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Emissões de carbono na pecuária e o impacto do confinamento na pegada de carbono

Queda das emissões em 2024 e peso da fermentação entérica evidenciam como o confinamento reduz a intensidade de carbono na pecuária.


Foto: Freepik

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Em 2024, as emissões brutas de gases do efeito estufa do Brasil totalizaram 2,14 bilhões de toneladas de gás carbônico equivalente (GtCO₂e), valor 16,7% menor que o registrado em 2023 (2,58 GtCO₂e). Segunda maior queda anual desde 1990 e da maior desde 2009, quando o recuo foi de 17,2%.

No setor agropecuário, as emissões fecharam 2024 em 626,0 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (MtCO₂e), redução de 0,7% em relação a 2023, ano em que foram de 630,6 MtCO₂e. A fermentação entérica respondeu por 64,5% da emissão, com 404,0 MtCO₂e, das quais 391,8 MtCO₂e (97,0%) são atribuídas exclusivamente aos bovinos.

Figura 1.
Participação das emissões anuais de carbono equivalente da fermentação entérica de bovinos nas emissões totais da agropecuária, entre 2012 e 2024.Fonte: SEEG / Elaboração Scot Consultoria

SEEG = Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa

A redução acentuada em 2024 decorreu de dois fatores combinados, queda de 0,2% no efetivo bovino, estimado pelo IBGE em 238,2 milhões de cabeças, impulsionada pelo recorde de abates no ano e aumento da participação dos confinamentos.

Ambos os vetores apontam para a mesma direção – maior produção de carne por cabeça em menor tempo, com menor emissão acumulada por animal.

Figura 2.
Comparativo entre a emissão anuais total de carbono equivalente da fermentação entérica de bovinos e a emissão por bovino, de 2012 a 2024.Fonte: SEEG / Elaboração Scot Consultoria.

A diferença de emissão entre um bovino criado extensivamente em pasto e outro terminado em confinamento com dieta de alto concentrado não é pequena. O modelo Tier 2 do IPCC traz que, animais em pastejo perdem, em média, 6,5% da energia bruta ingerida na forma de metano, sendo 1 kg CH₄ (metano) = 28 kg CO₂e (AR5*), enquanto animais em confinamento com dieta com grãos perdem, em média, 3,0%.

* AR5 → fator de conversão do metano baseado no 5o. Relatório do IPCC (AR5)

Por unidade de energia consumida, o bovino em pasto gera quantidade de metano quase duas vezes maior. A razão é bioquímica, gramíneas ricas em fibras estruturais de alta lignificação favorecem a via fermentativa acética no rúmen, na qual as arqueas metanogênicas ** encontram o hidrogênio livre necessário para produzir CH₄.

** As arqueas metanogênicas residem principalmente no rúmen e nos segmentos inferiores do intestino de ruminantes, onde utilizam os equivalentes redutores derivados da fermentação ruminal para reduzir dióxido de carbono, ácido fórmico ou metilaminas a metano (CH₄).

Já no confinamento, a dieta rica em amido direciona a fermentação para a via propiônica, em que o propionato consome o hidrogênio disponível antes das arqueas, inibindo diretamente a produção de metano. O mesmo rúmen e a mesma microbiota, mas o substrato determina o resultado.

Além disso, o tempo até o abate de um bovino confinado gira em torno de 110 dias, reduzindo assim as emissões que um bovino em pasto teria ao longo do período adicional necessário até o abate.

A projeção do SEEG para 2025 aponta emissões agropecuárias de 640,4 MtCO₂e, valor 2,3% maior que o de 2024. Esse número contrasta com as reduções registradas nos dois anos anteriores e reflete o crescimento da atividade pecuária ao longo do ano – confinamento em expansão, abate total de 42,9 milhões de cabeças, como já observado.

Figura 3.
Estimativa do número de bovinos confinados no Brasil (2019-2026*).
Fonte: Scot Consultoria.
* Estimativa

O desafio de 2026 em diante é escalar essa lógica para o sistema extensivo, que concentra a maioria do rebanho nacional. Pastagem bem manejada, suplementação estratégica no cocho, melhoramento genético com foco em precocidade e eficiência alimentar, e redução da idade ao abate são as alavancas disponíveis.

Referências:

Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC). Guidelines for national greenhouse gas inventories. In The National Greenhouse Gas Inventories Programme, Intergovernmental Panel on Climate Change (ed. Eggleston H, Buendia L, Miwa K, Ngara T and Tanabe K), pp. 10.1–10.87. IGES, Hayama, Japan, 2026

Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), disponível em: https://seeg.eco.br/, 2026.

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