A escalada do conflito no Irã elevou o preço da ureia, enquanto na China avança uma política protecionista — situação que acende um sinal amarelo para os produtores brasileiros.
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O mercado global de fertilizantes está tendo um março turbulento. A escalada do conflito no Irã – que envolve Israel e Estados Unidos –, importante fornecedor de amônia e ureia, elevou os preços internacionais de energia e, consequentemente, dos nitrogenados.
Para o Brasil, altamente dependente do mercado externo, o impacto tende a ser imediato. Mais de 85,0% dos fertilizantes consumidos no país são importados. Em 2025 foram trazidos 45,5 milhões de toneladas do insumo, segundo dados da Secex.
Figura 1.
Importação brasileira de fertilizantes, nas barras em azul, (milhões de toneladas), e custo com a importação, na linha laranja (milhões de dólares), entre 2020 e 2025.
Fonte: Secex / Elaboração: Scot Consultoria.
A China consolidou-se como principal fornecedora de fertilizantes ao Brasil em 2025, a frente da Rússia e do Canadá.
Figura 2.
Os cinco maiores fornecedores de fertilizantes, exceto bruto, ao Brasil, em 2025.
Fonte: Secex | Elaboração: Scot Consultoria
Outros: Nigéria, Israel, Omã, Arábia Saudita, Estados Unidos, Catar, Alemanha, Argélia, Noruega, Países Baixos, Venezuela, Turcomenistão, Bolívia, Espanha, Índia, Jordânia, Irã, Cazaquistão, Uzbequistão, Finlândia, Bahrein, Trinidad e Tobago, Líbano, Reino Unido, Lituânia, Laos, Chile, Polônia, Bélgica, Tunísia, Emirados Árabes Unidos, México, Suécia, Belarus, Colômbia, Itália, Hong Kong, Bulgária, Taiwan, França, Argentina, Turquia, República Tcheca, Portugal, Irlanda, Austrália, Eslovênia, Eslováquia, Paraguai, Coreia do Sul, Uruguai, Guatemala, África do Sul, Singapura, Costa Rica, Brasil, Peru, Hungria, Grécia, Japão, Ucrânia, Suíça, Áustria, Azerbaijão, Camarões, Kuwait, Estônia, Geórgia, Guiana, Indonésia, Letônia, Líbia, Malásia, Malta, Panamá, Polinésia Francesa, República Dominicana, Senegal, Sérvia, Tailândia, Vietnã
Neste mesmo ano, o país asiático se destacou por ultrapassar a Rússia, que vinha sendo o maior parceiro comercial brasileiro dos insumos. A preferência se deu por conta da incerteza do fornecimento Russo e necessidade de diversificação de fornecedores, frente à guerra com a Ucrânia.
Figura 3.
Importação de fertilizantes, exceto brutos, da China e da Rússia, entre 2020 e 2025, em milhões de toneladas.
Fonte: Secex | Elaboração: Scot Consultoria
Tendo em vista a preocupação com os conflitos no Oriente Médio e alta nas cotações internacionais de petróleo, fretes, seguros e fertilizantes, o governo da China decidiu manter, até agosto deste ano, políticas de restrição às exportações de seus fertilizantes, principalmente fosfatados, dando prioridade ao atendimento ao mercado local.
Em 2026 (janeiro e fevereiro) a internalização brasileira de fertilizantes chineses seguiu.
Em fevereiro, na comparação mensal, houve aumento de 3,5% na importação de fertilizantes da China.
Considerando que essa taxa de acréscimo anual siga constante até o agosto, período em que vigorará a decisão chinesa, a importação brasileira via China seria de mais 6,1 milhões de toneladas (desconsiderando os volumes importados de janeiro e fevereiro).
Com a imposição de restrições à exportação pela China, a expectativa é de aumento de preços.
Figura 4.
Importação de fertilizantes, exceto brutos, da China, entre 2025 e 2026, em mil toneladas, mais estimativa considerando alta de 3,5%.
* estimativa
Fonte: Secex (até fev/26) | Elaboração: Scot Consultoria
Além disso, o enxofre, um dos principais insumos para a produção de fertilizantes fosfatados, tem forte presença de seu fluxo comercial global pelo Estreito de Ormuz – fechado desde o início do conflito com o Irã, e sem data estimada de reabertura. Estima-se que em 2025, 44,0% do fluxo passou por lá. Ureia, amônia e gás natural também tem forte concentração logística na região. O cenário poderá, a depender do desenrolar do conflito, também elevar os preços no mercado internacional.
O cenário atual é de um ambiente com elevada volatilidade e risco estrutural para o mercado de fertilizantes. A combinação de choques geopolíticos e a postura mais restritiva da China nas suas exportações, expõe, mais uma vez, a fragilidade da dependência externa brasileira.
Vemos um mercado tensionado por oferta limitada e demanda resiliente. Para o produtor, isso se traduz em margens mais pressionadas e maior necessidade de planejamento estratégico de compras, especialmente no curto prazo, até que haja alguma normalização no cenário internacional.
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