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Scot Consultoria

Aumentam as demandas por bem-estar animal


Sexta-feira, 14 de setembro de 2012 - 12h12

Formado em Engenharia Química Industrial com MBA em Administração pela Fundace- USP. Possui experiência de 16 anos no setor, em empresas como Wal-Mart Brasil, Bertin e JBS-Friboi. Hoje, atua como consultor internacional no segmento de alimentos.


Há um tempo falei um pouco sobre o bem- estar animal. Gostaria de resgatar o tema, pois nos Estados Unidos algumas mudanças puxadas pelos varejistas, que são a voz do consumidor nas ruas, começam a dar curso em um cenário para os próximos anos sobre o tema.


Há pouco tempo, os maiores varejistas norte-americanos focaram na proteína suína, no que diz respeito às baias de gestação de matrizes, onde estas ficam imóveis para geração das crias. Redes como Kroger, Safeway, Kmart e, mais recentemente, Costco, determinaram aos seus fornecedores de suínos que não mais aceitarão carne que provenha de animais manejados dessa forma. Dependendo de cada rede, o limite para adequação dos fornecedores pode variar de 2017 até 2022. Em recente carta endereçada aos seus fornecedores de suínos e à Sociedade Humanitária Americana (HSUS), o vice-presidente executivo de produtos da Costco, Doug Schutt, escreve: "Todos nós, na Costco, levamos o tema do bem-estar animal a sério e consideramos imperativo o manejo animal de forma humanitária".


Não somente os varejistas, mas também outros segmentos estabeleceram, neste ano, critérios muito parecidos, levando o tema do bem-estar animal bastante a sério. Redes de fast food como Burger King, McDonalds, Wendys, Carls Jr, entre outras menos expressivas, bem como empresas globais importantes de food service - Sodexo e Compass Group, sendo esta última atuante em mais de 10 mil escolas, universidades, empresas, hospitais, centros para idosos, parques esportivos, entre outros estabelecimentos, provendo serviços de alimentação -, também tomaram essa decisão corporativa a pedido dos seus clientes e instituições que atendem. Algumas indústrias, que compram matéria-prima suína para fazer seus produtos industrializados, partiram também para garantir a imagem de suas principais marcas no mercado americano, tais como Heinz e Kraft Foods, tendo como principal plataforma a sua marca Oscar Mayer.


Assim como escrevi na edição de junho sobre o LFBT (carne magra, fina e texturizada), um gatilho foi disparado, no caso do LFBT, pela imprensa e pelo chef Jamie Oliver. Já o disparo no exemplo dos suínos partiu de grupos ligados à defesa dos animais, como o Mercy for Animals. Em visita a um confinamento de suínos, fornecedor da rede de varejo Costco, a entidade divulgou um vídeo na internet no qual mostra o tratamento dado aos animais em sua gestação em baias onde não podem se movimentar.


No âmbito bovino, também existem discussões a respeito sobre o manejo nos confinamentos, no transporte de animais e nas plantas de abate, bem como nos rituais de abate religiosos como o kosher e o halal, que não insensibilizam os animais previamente à degola e podem expor estes animais ao estresse e sofrimento. No entanto, as leis judaica e muçulmana carregam, desde os seus ancestrais, princípios de bem-estar animal nos quais, por exemplo, a lei judaica proíbe o consumo de membros de animais vivos, além da proibição de abater a mãe e suas crias no mesmo dia. Alguns muçulmanos permitem uma insensibilização prévia por concussão, desde que esta não penetre o corpo do animal. Insensibilização elétrica em bovinos e caprinos é aplicada na Nova Zelândia, que proíbe o abate halal sem insensibilização prévia, e esta técnica também começa a se espalhar pela Austrália. Proibir o abate religioso em nome do bem-estar animal seria uma afronta aos seguidores destas religiões; e privá-los de uma proteína importante como a bovina é impensável.


A discussão sobre como tratar melhor os animais que nos alimentarão e a pressão cada vez maior da sociedade, em busca de mais alimentos a um preço possível de ser consumido, abrem as portas para se pensar em novas formas de manejo e produção de proteína animal. Uma tendência já foi evidenciada pelo consumidor desde a década passada, que é a de consumir produtos obtidos da forma mais natural possível. Produções orgânicas vêm crescendo e também aumenta o incentivo de consumir produtos produzidos localmente pelo apelo do frescor, do custo do transporte, da perda e do impacto nos gases do efeito estufa, porém, por outro lado, como fazer isso em escala global a fim de alimentar um mundo em expansão, onde a necessidade de alimentos dobrará até 2050, segundo a FAO [Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação]?


Essas mudanças para atender às necessidades do bem-estar animal, inicialmente, sempre impactam em custos maiores, e isto pode ser usado para elevar preços. Mas o bem-estar animal, como disse no artigo passado, também contribui para melhores rendimentos, maior vida útil de prateleira, consumidores menos resistentes ao consumo, mais vendas e, possivelmente, melhores lucros. Essa pode ser a chave do sucesso para melhorar essa relação entre criação, manejo dos animais, consumidores.


Revista Nacional da Carne. Agosto de 2012



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