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Scot Consultoria

Manejando o pastejo - Parte 2


Quinta-feira, 20 de setembro de 2018 - 05h55

Zootecnista, professor de Forragicultura e Nutrição Animal no curso de Agronomia e de Forragicultura e de Pastagens e Plantas Forrageiras no curso de Zootecnia das Faculdades Associadas de Uberaba (FAZU); Consultor Associado da CONSUPEC - Consultoria e Planejamento Pecuário Ltda; investidor nas atividades de pecuária de corte e de leite.


Foto: Scot Consultoria


Dando sequência à série de artigos sobre produção animal em pasto especificamente sobre o tema “manejando o pastejo” nesta edição trataremos das respostas de plantas forrageiras e de animais pastejando em pastagens manejadas pelo método de pastoreio [1 e 1.1] de lotação continua [2].


1. Introdução. Os trabalhos desenvolvidos nos países de clima temperado foram em pastagens de capim-azevém perene que é a planta forrageira mais estudada sobre aspectos da sua morfologia, fisiologia, processos determinantes de produção, desempenho animal, relação entre as suas características estruturais e comportamento ingestivo de animais em pastejo. Seguindo este objetivo instituições brasileiras iniciaram linhas de pesquisa cujo enfoque básico era compreender as respostas funcionais de plantas forrageiras tropicais e subtropicais através da avaliação e conhecimento de suas características morfológicas e fisiológicas. 


Os protocolos e procedimentos experimentais análogos àqueles utilizados para o capim-azevém perene foram devidamente adaptados e utilizados, de forma a permitir a geração de um banco de dados diretamente comparável com aquele existente.


2. Respostas de plantas forrageiras em pastejo de lotação continua:


Os resultados revelaram padrões dinâmicos de acúmulo de forragem, muito semelhantes àquele descrito originalmente para capim-azevém perene, variando apenas o valor absoluto das taxas dos processos observados (crescimento, senescência [3] e acúmulo).


Para o Cynodon os resultados revelaram uma amplitude de condições de relvado [4] de 10 a 20cm, nas quais, as taxas de acúmulo foram relativamente constantes e máximas e para o capim-braquiarão equilíbrio semelhante ocorreu em relvados mantidos entre 20 e 40cm (FIG. 1).


Figura 1.
Dinâmica do acúmulo de forragem em pastos de Cynodon sp. (Tifton 85, Florakirk e Coastcross) e capim-braquiarão mantidos em condições de equilíbrio dinâmico (alturas de dossel forrageiro de 5, 10, 15 e 20cm para Cynodon sp. e 10, 20, 30 e 40cm para capim-braquiarão) por meio de lotação contínua e taxa de lotação. Variável com ovinos (Cynodon sp) e bovinos (capim-braquiarão) durante o período de dezembro de 1998 a fevereiro de 1999 (Cynodon sp) e em janeiro de 2002 (capim-braquiarão).
Fonte: PINTO, 2000; SBRISSIA, 2004.


Dentro da amplitude de 10 a 20 cm de altura, para Cynodon, e de 20 a 40 cm de altura, para o capim-braquiarão, a produção de forragem praticamente não variou, entretanto, nas alturas de 5 cm, para Cynodon e 10 cm para capim-braquiarão, houve aumento na população de plantas invasoras, diminuição das reservas orgânicas da planta e menor estabilidade no processo de perfilhamento, indicando serem estas condições estressantes e insustentáveis para as plantas, levando a pastagem ao avanço no processo de sua degradação.


3. Respostas de animais em pastejo de lotação continua:


Em pastagens de capim-azevém perene as respostas de animais em pastejo em termos de consumo de forragem e desempenho animal foram descritas e correlacionadas com variações em estrutura de relvado, sendo que, de forma geral o consumo e o desempenho aumentam com aumentos em altura do relvado, a massa de forragem, o resíduo pós-pastejo ou a oferta de forragem (SILVA; CORSI, 2003). Estudos com plantas forrageiras de clima tropical e subtropical têm indicado um padrão semelhante de resposta dos animais em pastejo.


Entretanto, Silva (2009) enfatizou que a amplitude de condições de pasto para desempenho agronômico adequado das plantas forrageiras é maior que a amplitude correspondente para o desempenho dos animais em pastejo. Para o capim-braquiarão o pastejo foi realizado por bovinos, em crescimento, com valores ótimos de consumo e desempenho acima de 30 cm de altura, condição de relvado que está dentro da faixa de 20 a 40cm de altura para a produção eficiente de forragem para a planta forrageira (tabela 1).


Tabela 1.
Valor nutritivo de amostra de pastejo simulado e ganho de peso de novilhas mantidas em pasto de capim-marandu com quatro alturas de pastejo durante o verão.
PB = Proteína Bruta; FDN = Fibra em Detergente Neutro; FDA = Fibra em Detergente Ácido; DIVMO = Digestibilidade “In Vitro” da Matéria Orgânica; CMS (% do PC) = Consumo de Matéria Seca em porcentagem do peso corporal; GMD = Ganho Médio Diário
Fonte: REIS, 2009 (adaptado de Andrade, 2003).


Dos resultados expostos na tabela 1 pode-se inferir que o valor nutritivo não é o limitante quando em condição de baixa oferta de forragem (altura do relvado de 10 cm) e sim o consumo de forragem pelos animais. Observa-se que há tendência de redução do valor nutritivo com o acréscimo na altura do relvado, entretanto, o desempenho animal respondeu de forma inversa, com aumento no ganho de peso em resposta à elevação da altura de pastejo,


Sendo assim, as diferenças em desempenho animal são consequência basicamente da quantidade de forragem ingerida, uma vez que a diferença em valor nutritivo é pequena, fato que acentua a importância de conhecer e compreender como se dá o consumo de forragem pelos animais em pastejo e como ele é afetado pelas praticas de manejo utilizada (SILVA, 2009).


Na tabela 2 estão sumarizados dados relativos às taxas de lotação e a produtividade por área em resposta às quatro condições de manejo do pastoreio neste experimento, dadas pelas diferentes alturas do relvado.


Tabela 2.
Ganho médio diário (GMD), taxa de lotação (TL) e produtividade por área com bovinos em pastos de capim-braquiarão submetidos a diferentes condições de pasto.
Fonte: ANDRADE, 2003.


Houve decréscimo no ganho de peso e aumento na taxa de lotação com redução na altura do pasto. Euclides (2009) inferiu que a capacidade de suporte estaria dentro das condições de alturas entre 30 e 40 cm. Se o objetivo for maximizar o desempenho por animal, a altura de 40 cm deveria ser a buscada, enquanto que na altura de 30 cm o desempenho por animal seria menor com produtividade por área semelhante, apesar de possibilitar maior eficiência de uso da forragem produzida.


É interessante enfatizar que apesar da redução na taxa de lotação de 5,4 para 2,3 cabeças/ha, ou seja, uma redução de 57%, a produtividade de carne por hectare aumentou de 263 kg para 570


kg de PV, um aumento de 2,16 vezes, ou 116%, resultado que pode parecer um paradoxo para a maioria dos que trabalham em sistemas de pastejo, que focam bastante em simplesmente aumentar a taxa de lotação, inclusive o INCRA com seus índices mínimos de produtividade. Este resultado se deveu ao aumento no GMD de 0,19kg/dia para 0,93kg/dia, um aumento de 4,89 vezes ou 389%.


Estes resultados abrem novas perspectivas de ganhos significativos na produção e na produtividade das pastagens sem investimentos e aumentos de custos adicionais.


Na próxima edição, na parte 3 deste artigo serão apresentadas as respostas de plantas forrageiras e de bovinos leiteiros em pastoreio de lotação intermitente (lotação alternada e lotação rotacionada).


[1] Método de pastoreio: é apenas o procedimento ou técnica de manejo do pastoreio, idealizado para atingir objetivos específicos. Referente à estratégia de desfolha e colheita de forragem pelos animais.


[1.1] Pastoreio: refere-se à ação antrópica (do homem) de condução do processo de pastejo (CARVALHO et al. 2009b).


[2] Lotação continua: um lote de animais pastejando um piquete;


[3] Senescência: envelhecimento


[4] Estrutura do relvado ou do pasto: É a forma como a forragem é apresentada ao animal (SILVA, 2009), e pode ser caracterizada pelas variáveis massa de forragem, altura, densidade dos horizontes, cobertura de solo, relação folha:colmo, distribuição espacial (CARVALHO et al. 2009b). A estrutura do pasto afeta a profundidade e a área do bocado, afetando o consumo de forragem (SILVA, 2009).


[5] Taxa de lotação variável: usa-se a técnica do “put and take” (põe e retira animais do piquete) para manter a condição de pasto desejada.





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