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Scot Consultoria

Carta Boi - Gigante adormecido


Segunda-feira, 7 de novembro de 2022 - 11h00

Foto: Scot Consultoria


Estamos vivendo um 2022 marcado por volumes expressivos na exportação de carne bovina. De janeiro a outubro, o faturamento com a exportação de carne bovina in natura foi de US$10,3 bilhões, participação de 3,7% no faturamento total das exportações brasileiras. Esse é o maior faturamento da história do setor.


Em outubro/22, 188 mil toneladas de carne bovina foram embarcadas, com média diária de cerca de 10 mil toneladas, crescimento de 141,5% em relação ao volume embarcado em outubro/21.


O faturamento médio diário foi 173,5% maior que outubro/21, alcançando a marca de US$1,1 bilhão de dólares.


O peso do mercado chinês

A China é o nosso maior consumidor internacional. Em outubro, o país foi destino de 68,1% de toda carne bovina in natura exportada.


É inegável o peso desse mercado para o Brasil. No entanto, os últimos meses foram marcados por uma maior pressão sobre o mercado do boi gordo (figura 1) e nas negociações com a carne bovina (figura 2).


Figura 1.
Evolução da cotação média mensal boi gordo, na região de Barretos-SP, em R$/@, de janeiro a outubro de 2022.

Fonte: Scot Consultoria


Figura 2.
Volume de carne in natura exportada, em mil toneladas (eixo da esquerda), e preço pago pela tonelada, em dólares, pela China (eixo da direita), de janeiro a outubro de 2022.

Fonte: Scot Consultoria


Com os recentes impasses econômicos vividos pelo país asiático, ele tem sido mais firme nas negociações, pressionando o preço da tonelada.


Passado o feriado do Dia Nacional da China e com o estreitamento da janela de embarques para o abastecimento do Ano Novo chinês, na primeira semana de outubro, vimos uma desaceleração nos negócios.


Tudo leva a crer que os estoques de carne na China estejam confortáveis e que o volume importado nesse final de ano possa ser menor.


Impactos na indústria

Apesar da exportação estar nos melhores patamares, a oferta mais confortável de bovinos neste ano, atrelada a um consumo doméstico enfraquecido, tem pressionado o mercado do boi.


Esse cenário se intensificou com o recente distanciamento do mercado chinês, movimento que tirou o ímpeto comprador das indústrias, que têm trabalhado com ajustes de escalas e redução nos abates.


Segundo levantamento realizado pela Scot Consultoria, na praça paulista, a ociosidade frigorífica, que vinha trabalhando em aproximadamente 10% desde junho deste ano, aumentou, atingindo 25% em outubro.


A oferta não diminuiu, mas, com a China mais dura nos negócios, principalmente com relação a preços, a indústria frigorífica buscou ajustar seus estoques, uma vez que o mercado doméstico ainda não está sendo capaz de absorver essa carne “excedente”.


A queda da cotação não tem sido repassada com a mesma intensidade ao consumidor final. Após ver suas margens reduzidas nos últimos anos (sequelas da pandemia da covid-19), o varejo tem buscado recuperar sua margem de comercialização, mantendo preços firmes e realizando promoções pontuais como estratégia para reduzir os estoques.


Seria a exportação a vilã?

Durante os debates entre os candidatos à presidência, a exportação da carne brasileira foi apontada como pivô dos altos preços da proteína no mercado nacional.


Como estratégia para aumentar a oferta no mercado interno, visando reduzir os preços e aumentar a acessibilidade ao produto, foram levantadas questões como a taxação ou redução da exportação dessa mercadoria.


Essa ação seria eficaz?


Em primeiro lugar, cabe ressaltar que o volume de carne destinado à exportação corresponde, atualmente, a apenas 30% do que é produzido internamente, sendo infundada a teoria de que “falta carne” no mercado interno.


O rebanho bovino e a atividade pecuária brasileira estão crescendo. É natural que a exportação acompanhe o ritmo. O que houve, na realidade, foi a redução do poder aquisitivo da população, em função de fatores macroeconômicos, que têm dificultado o escoamento da carne no mercado interno.


Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o consumo de carne bovina deve cair ao menor nível dos últimos 26 anos. De acordo com o levantamento realizado pela Scot Consultoria, o consumo doméstico anual, em 2022, é de aproximadamente 24,3 quilos de carne bovina (disponibilidade interna) por habitante.


Portanto, mesmo que, hipoteticamente, aumentássemos a disponibilidade de carne no mercado interno e que, em um primeiro momento, os preços caíssem devido ao incremento na oferta, no cenário atual, o consumidor doméstico seria incapaz de absorver essa carne excedente.


Além disso, os resultados em longo prazo seriam justamente o oposto. Pensando no funcionamento do ciclo pecuário e do mercado, regido pela oferta e demanda de bovinos, com a maior oferta de carne, a cotação tenderia a cair, desestimulando a atividade. Essa redução na oferta de bovinos acarretaria, em longo prazo, em novo aumento nos preços, talvez de forma ainda mais acentuada e desta vez perene.


A exportação tem papel essencial no fluxo e regulação do mercado. Limitar essa atividade não iria alterar o comportamento do mercado doméstico e poderia desestimular a produção nacional, além de impactar em questões político-econômicas, prejudicando nossos laços comerciais internacionais.


O consumo doméstico só aumenta por um fator: renda!


Portanto, insistir em interferir no mercado artificialmente não é a solução e pode levar à desestabilização da cadeia produtiva, gerando consequências opostas ao pretendido.


Expectativas

O bom desempenho da exportação tem auxiliado em um momento de baixo consumo interno.


No entanto, como apontado, a China tem reduzido o preço pago pela tonelada da carne bovina e deverá importar volumes menores em 2023 (USDA). Contudo, o patamar de compras, mesmo sofrendo redução, deve seguir historicamente alto, após três anos de aumentos consecutivos das compras no mercado internacional, mantendo a expectativa positiva para o Brasil.


Com relação ao consumo doméstico, a estratégia correta é investir no crescimento econômico do país e na recuperação do poder de compra do consumidor brasileiro.


O atual cenário macroeconômico é positivo, com baixos índices de desemprego, o recebimento dos salários e as expectativas de redução da inflação e de crescimento no PIB brasileiro. Espera-se uma reação positiva no consumo interno. Além disso, não podemos deixar de citar as festividades de final de ano, incluindo a Copa do Mundo, que tendem a melhorar o consumo doméstico.



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