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Scot Consultoria

A relação de troca entre boi gordo e bezerro e a pressão sobre o invernista


Terça-feira, 19 de março de 2019 - 05h55

por Breno de Lima

Zootecnista, formado pela Universidade Estadual Paulista - UNESP, Câmpus de Jaboticabal-SP. É analista de mercado da Scot Consultoria. Editor-chefe do Relatório de Terras, publicação da Scot Consultoria. Coordena a divisão de mercado de bovinos para reposição e de custos de produção. Pesquisador de mercado nas áreas de boi, leite e grãos. Ministra aulas, palestras, cursos e treinamentos nas áreas de mercado do boi, grãos e assuntos relacionados à agropecuária em geral.


Foto: Scot Consultoria


Vamos voltar no tempo, para o final do século passado, mais precisamente para o ano 2000. 


Naquela época a Netflix entregava DVD’S pelo correio, nas viagens era comum o uso de mapas impressos, já que o Google Maps estava longe de ser lançado, e o celular com tela colorida ainda era novidade. Ah, e não posso esquecer de citar a cotação da arroba do boi gordo, que nominalmente era negociada em São Paulo por R$40,00.


Pois é, muita coisa mudou nestes quase vinte anos, mas uma coisa que não saiu de moda foi a expressão: “Antigamente era mais fácil ganhar dinheiro com a pecuária”.


Essa expressão que já era antiga naquela época, será que realmente faz sentido?


De fato, quando analisamos o comportamento histórico da receita do invernista (dinheiro ganho na venda do boi gordo) frente aos seus custos de produção, é evidente o achatamento da margem ao longo dos anos, uma vez que a cotação da arroba do boi gordo subiu em menor proporção que os custos de produção e raramente supera a inflação.

Figura 1. Evolução dos custos de produção, cotações do boi gordo, bezerro e inflação (IGP-DI).   Base 100.

Fonte: Scot Consultoria – www.scotconsultoria.com.br


O preço do bezerro, item que corresponde por cerca de 60% dos custos totais em um sistema de recria e engorda, desde 2000 subiu mais do que o preço do boi gordo. 


Tomando como base São Paulo, em valores reais, ou seja, já descontando a inflação, de janeiro de 2000 até hoje a cotação da arroba do bezerro subiu 17,9%, enquanto que no mesmo período a cotação da arroba do boi gordo caiu 4,6%. 


A relação de troca entre boi gordo e bezerro aumentou e, consequentemente, diminuiu o poder de compra do invernista. Isso não é exclusividade de São Paulo, quando analisamos todas as praças do Centro-Sul, a realidade é a mesma.


Figura 2. Quantidade de arrobas de boi gordo necessárias para a compra de um bezerro de desmama, anelorado com 6@.

Fonte: Scot Consultoria – www.scotconsultoria.com.br


Em 2000 vendia-se aproximadamente 6@ de boi gordo para a compra de um bezerro com 6@, uma proporção próxima a 1:1. 


Hoje o cenário é diferente, na média dessas regiões nos últimos 19 anos a quantidade de arrobas de boi gordo necessárias para compra um bezerro de desmama subiu duas arrobas. É o mesmo que dizer que a cada três bezerros comprados o invernista deixou de comprar um.


E quando voltamos um pouco mais no tempo e analisamos essa relação de troca, os números são ainda mais duros com o comprador. 


Figura 3. Arrobas de boi gordo necessárias para a compra de um bezerro de doze meses, em São Paulo, e médias em cada década (linhas).

Fonte: Scot Consultoria – www.scotconsultoria.com.br


Nas últimas quatro décadas a relação de troca subiu 60% saindo de 5,3 para 8,6 arrobas, em São Paulo.
O invernista que vendia uma boiada gorda de 100 cabeças, pesando 18 arrobas cada, na década de 80 conseguia comprar 340 bezerros. Na década atual, com a venda do mesmo lote compra-se 209 bezerros, uma diferença de 131 bezerros.


Conclusões


Vale destacar que a pressão sobre as margens, apesar de dificultar, não impede o invernista de obter lucro na atividade.


A evolução na pecuária ao longo dos anos trouxe novas tecnologias e aprimorou as existentes, sendo assim os sistemas de criação que antes eram extrativistas deram espaço para sistemas intensificados. 


A tendência é que a relação de troca seja cada vez mais “apertada” para o invernista, uma vez que o mercado precifica os custos de produção através dos sistemas mais tecnificados e rentáveis, aumentando assim a competitividade do negócio.


Negar a intensificação do sistema e ficar fora da “pecuária moderna” será a diferença entre os que continuarão na atividade.


 


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