brasil, apesar de sermos o terceiro maior produtor, mas tudo depende da velocidade com que a indústria de etanol de milho vai crescer. Acredito que nos números que estão falando não será suficiente para fazer explodir o preço do milho, mas que ajuda a manter um preço mais alto, com certeza sim, é uma demanda significativa.

Scot Consultoria: A queda no preço da gasolina e do etanol pode inviabilizar a produção de etanol a partir do milho?

Flávio Augusto Portela Santos: Isto é algo que está acontecendo agora, nesse momento nos Estados Unidos tem plantas de etanol de milho fechando, pois perderam a competitividade, como vai ser aqui no Brasil ainda não sei, temos uma matriz energética diferente, um uso de etanol muito mais alto que nos EUA, não em termos de volume necessariamente, mas além da gasolina, usamos etanol como combustível nos carros flex, e o nível de inclusão na nossa gasolina é bem maior, mas não saberia dar uma posição em termos de mercado. Antes da pandemia do coronavírus acontecer, o cenário era um, muitas plantas sendo abertas, de lá para cá muita coisa mudou.

Scot Consultoria: Na sua opinião, qual a tendência a longo prazo para o mercado do DDG e WDG no Brasil? Existe espaço para os preços subirem encontrando um ponto de equilíbrio em outro patamar com relação ao farelo de soja, levando em consideração a demanda crescente no mercado interno e o seu potencial no mercado?

Flávio Augusto Portela Santos: No Brasil, o balizador de preços tem sido o farelo de soja em termos de proteína, mas no momento, no preço que o milho subiu o coproduto acompanhou. Existem fazendas trabalhando com esse coproduto pagando o mesmo preço do milho, hoje estamos usando em um local longe, no Norte de Minas, vindo de Mato Grosso, se colocar o valor desta etapa, o preço do milho chega a ficar mais caro que o DDG nesta região, uma região que necessita trazer milho de longe e, mesmo assim, é mais vantajoso pois colocar proteína de uma vez, e tem mais energia que o milho, portanto, ficando mais barato que o milho.

Deixando o coronavírus fora dessa situação, pois fica difícil de falar em expectativa nesse cenário. Mas antes da crise atual, um mês atrás, a tendência era de crescimento, plantas sendo inauguradas em Mato Grosso, plantas em construção em Goiás, projetos em outros estados, e o produto se tornando cada vez mais disponível. No ano passado já vimos uma mudança considerável nas dietas tanto no estado de Goiás como parte de Mato Grosso, pela maior disponibilidade do coproduto. Resumindo, toda a expectativa era concreta de aumento de oferta, de crescimento do coproduto, e uma expectativa de grande presença desse material nas dietas de confinamento do Centro-Oeste brasileiro e chegando, inclusive, a outras regiões do país.

Entrevista originalmente publicada no informativo Boi & Companhia, edição 1386.



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