Países do Oriente Médio estão entre os maiores produtores globais de gás natural, e o conflito na região pode gerar impactos no mercado.
Foto: Freepik
O gás natural é um combustível fóssil formado pela degradação de matéria orgânica, composto majoritariamente por metano (cerca de 70,0%), seguido de etano e propano. É a terceira maior fonte de energia do mundo, atrás apenas do petróleo e do carvão.
Ele é classificado em associado e não associado. O associado, comum no Brasil, se apresenta dissolvido no petróleo ou como capa de gás. Já o não associado é encontrado livre de óleo e água no reservatório.
Além disso há a diferenciação entre o gás natural veicular (GNV), utilizado no abastecimento de veículos, e o gás natural liquefeito (GNL), obtido a partir do resfriamento do gás a -162°C, o que facilita o transporte em longas distâncias e, no destino, pode passar por regaseificação.
O gás natural é amplamente utilizado como matéria-prima na indústria petroquímica e de fertilizantes (ureia, amônia e derivados), além de aplicações no setor veicular e energético, entre outros.
Os principais produtores globais são os Estados Unidos, Rússia, Irã, Catar, Canadá, China e Noruega, que também se destacam nas exportações através de gasodutos ou GNL. A demanda se concentra na Europa Ocidental, América do Norte e Norte da Ásia.
Com o envolvimento do Irã e do Catar no conflito no Oriente Médio – responsáveis por parcela relevante da produção e exportação global – e considerando que cerca de 20,0% do GNL mundial passa pelo Estreito de Ormuz, como esse mercado reagiu?
Nos Estados Unidos, os preços na New York Mercantile Exchange (referência Henry Hub, Louisiana) caíram 9,4% desde o início do conflito (até 14/4) (figura 1). O movimento reflete a demanda mais fraca por aquecimento e níveis confortáveis de armazenamento: a Energy Information Administration (EIA) reportou injeção de 50 Bcf (bilhão de pés cúbicos) nos estoques, reforçando a expectativa de maior armazenamento.
Assim, os preços norte-americanos seguem pouco sensíveis aos riscos no Oriente Médio, diante da forte oferta doméstica e limitações na exportação de GNL.
Na Europa, o cenário é oposto. Os preços futuros na Dutch TTF Natural Gas subiram 35,7% desde o início do conflito (figura 1), pressionados pela dependência de GNL que é transportado pelo Estreito de Ormuz. Além disso, ataques às instalações no Catar afetaram cerca de 17,0% da capacidade de exportação do país, em até cinco anos, o que eleva o risco de estoques reduzidos na região.
Figura 1. Preços futuros do gás natural nos EUA, em US$/MMBtu (milhão de Unidades Térmicas Britânicas) e na Europa, em €/MMBtu.
Fonte: Investing. Elaboração: Scot Consultoria.
O Brasil aumentou a produção de gás natural, conforme os últimos dados divulgados pela ANP, em fevereiro. Em 2026, os volumes mensais foram recordes: em janeiro foi de aproximadamente 6,0 mil m³ e, em fevereiro, de 5,5 mil m³, com altas de 20,2% e 24,5%, respectivamente, na comparação feita ano a ano (figura 2).
Apesar disso, o país depende de importações, porém tem como principal fornecedor a Bolívia. O gás é importado através do gasoduto Bolívia-Brasil, cuja capacidade é de até 30,08 milhões de m³ por dia e extensão de 2,6 mil quilômetros no território nacional, atravessando 136 municípios brasileiros.
Figura 2.
Produção de gás natural no Brasil, em mil m³, nos últimos cinco anos.
*Até fevereiro.
Fonte: ANP. Elaboração Scot Consultoria.
Mesmo sem dependência direta do gás do Oriente Médio, o Brasil pode ser afetado indiretamente, principalmente por meio da alta nos preços de fertilizantes – que têm o gás natural como matéria-prima –, pelo aumento dos custos para indústrias intensivas no insumo, como química, siderurgia e petroquímica, e por possíveis pressões sobre a geração de energia em termelétricas.
Nesse contexto, mesmo com produção doméstica melhorando, o cenário externo pode influenciar custos e margens ao longo da cadeia produtiva, reforçando a necessidade de atenção ao mercado internacional.
Referências
AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS (ANP). Disponível em: https://www.gov.br/anp/pt-br
CME GROUP. Natural gas overview. Disponível em: https://www.cmegroup.com/pt/education/courses/introduction-to-natural-gas/natural-gas-overview.html
COMEX STAT. Disponível em: https://comexstat.mdic.gov.br/
INVESTING.COM. Disponível em: https://br.investing.com/
PORTAL DA INDÚSTRIA. Disponível em: https://noticias.portaldaindustria.com.br/
TRANSPORTADORA BRASILEIRA GASODUTO BOLÍVIA-BRASIL S.A. (TBG). Disponível em: https://www.tbg.com.br/
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