Será que, no lugar da botina e do chapéu, o terminador do futuro vestirá luva e jaleco? A produção de carne em laboratório avança na comunidade científica, mas a questão central permanece: esse modelo representa, de fato, o futuro da oferta de proteína?
Foto: Bela Magrela
A carne cultivada, conhecida como carne de laboratório, consiste na produção de tecido muscular animal por meio do cultivo de células em ambiente controlado, sem a necessidade de abate.
A técnica reproduz, fora do organismo, os processos naturais de multiplicação e diferenciação celular responsáveis pelo crescimento animal, configurando uma alternativa para a obtenção de proteína de origem animal dissociada do sistema convencional de produção.
A tecnologia desta área está na fase pré-comercial, engatinhando dos laboratórios e dando seus primeiros passos rumo às indústrias. O foco inicial está na produção de itens processados, como hambúrgueres, almôndegas e nuggets, que exigem menor complexidade estrutural do tecido muscular, enquanto cortes inteiros ainda representam um desafio tecnológico.
No Brasil, iniciativas de pesquisa e desenvolvimento são conduzidas em parceria entre universidades, centros de inovação e empresas do setor frigorífico.
O sistema produtivo da carne cultivada pode ser dividido, de forma simplificada, em seis grandes etapas:
1. Obtenção e seleção das células, que devem garantir a qualidade da carne produzida. Podem ser coletadas separadamente por tipo (muscular, óssea ou lipídica) ou utilizadas as células-tronco (pluripotentes).
2. Separação e classificação das células, entre células musculares, lipídicas e ósseas, para fase posterior.
3. Cultivo das células, separadas por categorias, em meio de cultivo rico em aminoácidos, vitaminas, sais minerais e outros insumos necessários para a biossíntese.
4. Multiplicação, onde toda a massa produzida é transferida para um biorreator pequeno, em seguida para um maior e assim por diante, à medida que a massa cresce.
5. Processamento das fibras, onde são utilizados os scaffolds, que funcionam como moldes, nos quais as camadas de tecido cárneo se depositarão, orientando e dando forma ao crescimento do tecido. Esses materiais podem ser de origem vegetal ou sintética e precisam ser comestíveis, atóxicos e compatíveis com o crescimento celular.
6. Higienização e finalização, deixando o produto pronto para ser transportado, armazenado, comercializado e consumido.
Em 2013 foi marcado o avanço da carne cultivada, com a apresentação do primeiro hambúrguer do gênero, pesando 142,0 gramas, idealizado por Willem van Eelen e financiado por Sergey Brin, cofundador do Google. O produto custou cerca de R$750 mil para ser produzido, valor que hoje equivaleria a aproximadamente R$1,6 milhão.
Desde então, a tecnologia evoluiu e os custos foram reduzidos, mas ainda permanecem muito acima do preço da carne convencional. Em Singapura, o Huber’s Butchery and Bistro, único restaurante no mundo a oferecer carne cultivada no cardápio, cobra cerca de US$50,00, ou R$262,38, por um único nugget.
Os principais componentes do custo incluem o meio de cultura celular, os fatores de crescimento, a energia necessária para manter os biorreatores em operação contínua e a infraestrutura industrial de padrão farmacêutico.
A expectativa do setor é que, com a produção em larga escala, a substituição de insumos onerosos e a otimização dos processos, o custo por quilograma se aproxime gradualmente do valor da carne convencional ao longo da próxima década.
Do ponto de vista ambiental, a carne cultivada é frequentemente apresentada como uma alternativa de menor impacto em relação à pecuária tradicional, sobretudo no que se refere ao uso de terra, água e às emissões de poluentes.
Estudos indicam reduções potenciais de até 70,0% na demanda por área física e de 50,0% no consumo de água quando comparada à produção de carne bovina em sistemas extensivos, além da eliminação das emissões diretas de metano, associadas à presença dos animais. Ainda que emita outro gás poluente, a depender da fonte de energia utilizada.
Entretanto, a produção de carne cultivada depende de fornecimento contínuo de energia elétrica para o funcionamento de biorreatores, controle térmico, esterilização e demais etapas do processo, além da energia empregada na fabricação dos meios de cultura. Nos contextos atuais, em que parcela significativa dessa energia ainda é proveniente de combustíveis fósseis, a pegada de carbono por quilograma de carne cultivada pode superar a da carne bovina produzida em sistemas eficientes.
Em 2025, a produção mundial de carne bovina alcançou cerca de 61,9 milhões de toneladas, com o Brasil superando os Estados Unidos e assumindo a liderança. Para substituir sequer uma fração desse volume, seriam necessários milhares de complexos industriais de grande porte operando de forma contínua, o que, nas condições atuais, é inviável.
A carne cultivada representa uma das inovações para a produção de alimentos de origem animal, ao materializar, na prática, um conceito antes restrito aos filmes de ficção científica.
Por hora, não veremos a substituição da pecuária tradicional. A produção pecuária resulta de milênios de domesticação, seleção genética e avanços nutricionais, constituindo um sistema eficiente na conversão de energia solar, via plantas, em proteína de alto valor biológico.
Além disso, a carne cultivada ainda apresenta custos superiores aos da carne convencional, enquanto a pecuária moderna avança de forma consistente em sustentabilidade, por meio da intensificação produtiva, da integração lavoura-pecuária, do melhoramento genético, da nutrição de precisão e do manejo racional, ampliando a produção por hectare com menor impacto ambiental.
Nesse contexto, a carne cultivada deve ser encarada como complementar, e não substitutiva. Em países com forte vocação pecuária, como o Brasil, o futuro da carne sustentável está no aprimoramento contínuo da eficiência produtiva, na intensificação sustentável dos sistemas e na redução de perdas ao longo da cadeia, reforçando o papel central da pecuária na segurança alimentar global nas próximas décadas. Ainda que não citados os coprodutos provenientes da produção animal.
Dito isto, o terminador continuará usando botina e chapéu.
Referências:
A FANTÁSTICA fábrica de carnes: bife de laboratório. O Joio e o Trigo, 23 ago. 2021. Disponível em: https://ojoioeotrigo.com.br/2021/08/a-fantastica-fabrica-de-carnes-bife-laboratorio/ . Acesso em: 30 jan. 2026.
CARNE cultivada cresce, mas enfrenta testes de escala e mercado. CNN Brasil, 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/agro/carne-cultivada-cresce-mas-enfrenta-testes-de-escala-e-m… . Acesso em: 30 jan. 2026.
CARNE cultivada: ciência discorda. O Joio e o Trigo, 17 abr. 2024. Disponível em: https://ojoioeotrigo.com.br/2024/04/carne-cultivada-ciencia-discorda/ . Acesso em: 30 jan. 2026.
CIENTISTAS produzem primeiro hambúrguer de laboratório. G1, 5 ago. 2013. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/08/cientistas-produzem-primeiro-hamburguer-de-laboratorio.h… . Acesso em: 30 jan. 2026.
GB apresenta primeiro hambúrguer com carne produzida com células-tronco. UOL Economia, 5 ago. 2013. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/afp/2013/08/05/gb-apresenta-primeiro-hamburguer-com-carne-prod… . Acesso em: 30 jan. 2026.
O futuro à mesa: o que ainda não sabemos sobre a carne cultivada. Universidade Federal de São Paulo, s.d. Disponível em: https://portal.unifesp.br/destaques/o-futuro-a-mesa-o-que-ainda-nao-sabemos-sobre-a-carne-cultivada . Acesso em: 30 jan. 2026.
O que é exatamente uma carne cultivada em laboratório? National Geographic Brasil, jul. 2023. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2023/07/o-que-e-exatamente-uma-carne-cultivada-em-… . Acesso em: 30 jan. 2026.
PROJETOS para carne de laboratório. Sistema Faemg Senar, s.d. Disponível em: https://www.sistemafaemg.org.br/senar/noticias/projetos-para-carne-de-laboratorio . Acesso em: 30 jan. 2026.
UFSC e JBS assinam acordo para desenvolvimento de pesquisas sobre proteína cultivada. Universidade Federal de Santa Catarina, nov. 2023. Disponível em: https://noticias.ufsc.br/2023/11/ufsc-e-jbs-assinam-acordo-para-desenvolvimento-de-pesquisas-sobre-… . Acesso em: 30 jan. 2026.
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