O Brasil bateu recorde em janeiro, com forte demanda externa e ágios relevantes sobre o mercado interno, e 2026 dá sinais de que a demanda continuará durante o ano.
Foto: MarineTraffic
Artigo originalmente publicado no Broadcast Agro.
Em janeiro a exportação de bovinos vivos foi de 170,4 mil cabeças, o melhor mês da história quando o quesito é a quantidade exportada – figura 1.
Figura 1.
Quantidade de bovinos exportados por mês, em mil cabeças, desde janeiro de 2004. 
Fonte: Secex / Elaborado por Scot Consultoria
O faturamento, também foi recorde: o país recebeu US$208,7 milhões com a venda desses bovinos – figura 2.
Figura 2.
Faturamento mensal com a exportação de gado, em milhões de dólares, desde janeiro de 2004. 
Fonte: Secex / Elaborado por Scot Consultoria
Os principais países compradores foram a Turquia, com 67,3 mil cabeças, seguido pelo Iraque e pelo Marrocos, com 47,4 e 40,4 mil cabeças, respectivamente – tabela 1.
Tabela 1.
Países que compraram gado vivo do Brasil, em janeiro/26.
| País | Cabeças |
|---|---|
| Turquia | 67.321 |
| Iraque | 47.393 |
| Marrocos | 40.444 |
| Arábia Saudita | 8.391 |
| Líbano | 4.370 |
| Ilhas Turcas e Caicos | 2.385 |
| Guiana | 126 |
| Bolívia | 3 |
Fonte: Secex / Elaborado por Scot Consultoria
O Pará liderou a exportação, com 77,2 mil cabeças, seguido pelo Rio Grande do Sul, com 53,2 mil cabeças e por estados “Não Declarados”, com 27,2 mil cabeças – tabela 2.
Como os bovinos dos estados “Não Declarados” foram exportados pelo porto de São Sebastião-SP, presume-se que sejam de fora do eixo Pará-Rio Grande do Sul (que normalmente são exportados pelo Porto de Vila do Conde-PA e Rio Grande-RS), o que seria um fato notável.
Além disso, Roraima e Mato Grosso do Sul exportaram via terrestre para a Guiana e para a Bolívia, respectivamente.
Tabela 2.
Estados exportadores de gado em janeiro de 2026.
| Estado | Cabeças |
|---|---|
| Pará | 77.238 |
| Rio Grande do Sul | 53.183 |
| Não Declarada | 27.182 |
| Tocantins | 9.368 |
| Paraná | 1.629 |
| Bahia | 962 |
| Santa Catarina | 701 |
| Roraima | 126 |
| São Paulo | 41 |
| Mato Grosso do Sul | 3 |
Fonte: Secex / Elaborado por Scot Consultoria
Cotação dos bovinos exportados frente ao preço no mercado interno
A exportação de gado em pé é um canal de escoamento da produção que estimula a atividade econômica do campo até o porto, adicionando uma etapa extra de geração de valor no caminho.
Para o produtor, é uma alternativa de comercialização: amplia as opções de escoamento e reduz a dependência de poucos compradores.
Nas regiões em que há muita exportação de gado, como por exemplo no Pará e no Rio Grande do Sul, isso aparece no preço e, na maioria das vezes, considerando o preço FOB (Free on Board), há um ágio frente ao mercado interno (MI).
No Pará, em janeiro, os bovinos classificados pela Scot Consultoria como “boi gordo” foram vendidos ao exterior com ágio médio de 38,0% sobre o MI. A arroba exportada ficou em R$417,80, frente a R$302,73 no MI, considerando a média mensal das praças pecuárias no estado – veja na figura 3.
Figura 3.
Preço FOB e MI do boi gordo e boi magro, no Pará, e do boi magro e garrote no Rio Grande do Sul, em R$/@.
Fonte: Scot Consultoria, Secex / Elaborado por Scot Consultoria
No Pará, o boi magro exportado teve 15,0% de ágio com a arroba FOB em R$394,27, frente a R$342,88 no mercado interno.
No Rio Grande do Sul, os prêmios foram mais elevados: 45,7% para o boi magro e 63,0% para o garrote, com arroba FOB de R$486,35 e R$467,61, respectivamente, contra R$333,84 e R$286,80 no MI.
Além do retrato pontual de janeiro, o histórico reforça que o preço FOB tende a caminhar paralelamente ao mercado interno. A figura 4 mostra que, ao longo do tempo, as duas séries seguem na mesma direção, altas e baixas acontecem praticamente nos mesmos ciclos, com a exportação operando acima do MI, refletindo um ágio variável.
Isso sugere que o mercado interno é a referência de nível, enquanto a exportação acrescenta uma “camada” de preço que abre ou fecha conforme a demanda externa. Quando a exportação está mais ativa, o spread aumenta, quando perde força, ele tende a se comprimir, mas a trajetória continua alinhada ao movimento do MI.
A figura 4 refere-se ao boi gordo, mas a lógica vale para a reposição, que tende a seguir o mesmo movimento de preço.
Figura 4.
Evolução da cotação do boi gordo no mercado interno (PA) e no FOB, em US$/@.
Fonte: Scot Consultoria, Secex / Elaborado por Scot Consultoria
O desempenho de janeiro não parece ter sido um ponto fora da curva, pois a principal importadora, a Turquia, sinalizou continuidade.
No fim de janeiro, o Ministério da Agricultura e Florestas da Turquia publicou circular criando uma cota permitindo a importação de até 500 mil cabeças de bovinos machos para engorda em 2026, número igual ao do ano passado e menor do que a cota de 2024, que foi de cerca de 620 mil cabeças.
A perspectiva é de que dessas 500 mil cabeças, 450 mil sejam efetivamente adquiridas. Em 2024, a importação foi de 515 mil cabeças.
E, embora os demais compradores de gado vivo tenham dados menos acessíveis e menos transparentes, a leitura também é de manutenção da demanda. Isso ganha força num contexto em que vários países estão com rebanhos menores e, portanto, oferta mais apertada de bovinos e de carne.
Globalmente, o rebanho bovino está em queda nos últimos anos e o estoque de carne também em queda (USDA). Nesse cenário, a demanda pelo bovino vivo deve continuar firme e o Brasil, com a menor cotação da arroba do mundo, deve ter mais um bom desempenho da exportação em 2026.
Engenheiro agrônomo, formado na Esalq/USP, Piracicaba/SP. Fundador e CEO da Scot Consultoria. Atua na área de ciências agrárias, análises e consultoria de mercados agropecuários. É analista e consultor de mercado, com atuação nas áreas de pecuária de corte, leite, grãos e insumos agropecuários. É palestrante, facilitador e moderador de eventos conectados ao agronegócio. Atuou como Membro de Conselho Consultivo de empresas do setor e dirige as ações gerais da Scot Consultoria.
Engenheiro agrônomo, formado pela Esalq/USP, Piracicaba/SP, com período de graduação no programa de intercâmbio na Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bélgica. Atua como analista de mercado, na elaboração de análises setoriais nas áreas de pecuária, grãos, suplementos minerais e fertilizantes.
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