Entre conferências internacionais, cooperação científica e uma viagem ao sertão piauiense, pesquisador da Embrapa reflete sobre sustentabilidade, inovação na pecuária e o legado de pessoas que transformam realidades.
Foto por: Freepik
Em menos de um mês me envolvi com as três cidades do título, cujas localizações quase formam um triângulo equilátero com cerca de 7,0 mil quilômetros. Nesse triângulo, como se ele fosse o das Bermudas, quase me perdi em tantos pensamentos, tamanha foi a quantidade de informação. Destas, trago aqui algo que, espero, possa interessar aos leitores desta coluna.
A saga começou no dia 21 de abril, quando participei virtualmente de uma conferência intitulada “A Saúde do Solo no Coração da Transição para a Saúde Única: O Papel do Fósforo nos Sistemas Vivos” , na cidade de Meknès, no Marrocos. O evento ocorreu durante a SIAM, a feira agrícola mais importante desse país africano. O objetivo foi destacar como a saúde do solo e, em especial, o fósforo são essenciais para a existência de sistemas agrícolas sustentáveis, resilientes e integrados, que ajudem a concretizar o objetivo da “Saúde Única” (One Health). A “Saúde Única” considera humanos, animais e o ambiente como um todo, olhando a saúde sistemicamente. Nessa concepção, cada componente tem que estar hígido por si próprio para que todas suas interrelações possam ser também saudáveis. É o reconhecimento que todos estamos no mesmo barco e que a saúde de cada componente é fundamental para os demais.
O fósforo (P) é um fator determinante para a agricultura e para a segurança alimentar mundial, pois é um elemento essencial para a vida. Ele compõe os fosfolipídios nas membranas celulares, faz parte do nosso material genético (DNA e RNA), tem papel central no metabolismo energético e é o segundo elemento mais abundante nos ossos, atrás apenas do cálcio. Dos microrganismos aos animais, passando pelas plantas, não existe vida sem P. Portanto, sendo base para a produção de alimentos, se conecta com a “Saúde Única” de forma basilar, pois uma boa nutrição é um pressuposto básico não só de saúde, mas, também, da capacidade dos organismos resistirem aos desafios sanitários.
O Brasil, importa 75,0% de sua demanda por P do exterior, mas felizmente o Estreito de Ormuz não está no caminho, pois segue bloqueado. Apesar disso, o enxofre é um subproduto do petróleo e uma peça-chave na produção de fosfatos, o que aumenta a preocupação com a estabilidade de seu suprimento se as difíceis negociações de paz entre Estados Unidos e Irã demorarem muito para vingar.
No evento, foi-me perguntado sobre como explicar o Brasil ter ganhado uma posição de destaque tão grande na produção pecuária. Apresentei as grandes transformações nos sistemas pecuários ao longo das últimas décadas e os principais fatores que impulsionaram a melhoria de seu desempenho. Comecei lembrando que o desenvolvimento da pecuária brasileira foi impulsionado por fatores históricos e de mercado. Um grande marco foi o Plano Real. Ele foi introduzido há pouco mais de 30 anos sob o governo do presidente Itamar Franco, pelo então ministro da economia Fernando Henrique Cardoso, e trouxe estabilidade econômica de longo prazo. Isso reduziu muito do uso do boi como "reserva de valor" e os ganhos econômicos decorrentes desta situação, que chegavam a colocar em segundo plano a produtividade dos sistemas. Com o Plano, os ganhos econômicos passaram a ser eminentemente produtivos, o que impôs aos sistemas pecuários brasileiros uma mudança em direção à eficiência produtiva. Na ocasião, essas circunstâncias encontraram produtores que já almejavam uma produção mais empreendedora com maior aplicação de tecnologias. Encontraram, então, empresas privadas para fornecerem muitas delas, bem como a ciência, principalmente de institutos científicos (como a Embrapa) e universidades públicos, avançando para melhores práticas, novos produtos e tecnologias em prol de melhores resultados.
Outra força que moldou a atual produção brasileira foram as exigências do mercado global que pressionaram pelo abate de bovinos mais jovens e com maior peso de carcaça, aumentando a eficiência da produção e, consequentemente, reduzindo a pegada ambiental da bovinocultura de corte brasileira. Isso ganhou particularmente tração quando recaiu sobre nós a demanda chinesa por carne bovina de animais com menos de 30 meses, há cerca de quase uma década.
Por fim, entre várias tecnologias destaquei os Sistemas Integrados (SI). A adoção de configurações integradas como lavoura-pecuária (ILP), silvipastoril ou lavoura-pecuária-floresta (ILPF) transformou a produção, já que essas modalidades de produção entregam consistentemente resultados melhores do que as atividades isoladas. Isso porque em todas as combinações existem complementaridades e sinergias interessantes, onde os resultados integrados são maiores do que a soma de suas partes quando feitas isoladamente. Os melhores resultados não são apenas produtivos, mas econômicos e ambientais.
Basicamente, a cultura agrícola (soja, milho etc.) aumenta a produtividade após o pastoreio com animais e os animais produzem mais por terem uma boa pastagem no período da seca, que, aproveitando a fertilidade residual da cultura anterior, acumulou muita biomassa. Em sistemas com árvores, os bovinos podem se beneficiar de um melhor conforto térmico, o que pode aliviar o efeito do aumento da frequência de ondas de calor. As matrizes são o grupo que mais se beneficia dos sistemas silvipastoris e, como o par vaca-bezerro representa mais da metade do gasto energético total de um bovino ao longo de seu ciclo de vida, isso pode ter um grande impacto na eficiência da produção de carne bovina e em seu impacto ambiental.
Para responder como, dentro da abordagem de “Saúde Única”, usando os sistemas integrados do Brasil para mostrar os benefícios da intensificação sustentável, foi necessário enumerar as razões:
(i) Os SI funcionam como um ganha-ganha-ganha ao reduzir a intensidade de emissão de gases de efeito estufa, reduzir a degradação e ajudar a recuperação das pastagens e sequestrar uma quantidade significativa de carbono por meio do sistema radicular abundante e profundo das forrageiras tropicais. Em especial, (ii) sistemas que incluem árvores (silvipastoris. ILF ou ILPF) são capazes de sequestrar mais gases de efeito estufa do que os produzidos dentro do próprio sistema. Ao ajudar (iii) no esforço global de mitigar as mudanças climáticas, contribui para a redução dos eventos climáticos extremos que, quando ocorrem, sobrecarregam os sistemas de saúde. Outro (iv) ponto importante é que, como a produção é baseada em pastagens e com baixo uso de insumos externos, a carne é "mais limpa". Como sempre comento, a carne bovina brasileira é o alimento convencional mais próximo de sua contraparte orgânica. Também, (v) por serem os animais criados a pasto geralmente apresentam um teor de vitaminas mais elevado do que os bovinos de confinamento, o que pode ser visivelmente indicado por sua gordura mais amarelada. Não menos importante, (vi) a carne bovina brasileira produzida com gado Zebu a pasto é notavelmente mais magra em comparação com outras raças, contribuindo para um perfil de ácidos graxos mais saudável para os consumidores, bem como uma menor ingestão de gordura para uma mesma ingestão de carne. Por fim, (vi) os SI fornecem pastagens de alta qualidade durante a estação seca em quantidade e qualidade comparáveis às da estação chuvosa, tornando o sistema alimentar muito mais resiliente aos períodos de seca, com animais mais aptos a resistir aos desafios sanitários.
A síntese do exposto no evento é que, ao colocar a saúde do solo no centro dos sistemas integrados, fica fácil entender o nexo entre a produção pecuária sustentável e a “Saúde Única”. Um sistema que pode ser usado para recuperar terras degradadas, mitigar as mudanças climáticas e entregar ao consumidor um produto denso em nutrientes, enfim, que cuida do animal, do ambiente e do ser humano, ajudando a manter todos os componentes muito vivos e saudáveis.
Na segunda perna do triângulo, fui conhecer a Universidade do Tennessee (UT), nos EUA, que fica na capital do estado com o mesmo nome, em Knoxville. O convite veio depois de uma visita à Embrapa Pecuária Sudeste de representantes desta Universidade e de uma palestra no ano passado sobre a pecuária brasileira para o departamento de Ciência Animal, proferida “on-line” por mim. Juntei-me a outros nove colegas das outras quatro instituições (ESALQ-USP, Universidade Federal de Lavras, Universidade Estadual de Santa Cruz-Bahia, USP – Departamento de ecologia e Universidade Rural de Pernambuco) para uma semana de trabalho em busca de oportunidades mútuas de trabalho entre brasileiros e americanos. Além das oficinas de trabalho, conhecemos a estrutura da UT, algumas de suas estações experimentais e, principalmente, suas linhas de pesquisa. Realizei uma nova palestra, com foco em sistemas integrados, uma aula para uma turma de formandos sobre produção pecuária no Brasil e participei de um almoço com ciência na qual interagimos com alunos da graduação e da pós-graduação. Como de costume, nos impressiona a estrutura para ensino e pesquisa e os investimentos em pesquisa e extensão, esta última uma marca registrada da UT que a legitimiza perante a comunidade. Certamente, um excelente exemplo. Apesar de tudo isso, a UT, como toda a ciência americana, se encontra em tempos bastantes desafiadores e exatamente nesta semana saiu a proposta do orçamento federal dos EUA para 2027 com um aumento de 40,0% para defesa e um corte de 50,0% para a ciência.
Um ponto extra da visita foi conhecer o programa de gramados esportivos no setor de “Ciência Vegetal”. A FIFA fez uma parceria com a UT que ficou responsável por todos os gramados a serem usados na Copa do Mundo deste ano. Isso significou não só garantir gramados que se adaptem às condições desde latitudes do México até o Canadá, como também para vários estádios que são cobertos, ou seja, sem a luz do sol para o gramado realizar fotossíntese. Para isso, a FIFA investiu US$2,5 milhões na construção de um galpão para testar estratégias de iluminação artificial que garantam que os materiais escolhidos permaneçam bem durante todo o torneio nesses locais sem iluminação natural (foto 1).
Outro grande desafio decorre do fato que muitas dessas arenas tenham muito mais atividades artísticas no ano do que esportiva e, assim, o gramado é colocado e retirado frequentemente. Na Copa América de 2016, realizada nos EUA, os gramados dos estádios foram muito criticados por serem muito duros e fazer com que a bola não respondesse como o esperado. Além disso, a estrutura usada então tinha uma grande camada de areia na base que, se fosse mantida, faria com que o nível do campo subisse muito, com perda de assentos de algumas fileiras iniciais.
Foto 1.
Interior do galpão no departamento de Ciência Vegetal da Universidade do Tennessee onde estão sendo feitos os estudos para os gramados dos estádios cobertos a serem usados na Copa do Muno de 2026.
Fonte: arquivo pessoal.
Foi então criada uma estrutura muito mais compacta, mas que garante uma qualidade superior de “jogabilidade”. O ponto de honra dos pesquisadores da UT é que o jogador de cada seleção que for a final tenha em toda a trajetória, que envolverá vários estádios, tenha a sensação de ter jogado no mesmo campo todas as vezes. Para tal, foi criada uma máquina que simula o pé de um jogador, de chuteira, que tem uma gama de sensores que permitem que várias opções de gramado, a serem usados em função de cada lugar diferente, causem sempre a mesma sensação conforme avaliado pela máquina. Na torcida que os jogadores brasileiros possam testemunhar se isso é verdade ou não, após a vitória na final.
Após todas as atividades desta semana no Tennessee, voltamos com subsídios para desenhar um plano de trabalho conjunto, o que será efetivado após minhas férias, que me levaram ao último destino aqui relatado.
O último lado do triângulo foi a perna que levou a este município piauiense que tem uma importância desproporcional ao seu modesto tamanho: Sua região é palco de pinturas rupestres (foto 2) feitas há milhares de anos que mudaram teorias de décadas sobre o povoamento das Américas.
Há uma heroína brasileira por trás disso: a arqueóloga Niéde Guidon que, nos anos 1970, começou a pesquisar a região. Muitos anos antes, ainda na década de 1960, foi informada da existência das pinturas nas pedras da região. Isso ocorreu, segundo nosso guia, porque ao pedir votos um político ouviu de um dos eleitores que a condição para ganhar seu voto seria explicar o que eram aquelas pinturas intrigantes. O político, então, teria procurado alguém para explicar e, esse alguém, por sorte, era a Dra. Niéde que trabalhava no Museu do Ipiranga, na capital paulista.
Por questões conjunturais, o início do estudo foi atrasado. Todavia, dos anos 1970 até seu falecimento, no ano passado, ela se dedicou aos estudos arqueológicos e a criar um grande legado para a região, com a criação de parques nacionais (da Serra da Capivara e da Serra da Confusão), de dois museus em São Raimundo Nonato (Museu do Homem Americano e Museu da Natureza), uma cerâmica e uma legião de guias que encantam os turistas com seu conhecimento e amor à região.
Foto 2.
Visão parcial de rocha na Toca da Entrada do Pajaú, que foi o sexto sítio arqueológico explorado no Parque Nacional Serra da Capivara no interior do Piauí, na cidade de Coronel José Dias.
Fonte: arquivo pessoal.
As pinturas rupestres causam no visitante um impacto muito grande, pela diversidade de temas, pela riqueza de detalhes, pela enorme quantidade de sítios, por sua distribuição ao longo dos 130,0 mil hectares do parque, mas, especialmente por ser uma janela no tempo para nossos ancestrais e revelar a necessidade humana primal de se expressar por meio da pintura. São os primeiros moradores de nosso país e, ainda que haja alguma discussão da comunidade científica com as datações mais antigas, que dariam conta que esses nossos ancestrais teriam vivido até 58,0 mil anos atrás, parece já haver ampla aceitação para 10,0 a 25,0 mil, o que já foi suficiente para um grande avanço no entendimento da dispersão do homem pela Terra. Os descendentes desses pintores estão, de alguma forma, entre nós, mas sem propriamente ter uma linha direta. As muitas transformações ocorridas neste longo tempo ajudam a explicar isso. Interessante, conforme bem mostrado no “Museu da Natureza”, como as mudanças climáticas naturais (não causadas pela ação humana) foram o fio condutor da formação e das transformações da região ao longo do tempo.
Esses grupos podem ter vivenciado a última era glacial e se desenvolvido no início da era interglacial em que estamos atualmente. Muito provavelmente pelos movimentos de longo prazo da órbita da Terra e sua inclinação (Ciclos de Milankovitch), a hoje semiárida Caatinga, era um local de floresta exuberante que permitia a manutenção da megafauna pré-histórica brasileira, com mastodontes, tigres dente-de-sabre e as preguiças-gigantes. Esses animais da megafauna foram extintos há cerca de 10 mil anos pelas mudanças no clima que nos trouxeram ao que é a Caatinga hoje, sendo a explicação para a extinção a redução de recursos alimentares, à medida que as chuvas iam escasseando, também pelas mudanças da inclinação da Terra.
Foto 3.
Paisagem no Parque Nacional Serra da Confusão no interior do Piauí, na cidade de Caracol, mostrando a vegetação ainda verde no final da estação de chuvas em maio de 2026.
Fonte: arquivo pessoal.
A vegetação da Caatinga se adaptou à pouca quantidade de chuva, concentrada em metade do ano. Ela é xerófila (amiga da seca) e decídua, isto é, que as folhas caem, como uma forma de reduzir a perda de água. Na imagem acima (foto 3), tirada no último mês de chuvas em 17 de maio de 2026, percebe-se ainda a predominância do verde, mas uma avaliação mais atenta permite ver começo de árvores já perdendo suas folhas. Portanto, um local para os “fortes”, como nos adiantou Euclides da Cunha, na sua obra “Os Sertões” no início do século passado, sejam plantas, animais ou humanos. A Caatinga já é usada como um grande laboratório e fonte de genética para a solução de desafios impostos pelas mudanças climáticas em termos principalmente de déficit hídrico, já com bons frutos.
No período de um mês, misturando virtual e real, percorri esses três pontos do globo terrestre. Na primeira parada, tive a chance de mostrar como a trajetória da pecuária brasileira é virtuosa e como se alinha bem à concepção da “Saúde Única”. Na segunda, tive mais oportunidades de levar informações positivas sobre nossa pecuária e, no processo de trocas de informações, identificar ações de pesquisa que tragam benefício aos EUA e ao Brasil, cuja “semente” deve ser plantada em breve e seguimos com fé na sua germinação e bom estabelecimento, contando que há complementariedades e tentando achar as sinergias possíveis, como nos SI.
Na última parada, já de férias, fui inundado de boas vibrações por ver como que, com inteligência, desprendimento e propósito é possível transformar a realidade de um lugar de maneira definitiva para o bem. Mesmo num lugar tão desafiador como nossa Caatinga. A Dra. Niéde poderia ter feito seu trabalho de arqueologia, levado seus achados para a França, onde trabalhava nos anos 1970 (filha de franceses, ela tinha dupla nacionalidade) e vivido uma vida de láureas na Europa.
Em vez disso, não só manteve seu trabalho no Brasil, mas criou uma força de trabalho em arqueologia local, infraestrutura de pesquisa nos Museus, os parques e um modelo de sua visitação com a centralidade em guias locais muito bem treinados. Não satisfeita, trouxe um especialista em cerâmica de São Paulo que identificou os locais com argila de boa qualidade e treinou moradores na arte de produzir cerâmica que puderam fazer em quantidade industrial em uma unidade de produção de cerâmica que ela idealizou e, hoje, tem um empreendedor local como dono, gerando emprego e renda para a comunidade. O diferencial da cerâmica é que eles são ornamentados com os desenhos das pinturas rupestres, levando (e promovendo) esse ativo local para o resto do Brasil e do mundo. Um lugar que, apesar da pouca afluência e de uma vida de simplicidade, mostra casas bem cuidadas e uma destacada limpeza. Um Piauí que me surpreendeu positivamente e que parece seguir no embalo de melhorar ainda mais.
A vida presta!
Engenheiro agrônomo, formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo, com mestrado e doutorado pela mesma universidade. É pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste e especialista em nutrição animal com enfoque nos seguintes temas: exigência e eficiência na produção animal, qualidade de produtos animais e soluções tecnológicas para produção sustentável. É membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS).
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