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Scot Consultoria

O que temos para aprender com o sistema australiano de produção?


Terça-feira, 31 de julho de 2018 - 16h00

por Thamires Fernandes

Engenheira agrônoma, formada pela Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" - ESALQ, da Universidade de São Paulo.


Foto: Scot Consultoria


Características da produção


Segundo o Departamento de Agricultura Água e Recursos Naturais da Austrália a bovinocultura de corte é uma parte importante da economia rural. Da área agricultável, 75% está destinada à pecuária de corte, sendo o Norte e o Sul do país as principais regiões produtoras.


As propriedades do Norte da Austrália são geralmente maiores e mais especializadas e, ao longo dos anos, conseguiram margens relativamente melhores comparadas às fazendas do sul. Além disso, a região sul sofre mais com variações climáticas e é mais sensível a seca, o que acarreta em maiores gastos com alimentação animal nas fazendas dessa região.


Os resultados do Agribenchamark 2017 mostraram que as propriedades modais australianas são consideradas de baixo custo de produção e as rentabilidades das fazendas tendem a ser positivas no curto prazo, contudo, no longo prazo, apenas quatro de nove fazendas modais foram consideradas rentáveis. Comparando como as fazendas modais brasileiras, o custo de produção também é considerado baixo, porém nenhuma fazenda teve rentabilidade positiva, no logo prazo.


De acordo com a MLA, Carne e Pecuária da Austrália, responsável pela propaganda, pesquisa e desenvolvimento da carne vermelha e indústria pecuária, aproximadamente, 2/3 dos sistemas de produção na Austrália é a base de pasto com inclusão de grãos na dieta antes do abate. O restante das propriedades adota um sistema de produção com nutrição animal baseada, principalmente, em grãos, em que comumente são utilizados trigo, cevada, sorgo e triticale combinados com tremoço ou ervilhas, caroço de algodão ou canola e silagem ou feno.


As exportações de carne bovina originárias de sistemas de produção com dieta animal a base de grãos tem sido impulsionada pelos mercados japonês e coreano.  


Exportações


O mercado de carne australiano é mais dependente do mercado internacional em comparação com o Brasil. Segundo os dados do USDA, Departamento de Agricultura do Estados Unidos, a Austrália produziu, aproximadamente, 2,15 milhões de toneladas de carne bovina e é o sétimo país na produção mundial da carne, atrás dos Estados Unidos, Brasil, União Europeia, China, Índia e Argentina.  Em relação a exportação, o país passa para a terceira posição, com 1,48 milhões de toneladas de carne exportada, atrás do Brasil e da Índia, em sequência.


As exportações australianas representaram, em 2017, 69% da produção nacional, enquanto no Brasil, 19% da produção de carne bovina foi destinada as exportações. A produção australiana de carne, de 2007 para 2017, diminuiu 1%, já a quantidade exportada aumentou, aproximadamente, 6%.


De acordo com a base de dados do MLA, os países que mais aumentaram a demanda por carne australiana foram, em sequência, China, Arábia Saudita e Filipinas. Contudo, o Japão, os EUA e a Coréia do Sul são os principais importadores de carne bovina australiana, representando 29%, 23% e 15% do volume de carne bovina exportada, respectivamente.


Na Austrália, o valor do quilo da carne bovina exportada teve uma valorização de 22% nos últimos 10 anos, conforme o MLA. Em 2017, o valor médio da carne exportada foi de 7,44 dólares australianos por quilo. No Brasil, esse valor foi de 4,20 dólares por quilo, de carne bovina refrigerada, fresca ou congelada, o que equivale a 5,68 dólares australianos por quilo. A Austrália conseguiu agregar um valor 31% maior no quilo da carne exportada em relação ao Brasil, no último ano.


Figura 1
Valores da carne exportada corrigidos para o primeiro semestre de 2018, na Austrália, em A$/kg.
Fonte:  MLA e Australian Bureau of Statistics / Elaboração: Scot Consultoria – www.scotconsultoria.com.br


Programas de certificação e melhoramento


A forte dependência do mercado externo estimula a Austrália a agregar valor na sua produção e a ganhar mercados mais exigentes em relação a qualidade da carne. Com isso, a MLA tem um papel importante, sendo responsável pelo marketing do setor pecuário, relacionando a carne australiana a carne de qualidade.


O uso de certificados reconhecidos internacionalmente é uma forma de diferenciar seu produto que, no caso, é a carne bovina commodity.


Um exemplo é a criação do MSA, Padrão de Carne Australiana. É um programa de certificação amplamente adotado na Austrália com reconhecimento internacional, criado em 1999. Cada carcaça tem a data de produção, peso e número individual que permite a rastreabilidade ao longo da cadeia. Para apurar a qualidade da carne são feitos os seguintes testes:


·  Altura do dorso do animal (local onde estaria o cupim nas raças zebuínas). Essa medida está ligada com a interferência de raças tropicais que podem diminuir a qualidade da carne.


·  Área de olho de lombo, relacionado com o rendimento de carcaça.  


·  Comprimento do músculo longo dorsal para analisar a maturidade óssea. Quanto maior essa maturidade menor a maciez da carne.


· Marmoreio, quantidade e distribuição da gordura intramuscular que tem efeito direto no sabor da carne.


· Análise da cor da carne.


· Análise da cor da gordura.


· Quantidade de gordura subcutânea.


· PH, valores maiores que 5,71 diminuem a qualidade da carne em relação a maciez e textura. 


A carcaça deve ser aprovada em todos os testes para receber a certificação e os resultados são compartilhados com o produtor.


Outro ponto de destaque é o investimento em raça e genética. A MLA investe 5 milhões de dólares australianos em pesquisa e desenvolvimento de genética animal visando agregar valor em toda a cadeia da carne vermelha australiana, de bovinos, caprinos e ovinos.


Na cadeia bovina os investimentos vão para o Breedplan, um sistema moderno de avaliação genética que oferece potencial para acelerar o progresso genético e fornecer informações objetivas, desenvolvido pela Animal Genétics and Breeding, originária da parceria entre a Universidade da Nova Inglaterra e o departamento de Indústrias Primárias de Nova Gales do Sul.


Por Fim


A pecuária de corte brasileira é caraterizada por sistemas de produção pouco intensivo, a base de pasto e sem investimentos em genética animal. A união da cadeia de produção de carne bovina com a elaboração de projetos que objetivam agregar valor em todos os elos é uma lição que a pecuária de corte australiana pode deixar para o Brasil, como é o caso de programas de certificação e genética e da própria intensificação da produção. O incentivo entre parcerias envolvendo o setor público, privado e acadêmico pode impulsionar o maior número de pesquisas relacionadas a genética, produtividade, bem-estar animal e sistemas de produção, visando acelerar o desenvolvimento da pecuária nacional.


Revisão bibliográfica


ABARES. Australian Bureau of Agricultural and Resource Economics and Sciences. Disponível em:. Acesso em: 19/07/2018.


Agri benchmark. Global agri benchmark network results 2017. Disponível em:. Acesso em: 20/07/2018.


Comex Stat. Disponível em:. Acesso em: 20/07/2018.


Breedingplan. Disponível em:. Acesso em: 20/07/2018.


MLA. Meat and Livestok Australia. Disponível em:. Acesso: 19/07/2018.


M.LA. Meat and Livestok Australia. Statistics Database. Disponível em:. Acesso: 19/07/2018.


USDA. United States Department of Agriculture. Foreign Agricultural Service. Disponível em:. Acesso: 20/07/2018.







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