• Segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
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Scot Consultoria

Made in Brazil for China

O que torna a China a maior importadora de carne bovina do Brasil.


Artigo originalmente publicado no Broadcast Agro.

As exportações brasileiras de carne bovina para a China cresceram continuamente, atingindo em 2025, 3,50 milhões de toneladas métricas, alta de 20,9% em relação a 2024. O faturamento foi de US$18,03 bilhões, crescimento de 40,1%, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) compilados pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Esse desempenho posiciona o Brasil como o maior fornecedor de proteína animal para o mercado chinês.

Ao longo desse período, a produtividade pecuária brasileira cresceu, permitindo ampliar a produção de carne sem a expansão proporcional da área utilizada. O aumento da eficiência zootécnica por animal, a intensificação sustentável dos sistemas produtivos e a adoção gradual de boas práticas ambientais possibilitaram produzir mais em menos espaço, preservando grandes extensões de vegetação nativa.

O Brasil mantém uma das maiores áreas de preservação ambiental do mundo dentro das propriedades rurais, com reservas legais e áreas de proteção permanente que superam, em muito, as exigências observadas em outros países produtores. Esse modelo singular reforça o compromisso do país com a conservação e ao mesmo tempo sustentar a produção de alimentos em larga escala. A pecuária brasileira é parte da solução para os desafios globais de segurança alimentar e mudanças climáticas. Ao conciliar produção eficiente, preservação ambiental e capacidade de abastecer milhões de pessoas, o Brasil demonstra que é possível crescer com responsabilidade.

Através dessa perspectiva da capacidade produtiva do Brasil, deveríamos entender também, como ocorrem as negociações com o nosso maior cliente internacional. A China é o principal destino da carne bovina brasileira, respondendo por 48,0% do volume exportado. O país asiático importou 1,68 milhão de toneladas em 2025, movimentando US$8,90 bilhões (Secex e Abiec, 2025).

Então, o que é a China?

Aqui vão algumas informações básicas sobre a China e sua economia:

A China adquiriu importância no cenário internacional, tanto na percepção dos formuladores de políticas públicas quanto na visão dos empresários ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Com uma população estimada em 1,42 bilhão de habitantes (Country Meters), o país ocupa a maior extensão territorial do Leste Asiático e constitui um dos mercados mais relevantes e complexos da economia global. Acessar esse mercado significa compreender não apenas sua dimensão física marcada por extensas redes de estradas e rios, mas também suas particularidades econômicas, políticas e institucionais.

O processo de liberalização econômica, iniciado em 1978 representou um marco na história recente da China, ao facilitar a entrada de capitais estrangeiros, estimular o comércio internacional e impulsionar o acelerado crescimento econômico que elevou o nível de renda e consumo da população chinesa. Ainda assim, diferentemente das economias plenamente liberalizadas, o Estado chinês mantém um papel central na condução da economia, atuando de forma direta na formulação de políticas, na regulação dos mercados e no direcionamento estratégico de setores considerados prioritários.

Nesse contexto, para as empresas brasileiras interessadas em operar ou expandir suas relações comerciais com a China, é fundamental compreender a estrutura político-institucional do país, em especial o papel do presidente, da Assembleia Popular Nacional, enquanto principal órgão legislativo, e do sistema judiciário, cuja atuação está fortemente integrada ao arcabouço estatal. Ademais, é imprescindível acompanhar as transformações demográficas e sociais em curso, notadamente o avanço da urbanização e o rápido envelhecimento da população, fatores que vêm redefinindo padrões de consumo, demanda por alimentos e estratégias de longo prazo do mercado chinês.

De acordo com a mais recente Atualização Econômica da China, publicada pelo Banco Mundial, o crescimento econômico chinês está estimado em 4,9% em 2025 e projetado em 4,4% em 2026, refletindo a persistência de desafios estruturais e conjunturais na economia do país. Entre esses fatores adversos destacam-se a desaceleração do setor imobiliário, o envelhecimento populacional e a necessidade de reequilíbrio entre consumo interno e investimentos.

Ainda assim, medidas fiscais recentemente adotadas, tendem a oferecer suporte à retomada dos investimentos e das exportações, reforçando o papel da China como um dos principais motores do comércio internacional. Esse movimento é evidenciado pelos dados recentes de comércio exterior, que registraram um superávit comercial recorde de US$1,08 trilhão nos primeiros 11 meses de 2025, superando, pela primeira vez na história, a marca de US$1,0 trilhão.

Esse desempenho foi impulsionado por um crescimento de 5,4% nas exportações, que alcançaram US$3,4 trilhões, enquanto as importações recuaram 0,6%, totalizando US$2,3 trilhões. Importante destacar que esse resultado não se restringe a um único segmento, como o comércio de carnes ou commodities agrícolas, mas abrange diversos setores da economia, evidenciando a amplitude e a complexidade da inserção chinesa no comércio global.

Nesse contexto, os números reforçam o potencial da China como investidora e compradora estratégica nos mais variados mercados internacionais, inclusive para países exportadores como o Brasil. A combinação entre escala econômica, capacidade de financiamento e demanda diversificada mantém a China como um ator central nas cadeias globais de valor, mesmo em um cenário de crescimento mais moderado.

Sobre as obrigações de negociações internacionais:

A Organização Mundial do Comércio (OMC) e os acordos bilaterais desempenham papel central na criação de um ambiente comercial internacional mais previsível e estável. Para o agronegócio brasileiro, essa estrutura baseada em regras é fundamental, pois reduz incertezas e oferece maior segurança às exportações, especialmente para mercados estratégicos como a China, principal destino de diversos produtos agropecuários do Brasil.

Entre essas obrigações, destaca-se a obrigação da China cumprir os acordos sanitários e fitossanitários internacionais, baseando suas exigências técnicas em critérios científicos e evitando a imposição de barreiras comerciais injustificadas. A medida restritiva aplicada às importações de carne bovina brasileira foi transparente, proporcional e compatível com as normas multilaterais, assegurando tratamento não discriminatório ao Brasil em relação a outros países exportadores.

Além disso, a China respeita compromissos relacionados à previsibilidade regulatória, comunicando previamente mudanças em regras sanitárias, procedimentos de habilitação de plantas frigoríficas e exigências de certificação. Essa previsibilidade é essencial para o planejamento da cadeia produtiva brasileira, desde o produtor rural até a indústria exportadora, reduzindo riscos e custos operacionais.

Caso ocorram divergências ou restrições consideradas incompatíveis com os acordos internacionais, o Brasil pode recorrer aos mecanismos de consulta e solução de controvérsias da OMC, buscando garantir o cumprimento das obrigações assumidas pela China. Esse sistema fortalece a posição do agronegócio brasileiro, assegurando que o comércio de carne bovina ocorra em bases técnicas, estáveis e alinhadas às regras do comércio internacional.

Disputas comerciais

Durante décadas, a China adotou uma postura cautelosa e pragmática, concentrando seus esforços no crescimento econômico interno, na expansão do comércio exterior e na integração gradual às cadeias globais de valor. Essa estratégia, consolidada a partir de 1978 sob a liderança de Deng Xiaoping, ficou sintetizada no lema “esconder capacidades e aguardar o momento certo”. O resultado foi um processo de transformação silenciosa: em pouco mais de quatro décadas, a China passou de uma economia essencialmente agrícola para a segunda maior economia do mundo, com um PIB superior a US$18 trilhões, responsável por cerca de 18,0% do PIB global, sem provocar confrontos diretos com a liderança internacional dos Estados Unidos.

Nos últimos anos, entretanto, observa-se uma inflexão clara dessa postura. A China deixou de atuar apenas como beneficiária da ordem internacional vigente e passou a se posicionar como uma potência revisionista, com ambição explícita de reconfigurar regras, instituições e fluxos globais de poder. Essa mudança não ocorre de forma improvisada, mas como parte de uma estratégia de Estado organizada, orientada por metas de curto, médio e longo prazo.

No curto prazo, a estratégia chinesa concentra-se na preservação da estabilidade econômica e social, sustentando taxas de crescimento próximas a 5,0% ao ano, mesmo em um cenário global adverso. No médio e longo prazo, a China avança em uma estratégia mais profunda de reorganização do sistema internacional. Um dos pilares dessa agenda é a criação e o fortalecimento de instituições paralelas às estruturas tradicionais do pós-guerra, como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), que já reúne mais de 100 países membros e financia projetos estratégicos em infraestrutura, logística e energia. Paralelamente, Pequim prioriza acordos bilaterais e regionais que reduzem sua dependência de organismos multilaterais historicamente influenciados por potências ocidentais.

Outro eixo central dessa estratégia é a internacionalização do yuan. Segundo um relatório divulgado pelo Banco Central (BC) em 26/12/2025, o yuan chinês se tornou a segunda moeda mais importante nas reservas internacionais brasileiras, ultrapassando o euro. A China tem ampliado o uso de sua moeda em transações comerciais e financeiras com parceiros estratégicos, como Rússia, Irã, Arábia Saudita e países da América Latina, buscando reduzir a dependência do dólar e do sistema financeiro internacional centrado nos Estados Unidos. Atualmente, a China detém mais de US$3,0 trilhões em reservas internacionais, o que lhe confere elevada capacidade de gestão cambial e financeira no longo prazo.

A diplomacia chinesa também reflete essa mudança de patamar. A postura anteriormente discreta deu lugar a uma atuação mais assertiva e direta, conhecida como “wolf warrior diplomacy”, caracterizada pela defesa firme dos interesses nacionais e pela resposta imediata a pressões externas. Essa abordagem não é apenas retórica, mas expressa a percepção de Pequim de que a China ocupa hoje uma posição central e incontornável no sistema internacional, tanto econômica quanto politicamente.

Essa capacidade de atuação estratégica é sustentada por uma estrutura estatal altamente organizada e centralizada, composta por ministérios, comissões e agências reguladoras com funções bem definidas. Destacam-se o Ministério do Comércio (MOFCOM), responsável pela política comercial e investimentos estrangeiros; o Banco Popular da China (PBC), que atua como banco central e exerce forte influência sobre o sistema financeiro; a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reformas (NDRC), que coordena o planejamento econômico de longo prazo e aprova grandes projetos de investimento; e a Administração-Geral de Alfândegas, que controla tarifas, cotas e fluxos de importação e exportação.

Em síntese, a China contemporânea se caracteriza como uma superpotência organizada, orientada por planejamento estatal, metas claras e uso estratégico do comércio, das finanças e da diplomacia. Sua atuação combina resultados imediatos — como superávits comerciais e expansão de mercados — com um projeto de longo prazo voltado à redefinição da ordem internacional. Compreender essa lógica é essencial para interpretar não apenas a relação sino-brasileira, mas o funcionamento do comércio global nas próximas décadas.

Lidando com o Governo chinês:

Na China, o comércio exterior é controlado por quatro órgãos administrativos centrais. A Alfândega (GACC) é responsável por controlar a entrada e saída de mercadorias, cobrar impostos e consolidar as estatísticas do comércio, atuando em todos os portos e fronteiras. O Ministério do Comércio (MOFCOM) emite licenças de importação e exportação e administra o sistema de cotas. A Comissão de Tarifas Alfandegárias, vinculada ao Conselho de Estado, define as tarifas de importação e exportação. Já a Administração de Supervisão de Qualidade, Inspeções e Quarentenas (AQSIQ) supervisiona inspeções, quarentenas e padrões técnicos, com foco especial em produtos agrícolas.

Para os exportadores brasileiros, o acesso ao mercado chinês pode ser dificultado por barreiras tarifárias, técnicas ou administrativas. Algumas estão amparadas por regras internacionais, outras podem ser questionáveis do ponto de vista do comércio global, e há ainda entraves ligados à própria burocracia aduaneira chinesa, que podem atrasar a liberação das mercadorias. Por isso, é fundamental realizar consulta prévia a entidades do setor, órgãos do governo brasileiro e à Embaixada e Consulados do Brasil na China, a fim de antecipar riscos. Além disso, a China pode adotar cotas globais de importação, administradas pela própria Alfândega chinesa, o que reforça a necessidade de planejamento estratégico por parte do exportador.

Uma relação importante a ser observada: Hong Kong.

Uma relação importante a ser observada entre Hong Kong e a China continental no comércio de carne bovina brasileira está menos no volume absoluto e mais na função estratégica que Hong Kong desempenha dentro do sistema chinês de consumo, distribuição e precificação.

Hong Kong é tratado, do ponto de vista comercial e sanitário, como um mercado separado da China continental, com regras próprias de importação, menor intervenção estatal e processos aduaneiros mais ágeis. Isso faz com que a carne bovina brasileira destinada a Hong Kong tenha, em geral, maior flexibilidade regulatória, menos exigências burocráticas e maior rapidez no desembaraço, quando comparada ao fluxo direto para a China continental.

Perfil da carne bovina brasileira destinada a Hong Kong:

A carne bovina brasileira exportada para Hong Kong costuma ter perfil mais diversificado de cortes e maior presença de produtos de valor agregado, atendendo restaurantes, hotéis, redes premium e o setor de food service internacional. Diferentemente da China continental, onde o consumo é fortemente orientado por preço, volume e cortes específicos para hot pot e cozidos, Hong Kong demanda padrões mais próximos aos mercados ocidentais, com atenção a maciez, marmoreio, padronização e apresentação.

Hong Kong também funciona, na prática, como um hub logístico e comercial. Parte da carne bovina brasileira que entra por Hong Kong pode ser reexportada ou redistribuída para outras regiões da Ásia, inclusive para a própria China continental, por vias formais ou informais, dependendo do contexto regulatório. Isso faz de Hong Kong um termômetro de mercado, com mudanças no fluxo para Hong Kong frequentemente sinalizam ajustes futuros na demanda chinesa.

Para o Brasil, Hong Kong cumpre um papel estratégico importante, na diversificação de risco, ao reduzir dependência exclusiva da China continental, com um canal de entrada e teste de mercado para novos produtos, cortes e marcas e formação de referência de preço e qualidade, que influencia negociações com importadores chineses.

Enquanto a China continental opera sob forte controle estatal, políticas de salvaguarda, habilitações específicas de plantas e decisões centralizadas, Hong Kong preserva um ambiente liberal. Assim, a carne bovina brasileira destinada a Hong Kong não substitui o mercado chinês, mas complementa e sustenta a presença do Brasil na Ásia, especialmente em momentos de maior rigidez regulatória ou ajuste de políticas na China.

Em síntese, Hong Kong não é apenas um destino, mas um elo estratégico da carne bovina brasileira na Ásia. Ele conecta o Brasil a consumidores de maior valor agregado, oferece flexibilidade comercial e ajuda a sustentar a presença brasileira no ecossistema chinês como um todo, funcionando ao mesmo tempo, como mercado, plataforma logística e sinalizador de tendências para a China continental.

A China e o Brasil:

A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009 e uma das principais fontes de investimento estrangeiro direto (IED) no país. A relação bilateral apresenta elevado dinamismo e extrapola o comércio, estendendo-se a fóruns estratégicos como BRICS, G20, OMC e BASIC, o que reforça a coordenação política, econômica e ambiental entre os dois países. No Brasil, o capital chinês tem presença crescente em setores estruturais, como energia elétrica, petróleo e gás, transportes, telecomunicações, serviços financeiros e indústria, além do fortalecimento da cooperação financeira, com bancos chineses operando no país e a presença do Banco do Brasil em Xangai desde 2014.

No agronegócio, a China ocupa posição central. O país é o maior consumidor mundial de proteína animal, e sua demanda crescente está ligada à urbanização, ao aumento da renda e à sofisticação do consumo. Nesse contexto, a carne bovina brasileira tornou-se estratégica para a segurança alimentar chinesa, consolidando o Brasil como fornecedor confiável em volume, regularidade e qualidade. A demanda chinesa impulsionou simultaneamente crescimento de volume e valorização de preços, refletindo o alto reconhecimento do produto brasileiro.

Esse movimento é sustentado por mudanças estruturais no consumo. A elevação do padrão de vida e a transformação dos hábitos alimentares, especialmente entre a Geração Z, ampliaram a busca por qualidade, conveniência e diversidade. Aproximadamente 25,0% das compras de carne bovina por jovens chineses já ocorrem via e-commerce e transmissões ao vivo, e cortes específicos para a culinária chinesa, como peito bovino e tendão, registraram crescimento de demanda próximo a 47,0%. A carne bovina brasileira, majoritariamente proveniente de boiadas alimentadas em pasto, apresenta características compatíveis com esses usos: textura, maciez e versatilidade culinária.

Do ponto de vista estratégico, a China atua de forma pragmática, planejada e orientada ao longo prazo. Sua política externa prioriza soberania, estabilidade territorial, segurança no abastecimento de insumos estratégicos e construção de relações comerciais duradouras. A recente reconfiguração do comércio global — marcada por disputas tarifárias e políticas protecionistas — acelerou a transição do mercado chinês de um perfil de “baixo preço” para um mercado de valor, beneficiando fornecedores capazes de atender padrões mais exigentes.

Para o Brasil, esse reposicionamento reduziu a dependência de mercados tradicionais e aumentou a resiliência das exportações. O país ampliou sua participação no comércio global de carne bovina, passando de 28,0% em 2024 para cerca de 32,0%, consolidando-se como o maior exportador mundial e ocupando espaços deixados por concorrentes afetados por tensões comerciais.

De forma ampla, a China combina planejamento estatal, poder de compra, capacidade financeira e atuação geopolítica ativa, sustentada por iniciativas como a Belt and Road Initiative (BRI - Iniciativa do Cinturão e Rota) e pela expansão de investimentos na América Latina, África e Ásia. Para países exportadores de commodities, como o Brasil, trata-se de um parceiro central, cuja importância vai além do curto prazo e se insere na arquitetura estratégica do comércio global de alimentos.

Quais são os cumprimentos da China de exportar carne bovina brasileira?

No campo agroalimentar, órgãos como o Ministério da Agricultura (MOA) e a Agência de Segurança Alimentar e Medicamentos (SFDA) desempenham papel central na definição de padrões sanitários, certificações e regras de acesso ao mercado chinês. Para países exportadores como o Brasil, essa estrutura significa que o comércio com a China não se limita a decisões de mercado, mas está profundamente inserido em uma lógica estratégica, regulatória e geopolítica de longo prazo.

A China não compra carne bovina de forma desorganizada ou oportunista. Pelo contrário: sua política de importação é orientada por objetivos claros de segurança alimentar, estabilidade de abastecimento e controle sanitário rigoroso. Isso se traduz em exigências detalhadas de habilitação de plantas frigoríficas, protocolos sanitários específicos, controles de rastreabilidade, padrões documentais rígidos e capacidade comprovada de fornecimento regular. Na prática, quem vende para a China, ou para mercados que orbitam sob sua influência, precisa ter um padrão elevado de previsibilidade e conformidade.

Esse modelo chinês acaba irradiando efeitos para todo o mercado internacional. Países importadores passaram a elevar seus próprios requisitos sanitários e documentais, alinhando-se a padrões mais exigentes. Assim, a exportação de carne bovina brasileira, mesmo quando destinada a outros mercados, passou a exigir o mesmo nível de organização, controle e profissionalização. O produto deixou de ser avaliado apenas pela qualidade da carne e passou a ser julgado pelo conjunto da operação: origem, processo produtivo, documentação, logística e capacidade de resposta a auditorias e inspeções.

É nesse cenário que o Brasil se destaca e, ao mesmo tempo, é desafiado. O país reúne escala produtiva, diversidade de plantas frigoríficas e uma cadeia orientada à rastreabilidade e à padronização. Contudo, acessar e manter mercados estratégicos, especialmente o chinês, exige mais do que capacidade produtiva. Exige domínio técnico das regras do comércio internacional, atenção permanente às mudanças regulatórias e uma gestão integrada entre produção, documentação e logística.

A China também utiliza instrumentos legítimos de política comercial, como salvaguardas, ajustes tarifários e controles administrativos, para administrar volumes e proteger sua produção interna. Essas decisões afetam diretamente os fluxos globais de carne bovina e reforçam a importância de exportadores brasileiros com a diversificação de mercados, planejamento de risco e alto grau de compliance. Nesse contexto, mercados complementares, como Hong Kong e outros destinos asiáticos, ganham relevância como válvulas de equilíbrio e continuidade comercial.

Portanto, quando falamos em exportar carne bovina com segurança, estamos falando de trabalhar dentro de uma engrenagem global em que a China ocupa posição central. A competitividade real não está apenas no frigorífico ou no preço final, mas na capacidade de cumprir regras, antecipar exigências, organizar processos e entregar com regularidade. Exportar carne hoje é gerir um sistema complexo, e quem entende a lógica chinesa entende, na prática, como funciona o comércio internacional de proteína animal.

É exatamente por isso que a exportação de carne bovina exige governança, planejamento e suporte especializado. Em um mercado moldado por padrões elevados e decisões estratégicas de grandes importadores como a China, vencer não é apenas produzir bem, é executar melhor.

Direito internacional

A legislação internacional constitui um campo amplo e complexo do Direito, voltado à análise e à aplicação de normas, princípios e instrumentos jurídicos que regem as relações entre Estados e agentes econômicos. No âmbito do comércio exterior, seu foco recai, especialmente, sobre os instrumentos contratuais e regulatórios que disciplinam as operações internacionais de exportação de proteína animal.

Nesse contexto, a burocracia estatal pode se manifestar por meio de tarifas e barreiras comerciais impostas por países importadores, muitas vezes associadas a políticas de protecionismo econômico. Tais barreiras incluem a adoção de cotas de importação, elevação de tarifas aduaneiras e exigências adicionais de certificação sanitária e técnica, fatores que tendem a reduzir a competitividade dos exportadores.

Um exemplo recente dessas práticas foi a adoção, pela China, de medidas de salvaguarda aplicáveis à carne bovina importada. Por meio do Anúncio no. 261 da Administração Geral das Alfândegas de 2025, fundamentado no Regulamento da República Popular da China sobre Medidas de Salvaguarda, o Ministério do Comércio decidiu aplicar medidas de salvaguarda às importações de carne bovina pelo período de três anos, a partir de 1 de janeiro de 2026. Para esse fim, foi publicado o Anúncio no. 87 de 2025, que estabelece os procedimentos e condições para a implementação da medida.

De acordo com as disposições anunciadas, o consignatário das mercadorias importadas ou seu agente deverá declarar à Alfândega chinesa a carne bovina sujeita às medidas de salvaguarda, conforme previsto no Artigo 2 do Anúncio no. 87, seguindo rigorosamente as especificações do formulário de declaração aduaneira após a entrada do transporte no território chinês.

Além disso, conforme o Artigo 3 do referido Anúncio, durante o período de vigência das medidas de salvaguarda, ficam suspensas as medidas especiais de salvaguarda aplicáveis à carne bovina previstas no Acordo de Livre Comércio entre a China e a Austrália. Em consequência, também se encontra suspenso o Anúncio no. 207 da Administração Geral das Alfândegas de 2019, que regulamentava tais disposições no âmbito do acordo bilateral.

Por fim, as operações realizadas em áreas especiais de supervisão alfandegária, locais de controle aduaneiro específico e empresas de processamento fora da zona aduaneira que envolvam a importação de carne bovina sujeita às medidas de salvaguarda deverão observar integralmente os regulamentos nacionais unificados da China.

Perspectiva de tendência de desenvolvimento futuro:

Cooperação aprofundada entre a indústria brasileira de carne bovina e o mercado chinês.

Previsão de curto prazo do mercado: as importações chinesas devem permanecer em níveis elevados, contribuindo para o ajuste industrial do setor. O reconhecimento da carne bovina brasileira pelos importadores chineses decorre não apenas de sua vantagem de preço, mas também de sua qualidade, regularidade e estabilidade no fornecimento. Essa parceria consistente tende a auxiliar a indústria bovina brasileira a atravessar o atual período de dificuldades e a retomar, de forma gradual e sustentável, sua trajetória de crescimento.

Planejamento estratégico de cooperação de longo prazo: o Brasil acelera sua integração profunda com o mercado chinês. A Associação Nacional de Pecuária Intensiva do Brasil lançou o “Plano de Penetração Profunda no Mercado Chinês”, voltado à adaptação da oferta brasileira às especificidades do consumo local. No campo da atualização de produtos, foram desenvolvidos cortes segmentados para cenários de catering, como hot pot e carnes cozidas, incluindo costelas bovinas e tendões, com a meta de elevar a participação de produtos processados nas exportações para 25,0% em 2025.

Com a expansão contínua do mercado chinês de hot pot e carne estufada, a demanda por ingredientes específicos segue em alta. As empresas brasileiras de carne bovina vêm aproveitando essa oportunidade ao atender de forma precisa às preferências dos consumidores chineses, ampliando a competitividade por meio do desenvolvimento de produtos segmentados e adaptados aos hábitos alimentares locais.

Na expansão de canais, a cooperação com plataformas de comércio eletrônico como Meituan Preferred e Pinduoduo tem permitido a promoção da carne bovina brasileira em cidades de terceiro e quarto níveis. A expectativa é de que o volume de vendas nesses mercados cresça cerca de 40,0% em 2026. Essas plataformas contam com ampla base de usuários e redes logísticas consolidadas, o que facilita o acesso da carne bovina brasileira nos mercados do interior e amplia seu espaço de atuação.

No âmbito da coordenação de políticas, aproveitando a cúpula dos BRICS, avança a implementação do modelo de “comércio eletrônico transfronteiriço + depósito alfandegário”, com a meta de viabilizar entregas em até 72 horas em cidades como Pequim, Xangai, Guangzhou e Shenzhen, além de reduzir os custos logísticos em aproximadamente 12,0%. Esse modelo tende a elevar a eficiência logística, reduzir prazos, melhorar a relação custo-benefício dos produtos e fortalecer a competitividade da carne bovina brasileira no mercado chinês.

No longo prazo, a indústria brasileira de carne bovina tende a transformar um cenário de pressão em um ciclo de recuperação sustentada por meio de uma cooperação aprofundada com o mercado chinês, que se consolida como uma das principais forças motrizes do desenvolvimento do setor. O papel estabilizador exercido pela China no comércio global de carne bovina vem remodelando a lógica do mercado internacional: em um contexto de avanço do unilateralismo, a diversificação de destinos e a estabilidade da demanda tornam-se fatores centrais para mitigar riscos comerciais e garantir previsibilidade ao setor.

Referências:

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https://www.elibrary.imf.org/display/book/9781557752024/ch002.xml

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Alcides Torres

Engenheiro agrônomo, formado na Esalq/USP, Piracicaba/SP. Fundador e CEO da Scot Consultoria. Atua na área de ciências agrárias, análises e consultoria de mercados agropecuários. É analista e consultor de mercado, com atuação nas áreas de pecuária de corte, leite, grãos e insumos agropecuários. É palestrante, facilitador e moderador de eventos conectados ao agronegócio. Atuou como Membro de Conselho Consultivo de empresas do setor e dirige as ações gerais da Scot Consultoria.

Stéfany Souza

Zootecnista, formada pelo Instituto Federal Goiano - Campus Rio Verde. Mestranda no programa de Pós graduação em Ciência Animal, na área de produção animal no berço do boi 777 em São Paulo, com o tema 'Efeito da ultilização de óleos essenciais (Agolin Ruminat) em dietas de confinamento sobre o desempenho e características da carcaça de bovinos Nelore'. Expertise em Excel, análise de dados, demandas nutricionais, estrategista operacional das atividades agropecuárias, otimização dos recursos de produção. Redatora de textos e artigos para as publicações da Scot consultoria, revistas do setor.

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