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Carta Grãos e Agricultura - Cana de açúcar: safra maior, receita menor

Enquanto a produção de cana se recupera, a queda no preço pago pelo quilo do açúcar total recuperável (ATR) e dos derivados, pressiona a rentabilidade dos fornecedores.


Foto: Shutterstock

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A safra brasileira de cana-de-açúcar 2026/27 começou com recuperação de produtividade, depois de um 2025/26 limitado por clima. A Conab projeta 709,1 milhões de toneladas de cana no país, alta de 5,3% frente à safra anterior, sustentada por aumento de área colhida e recuperação da produtividade. Se confirmado, será o segundo maior volume da série histórica.

No Centro-Sul, o começo da safra também foi mais acelerado. A moagem até 1 de maio somou 60,4 milhões de toneladas, com 112,58kg de ATR por tonelada, 5,4% acima do observado no mesmo período do ciclo anterior. Esse início indica maior disponibilidade de matéria-prima e melhor qualidade industrial, o que tende a ampliar a produção de derivados ao longo da safra.

O etanol foi o principal direcionador do começo da temporada. Até 1 de maio, 61,8% da cana processada no Centro-Sul foi destinada ao biocombustível, ante 54,7% no mesmo período da safra 2025/26. A produção acumulada de etanol chegou a 3,3 bilhões de litros, avanço de 71,8%.

O fundamento é claro: demanda firme, boa competitividade frente à gasolina e aumento da oferta com o avanço da moagem. Mesmo assim, a maior disponibilidade pressionou os preços nas usinas. Entre o início de 2026 até a última semana de maio a cotação do etanol hidratado caiu 24,5% e esteve cotado em R$2,23/l.

Figura 1.
Preço médio do etanol hidratado em São Paulo, na usina, em R$/litro, sem frete e impostos.
Fonte: Cepea – ESALQ/USP / Elaboração: Scot Consultoria

Com relação ao açúcar, o mercado começou mais pressionado. A produção no Centro-Sul até 1 de maio foi de 2,4 milhões de toneladas, mas o mix mais voltado ao etanol limitou um avanço maior da fabricação de açúcar. Ainda assim, os preços seguiram sem sustentação, refletindo a oferta da safra nova, compradores retraídos e demanda enfraquecida, além de um ambiente internacional frouxo, com expectativa de recuperação e boa oferta de importantes origens produtoras, como Índia e Tailândia, além da elevada disponibilidade brasileira. Entre o início de 2026 até a última semana de maio a cotação do açúcar cristal em São Paulo caiu 15,4% e esteve apregoado em 2/6 em R$93,02/saca.

Figura 2.
Preço da saca com 50kg do açúcar cristal em São Paulo, em R$/saca, com impostos, sem frete.
Fonte: Cepea – ESALQ/USP / Elaboração: Scot Consultoria

Em síntese, a safra 2026/27 começou com fundamentos positivos para a produção de cana, mas com mercado pressionado nos derivados. O etanol ganhou espaço no mix por demanda e competitividade, contudo, resultou em pressão sobre os preços. O mix do açúcar por sua vez, foi limitado pela oferta confortável, pressão nos preços internos e externos e viés de oferta mundial abundante.

Onde está o perigo?

O início da safra 2026/27 acendeu um alerta para os fornecedores independentes. A expectativa de maior produção no Brasil, fez com que o preço do ATR caísse para um patamar considerado baixo para a rentabilidade da atividade, apesar da melhora nos quilos de ATR por tonelada. Na prática, isso significa que o produtor deve receber menos pela cana justamente em um momento em que os custos de produção estão elevados.

O ATR é a base de remuneração da cana, pois mede a quantidade de açúcar recuperável na matéria-prima. Quando os preços do açúcar e do etanol caem, o valor do ATR também cai. É isso que vem acontecendo, a safra começou com maior oferta de cana, avanço da moagem e pressão sobre os preços. Com mais produto disponível, as cotações perderam sustentação e reduziram a cotação da cana.

Em abril, o preço do kg de ATR, segundo o Consecana, esteve abaixo de R$1,00, negociado em R$0,9398. Embora o mercado já esperasse uma pressão sobre os preços, a intensidade da queda surpreendeu. Em maio, o movimento se aprofundou, com o indicador caindo para R$0,8579/kg.

O problema é que essa queda ocorre em um cenário de custos altos. Diesel, fertilizantes, defensivos, mão de obra, colheita, transporte e juros elevados continuam pesando no caixa do produtor. Assim, mesmo com boa produtividade agrícola, a margem ficou apertada. Para quem produz menos por hectare, tem canavial mais velho ou depende de financiamento, o risco está maior.

Portanto, o início da safra mostra uma contradição, há perspectiva de maior produção, mas não necessariamente de melhor rentabilidade. O mercado está sendo ditado pela oferta maior de cana, pela pressão nos preços do etanol e do açúcar e pelo custo elevado no campo. Se o ATR permanecer baixo por mais tempo, a tendência é de perda de margem, menor capacidade de investimento e maior dificuldade para fornecedores menos capitalizados.

Para os pequenos produtores, aqueles com menor produtividade por hectare e que não têm reservas, o ditado que mais se escuta é, “vai sofrer para pagar a conta”.

Para o restante da safra, o cenário não é animador. As projeções apontam para o preço do kg de ATR abaixo de R$1,00 durante todo o período.

Referencias:

ABRACANA. ATR mensal. Piracicaba: Associação Brasileira da Cadeia da Cana-de-Açúcar, 2026.

CEPEA – Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada. Indicadores do açúcar e do etanol. Piracicaba: ESALQ/USP, 2026.

COMPRE RURAL. Preço do ATR despenca: “vai quebrar muito produtor de cana”, diz especialista. 2026.

CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento. Primeira estimativa traz produção de cana-de-açúcar em 709,1 milhões de toneladas na safra 2026/27. Brasília: Conab, 2026.

CONSECANA-SP. Conselho dos Produtores de Cana-de-Açúcar, Açúcar e Etanol do Estado de São Paulo. Piracicaba: Consecana-SP, 2026.

UDOP – União Nacional da Bioenergia. CZ App. Araçatuba: UDOP, 2026.

UNICA. UnicaData – Indicadores do setor sucroenergético. São Paulo: União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia, 2026.

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