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Scot Consultoria

Carta Grãos e Agricultura - Bolso do consumidor deve ser impactado

Dependência nas importações e redução na produção do trigo podem impactar no bolso do consumidor final.


Foto: Magnific

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O pão nosso de cada dia necessita de um ingrediente essencial: o trigo. Um grão que faz parte do cotidiano de muitas famílias no Brasil. Entretanto, mesmo com uma alta demanda interna, a produção nacional não é o suficiente para suprir a procura.

Segundo o USDA, o consumo interno de trigo gira em torno de 12,4 milhões de toneladas. No último levantamento da Conab, a produção da safra 2025/26 foi de 6,0 milhões de toneladas, uma redução de 23,5% comparada à safra anterior e a menor dos últimos seis anos. Portanto, a produção supriu apenas 50,0% da demanda interna.

Figura 1. 
Produção (mil t) e área plantada (mil ha) de trigo nos último seis anos.
Fonte: Conab / Elaborado por Scot Consultoria.

Em julho de 2026 foram importados 650,3 mil toneladas, um aumento de 5,5% comparado a julho do ano passado. A Argentina foi a principal origem do trigo importado pelo Brasil, com participação de 72,8%, seguida pela Rússia, com 15,1%, e pelo Paraguai, com 8,4%. Segundo os dados do Comex Stat, o trigo lidera o ranking dos produtos importados pelo setor agropecuário.

O fato de o Brasil não ser autossuficiente na produção de trigo o torna mais vulnerável às oscilações do mercado internacional, com impactos diretos sobre os preços, a disponibilidade do produto e a previsibilidade do abastecimento. Em um cenário marcado pela guerra entre Rússia e Ucrânia, a tendência é de encarecimento das importações, em razão do aumento dos preços dos combustíveis, das dificuldades logísticas, da elevação dos fretes e de outros fatores que afetam a cadeia de comercialização internacional.

A importação também influencia diretamente o processo de beneficiamento do trigo, uma vez que, na maioria dos casos, os moinhos realizam a mistura de grãos argentinos e de brasileiros para obter determinados padrões industriais. Nesse processo, a qualidade do grão é um fator fundamental, pois a produção de uma farinha de qualidade depende de parâmetros como os teores de proteínas e do glúten.

No entanto, apesar da safra recorde, a qualidade do grão argentino não atingiu às especificações necessárias para uma boa produção. Portanto, a combinação entre uma menor oferta de trigo nacional e a necessidade de utilizar grãos importados com características distintas aumenta a complexidade do processo de moagem e de padronização da farinha.

Os moinhos também seguem pressionados pela queda do preço do milho, o que influencia diretamente na competitividade no farelo de trigo usado na alimentação animal, principal coproduto da moagem. Com a menor valorização, aumentam os custos de moagem e na formação do preço da farinha de trigo. O que pode contribuir para a elevação dos preços da farinha e, consequentemente, gerar impactos sobre o custo de diversos alimentos que fazem parte da alimentação da população.

Portanto, a dependência das importações torna os preços internos do trigo mais suscetíveis às oscilações do mercado internacional. Somada às preocupações com os impactos do fenômeno El Niño sobre a produção na região Sul, essa dependência aumenta as incertezas quanto à disponibilidade do grão no mercado interno.

Figura 2.
Variação anual da área plantada e preço anual do trigo.

Fonte e elaboração por Scot Consultoria.

O que se observa nos últimos anos é que há uma relação diretamente proporcional entre a área plantada e valor do trigo. Se a área plantada aumenta, o valor sobe. Se a área plantada diminui, o valor cai. Esse comportamento indica que as decisões de plantio não dependem apenas do preço corrente, mas também das expectativas de preços e da rentabilidade esperada. Dessa forma, os dados sugerem que a redução do preço real do trigo diminui sua atratividade econômica e desestimula o plantio, fazendo com que a importação ganhe ainda mais força.

No curto prazo, esse cenário tende a manter os preços firmes, especialmente diante da necessidade de importações para complementar a oferta nacional.

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