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Scot Consultoria

Controle foliar de plantas daninhas lenhosas nas pastagens


Terça-feira, 26 de dezembro de 2023 - 06h00

Engenheiro agrônomo e mestre em solos e nutrição de plantas pela ESALQ-USP. Com atuação profissional desde 1985 em pesquisa e desenvolvimento em sistemas de produção agrícola em empresas nacionais e multinacionais, trabalhou por 24 anos na geração dos principais herbicidas para pastagens hoje no mercado. Atualmente, é consultor independente, fundador da NTC ConsultAgro, focado no manejo da vegetação em pastagens, reflorestamentos e áreas não agrícolas.



O solstício de verão no hemisfério Sul em 22 de dezembro, marca o dia mais longo do ano, a partir do qual vai declinando até atingir seu menor fotoperíodo seis meses depois, no solstício de inverno, no próximo 20 de junho de 2024, quando se inicia o inverno em nosso hemisfério.


O início do verão representa o ápice do período favorável para a aplicação de herbicidas foliares nas pastagens visando o controle das plantas daninhas, uma vez que estas se encontram em pleno vigor vegetativo, apresentando maior susceptibilidade aos herbicidas, comparativamente a outras épocas do ano. Maior susceptibilidade das plantas aos herbicidas também explicada pela máxima hidratação da planta, decorrente do período chuvoso na maior parte do Brasil, com alta umidade relativa do ar e temperaturas que favorecem a tecnologia de aplicação. Exceção: algumas regiões do Nordeste brasileiro.


Estas condições favoráveis serão observadas até os próximos dois a três meses, até março aproximadamente, como janela de aplicação foliar, que teve início após o pleno restabelecimento das chuvas, que correram entre outubro e novembro, dependendo da região, principalmente pelos efeitos observados devido ao fenômeno “El Niño”, que está marcando forte presença nesta estação.


O que são plantas lenhosas ou pragas duras?

Ao longo dos mais de quatro anos que publicamos artigos neste importante veículo de informação, tivemos a oportunidade de comentar sobre as diferentes susceptibilidades que as plantas daninhas das pastagens apresentam.


Mas, relembrando a escala crescente de dificuldade de controle das plantas daninhas encontradas nas pastagens: herbáceas, semiarbustivas, arbustivas lenhosas e arbóreas, ou lenhosas. Nos extremos quanto a susceptibilidade aos herbicidas, das plantas mais fáceis para as de mais difícil controle, temos as chamamos de plantas moles e plantas duras. Mais popularmente no campo faz-se até referência a pragas moles e duras, porém o vocábulo praga é mais relacionado a insetos e nem tanto a plantas daninhas, mas enfim, apenas o comentário para conhecimento.


Esses termos populares mole ou dura são oportunos com relação à dificuldade encontrada para controlar determinada planta, predominantemente referindo-se à modalidade de aplicação foliar. Isso porque as chamadas plantas moles são controladas por uma ampla gama de tratamentos, normalmente de baixo custo, ao passo que as plantas consideradas duras representam um grande desafio para os herbicidas, normalmente com investimentos mais significativos, e nem sempre se obtendo os resultados esperados de controle. Neste caso, um grande desafio para quem os recomendam.


As plantas duras, ou de difícil controle foliar, na verdade não são necessariamente arbóreas, ou que viram árvore se nada for feito, como a pimenta-de-macaco (Xilopia aromatica), o camboatá (Tapirira guianensis), muito frequente no cerrado sul mato-grossense; a canela-de-velho ou faveira (Cenostigma macrophyllum), a cagaita (Eugenia dysenterica) e a cumbuquinha (Mezilaurus crassiramea), encontrados em Mato Grosso e Goiás. Ocorrem também espécies de hábito arbustivo, que não passam de 2 a 3 metros de altura, de controle igualmente difícil como a ciganinha (Memora peregrina em São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, e Memora nodosa no Mato Grosso), a Duguetia furfuracea, conhecida como araticum-miúdo ou pinha no Mato Grosso do Sul e sofre-do-rim-quem-quer no Mato Grosso; ou ainda alguns cipós como: cipó-mucunã (Dioclea grandiflora) que ocorre em Tocantins, Maranhão e Pará, e o cipó-prata (Mascagnia pubiflora) que ocorre do Paraná ao Mato Grosso.


Estas plantas duras dificilmente são controladas por herbicidas na modalidade de aplicação foliar em área total, com trator ou aeronaves, mas podem ser controladas na modalidade de aplicação localizada, planta a planta. Não necessariamente se exige a utilização de pulverizador costal, podendo também ser tratorizado, desde que provido de mangueiras e lanças aplicadoras operadas por pessoas, realizando o molhamento da calda até o chamado ponto de escorrimento.


Herbicidas para o controle das pragas duras

Por razões que fogem ao objetivo deste veículo, aqui não são mencionadas marcas comerciais, até por existirem diversos fornecedores e fabricantes com formulações similares ou equivalentes, na verdade, na maioria das vezes, um mesmo fabricante, em função de estratégias comerciais específicas, dispõe ao mercado produtos similares com diferentes marcas, assim, haverá referência apenas aos princípios ativos constituintes das formulações, atendendo plenamente aos anseios dos leitores com a informação que desejamos passar, foco deste artigo. Uma rápida busca na “rede” traz todas as opções que o pecuarista pode encontrar no mercado sobre determinada formulação, além de nosso livro, com referência no final do texto, que também traz todas as marcas comerciais e do que são compostas.


Alguns tratamentos de aplicação foliar em área total podem promover um bom controle de um grupo de plantas duras, como: cagaita, cumbuquinha, aromita (Acacia farnesiana); algumas espécies de pata-de-vaca (Bauhinia sp), chegando até a chumbinho (Lantana camara), lacre (Vismia guianensis) e cipó-mucunã. Quando mencionamos bom controle, estamos nos referindo a níveis da ordem de 70%, por vezes 60% de controle. Lembremo-nos que são plantas que até pouco tempo atrás, só poderiam ser controladas via toco e basal.


Esses tratamentos são necessariamente potentes, em altas doses de formulações contendo, por exemplo: Aminopiralide + Picloram + Fluroxipir (50+100+100 gae/l), ou Picloram + Fluroxipir + Triclopir (80+80+240 gae/l), em referência a formulações prontas, ou então compondo misturas de tanque, que são um pouco mais complexas e melindrosas e, neste caso, um grande número de combinações são possíveis, mas nos restringiremos a dois exemplos que julgamos serem bastante indicados, como:


- Picloram + Fluroxipir (80+80 gae/l) + Triclopir (480 gae/l), normalmente em proporções de produtos de 2:1, respectivamente, e;


- Fluroxipir + Triclopir (80+240 gae/l) + Picloram (240 gae/l), na proporção de produtos de 3:1; respectivamente.


Uma formulação clássica no mercado de pastagens é composta por Picloram + 2,4-D (64+240 gae/l). Esse produto isolado não controla esse grupo de plantas, nem mesmo usando altas doses (5,0 a 6,0 L/ha). Se misturado com Triclopir (480 gae/l), em proporções que variam de 2,3:1 a 4:1, respectivamente, eleva-se o potencial de controle, mas ainda assim, na maioria dos casos de pragas duras, são insuficientes.


Mais recentemente se tem observado que a adição de Metsulfuron (600 gae/kg) tem melhorado a performance de tratamentos em algumas plantas herbáceas de mais difícil controle, como guaxuma-branca (Sida glaziovii) e malva-relógio (Sida acuta cv carpinifolia) e até algumas lenhosas, como lacre. No caso da presença de outra herbácea, mas de muito difícil controle, a vassourinha-de-botão, ou botão-do-ênio (Spermacoce verticilatta) essa adição é praticamente obrigatória.


Não fazemos aqui indicações de doses de produtos ou misturas, apenas a indicação das proporções que devem ser obedecidas entre os diferentes ingredientes ativos e, nisso há sólido fundamento científico e fruto de aprendizados de longa data no dia a dia do campo.


Recomendações genéricas de doses, de produtos ou misturas, são sempre condenáveis e, em particular, desaprovo veementemente, uma vez que cada caso é específico, cada local é diferente, cada composição de espécies é singular, o histórico de roçadas, relevo, solo e clima, são únicos em cada local, sendo reprovável do ponto de vista técnico uma receita de bolos generalista, que o pecuarista poderia imaginar que se aplicaria a todas as condições, nosso objetivo aqui é mostrar algumas opções possíveis, que deverão ser avalizadas e recomendadas por técnicos responsáveis pelas aplicações, até porque a legislação brasileira exige o fornecimento de um receituário agronômico para a aquisição de qualquer agroquímico, não fugindo desta regra as pastagens.


Plantas ainda mais duras

Um outro grupo de plantas duras de controle ainda mais difícil apenas desfolham e voltam a vegetar posteriormente, mesmo diante dos tratamentos mais potentes hoje conhecidos se aplicados em área total. Neste caso, a alternativa é a aplicação localizada, planta a planta, como mencionado anteriormente. Essa modalidade de aplicação leva uma quantidade maior de produtos para cada planta individualmente, quantidade que seria inviável, tanto técnica como economicamente, de ser aplicada em área total. Neste grupo de plantas encontramos araticum-miúdo, camboatá, marolo (Annona coriacea) e limãozinho (Strychnos pseudoquina), entre outras. Os produtos, ou misturas, a serem direcionados para estas espécies podem ser os mesmos mencionados anteriormente para aplicação em área total, apenas que devem ser aplicados, como especificado, planta a planta, até ponto de escorrimento da calda, cobrindo toda a vegetação da planta.


Nas aplicações localizadas a recomendação de produtos deve ser feita em % volume/volume (% v/v), ou em litros (l), ou gramas (g), de produto por 100l de calda, tratando-se de produtos líquidos ou sólidos, respectivamente. Assim, as recomendações podem ser encontradas nas bulas dos produtos, referindo-se a, por exemplo: 2,0% de produto para o controle de determinada espécie, que é o mesmo que 2,0l de produto por 100l de calda, neste caso seriam 2,0l de produto mais 98l de água.


Do ponto de vista prático, como são muito utilizados no campo aplicadores costais com 20l de capacidade, ou uma bomba, o pecuarista e o aplicador muitas vezes utilizam essa unidade de medida: x mL/bomba. Como 20l é 1/5 de 100l, basta ter a recomendação técnica fornecida em % v/v, ou em l/100l, e dividir por 5, no exemplo presente, de 2,0% v/v, ou 2,0l/100l, equivale a 0,4l/bomba de 20l, ou 400ml/bomba de 20l.


O extremo da dureza

No limite da tolerância de plantas aos herbicidas chegamos a um grupo de plantas que nem mesmo na modalidade de aplicação foliar localizada, a mais efetiva, mostram susceptibilidade. Estamos falando de espécies como ciganinha, sambaíba ou lixeira (Curatella americana), cipó-quatro-quinas (Amphilophium paniculatum), pixirica (Clidemia sp) e algodão-de-seda (Calotropis procera), entre outras.


Neste grupo de plantas de extrema dureza as únicas formas de controle são através da aplicação de Picloram (240 gae/l) em água, no toco imediatamente após o corte, ou de Triclopir (480 gae/l) diluído em diesel, ou outro solvente orgânico, aplicado basal no tronco sem corte. As vantagens destas modalidades de aplicação é que são realmente efetivas; podem ser aplicadas em qualquer época do ano, sob quaisquer condições meteorológicas e independentemente do estádio fenológico que a planta se encontre.


Em contrapartida apresentam o inconveniente de serem lentas, de baixo rendimento operacional, dependentes de muita mão de obra treinada, tornando-se um investimento de significativo impacto financeiro. No caso ainda da aplicação basal, agrega-se o custo do veículo diluente: óleo diesel, ou óleos minerais ou vegetais.


Uso de adjuvantes e tecnologia de aplicação

Em relação a aplicação foliar de herbicidas, seja em área total ou localizado planta a planta, como aqui o direcionamento é para plantas de difícil controle, mais do que nunca devem ser observadas todas as precauções no uso das boas práticas de tecnologia de aplicação, como: observância das condições climáticas (vento, temperatura, umidade relativa do ar, chuvas após aplicação), estádio fenológico da planta (predominantemente vegetativo, pré-florescimento); adequadas condições do equipamento aplicador, com bicos adequados, peneiras limpas e água de boa qualidade para diluição da calda.


Em complemento, o uso de adjuvantes, principalmente os que proporcionam função aditiva ou penetrante, como óleos minerais e vegetais, devem ser adicionados à calda herbicida para promoverem um melhor molhamento, distribuição e penetração dos produtos pela cutícula da folha, que é uma camada de células compostas fundamentalmente por ceras, que representa a barreira que os vegetais possuem para proteção do órgão de atividade fotossintética com o ambiente, agindo por conseguinte no impedimento de penetração de agentes externos, no caso o herbicida. As plantas de difícil controle, assim o são, justamente por possuírem estruturas extras de defesa, como alta cerosidade, por vezes pilosidade na folha; cascas grossas nos caules, e sistemas radiculares extremamente robustos e eficientes. Faz-se necessário que o herbicida aplicado penetre o máximo possível na planta e se transloque até os pontos efetivos de ação, onde alterarão seu metabolismo, levando a planta à morte.


Uma última recomendação para aplicação foliar de herbicidas em pastagem refere-se à qualidade da água usada para produção da calda, principalmente em relação ao seu pH: acidez ou alcalinidade. Caso o pH da água esteja acima de 6,0-6,5, ou já na faixa alcalina, recomenda-se o uso de um condicionador de calda acidificante, que abaixe o pH da calda final a níveis ácidos a levemente ácidos, abaixo ou em torno de 4,0. Isso porque a penetração dos herbicidas nas folhas é facilitada nestas condições.


Mais informações

No livro “Plantas daninhas em pastagens: biologia, manejo e controle”, que lançamos no final de 2021, discutimos de forma detalhada o tema dos herbicidas, plantas daninhas e suas interações com a pecuária, através de linguagem técnica, mas aplicada à realidade prática da fazenda. Sugerimos a consulta em nosso site: www.ntcconsultagro.com.br para maiores informações e aquisição da obra.



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