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Scot Consultoria

O mundo ainda é capaz de se alimentar?


Segunda-feira, 5 de setembro de 2011 - 09h25

Peter Brabeck-Letmathe está contando calorias. Mas não é de uma dieta que o ex-presidente da uma grande companhia alimentícia está se referindo. É sobre a quantidade de alimentos que Estados Unidos e Europa estão convertendo em energia enquanto a população mundial mais pobre fica mais faminta. Brabeck-Letmathe possui extensa experiencia na intersecção alimentação-política-desenvolvimento. Passou quase 20 anos gerenciando unidades alimentícias na America Latina. Políticos não entendem que entre, o mercado alimentício e o energético, existe uma ligação muito próxima. A energia contida numa tonelada de milho pode ser usada para abastecer carros ou alimentar pessoas. E, graças aos subsídios americanos ao etanol e incetivos europeus aos biocombustíveis, culturas que antes se destinavam a alimentação animal e humana agora se destinam à produção de combustíveis. Estimativas recentes do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos mostram que, em 2011, pela primeira vez, a produção de milho será maior para o etanol do que para a alimentação. Ao redor do mundo, cerca de 18% do açúcar vai para a produção de biocombustíveis. Cinco décadas atrás, quando a população mundial era metade do número atual, já haviam avisos sobre grandes ondas de fome e falta de comida no futuro. Hoje, com quase sete bilhões de pessoas, produz-se tanta comida que uma quantidade crescente tem sido convertida em biocombustíveis. A vantagem de se produzir algo é vender pelo melhor preço. Quando há aumento de demanda consequentemente há aumento nos preços pagos ao produtor. E neste caso, os preços pagos ao produtor pela indústria do biodiesel se mostram mais competitivos. Este cenário é mais expressivo no Ocidente. Se o preço do cereal para o café da manhã aumenta num país desenvolvido porque mais milho tem sido utilizado para a produção de biocombustíveis, é momentaneamente revoltante, mas logo as pessoas se adaptam. Mas se o preço do milho dobrar num país em desenvolvimento, onde as pessoas gastam quase 80% da renda com alimentação, milhões de pessoas irão morrer de fome. O aumento exorbitante do preço dos alimentos, por exemplo, foi um dos fatores que desencadeou a Primavera Árabe. Existe uma grande diferença sobre como os países desenvolvidos lidam com esta crise iminete e a realidade para milhões de pessoas, que ainda estão em pobreza extrema devido a aplicação de políticas equivocadas. Observa-se a loucura por biocombustíveis, que se iniciou por causa dos suprimentos de petróleo, necessidade de independência energética, aquecimento global e, ironicamente, a estabilidade política no Oriente Médio. Especialmente na Europa, aliado a tudo isso, ainda há o medo das lavouras geneticamente modificadas. Esta recusa em se aplicar tecnologia disponível na agricultura tem freado o aumento potencial de produtividade. Ainda há o fator demográfico. Em décadas recentes, houve a criação de mais de um bilhão de novos consumidores com poder de aquisição, que saíram da pobreza extrema para o que se chama de classe média moderada. Isso devido ao crescimento econômico em países como China e Índia. Dados da Organização das Nações Unidas Para Agricultura e Alimentação (FAO, sigla em inglês) em cooperação com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD, sigla em inglês) estimam um crescimento de 1,5% ao ano no consumo global de carne bovina até 2020. Para os países em desenvolvimento, o crescimento estimado é de 2,0% ao ano. Nos próximos anos, o mundo demandará mais alimentos, principalmente carne. E a demanda por carne multiplica o efeito por dez. Necessita-se dez vezes mais terras, água e energia para produzir um quilo de carne do que seria necessário para produzir um quilo de vegetais. Ainda assim, pode-se atender esta demanda crescente, se a escolha for essa. Se os políticos quisessem determinar uma política alimentar eficiente, haveria apenas uma decisão a se tomar: não empregar alimentos para produzir biocombustíveis. A oferta e a demanda entrariam assim em equilibrio. Quando políticos dizem querer abastecer 20% da produção de biocombustíveis com alimentos, isso significa triplicar a produção dos mesmos para que se possa atender esse objetivo. Ainda que fosse possível triplicar a produção de alimentos, não seria possível sem a utilização de lavouras transgênicas e a diminuição da produção orgânica, novo padrão de pureza e segurança alimentar. Não é possível alimentar a população mundial com produção orgânica, a produtividade é visivelmente mais baixa. Observando os países que utilizam organismos geneticamente modificados, verifica-se que a produção por hectare destas lavouras aumentou em 30% nos últimos anos enquanto que a produtividade das lavouras comuns permaneceu no mesmo patamar ou está ligeiramente em queda. É uma decisão política. Uma coisa é a bem alimentada Europa optar por não utilizar lavouras transgênicas em seu território. Outra coisa que não condiz são as políticas européias proibirem países pobres, como os do continente africano, de utilizar sementes modificadas. Estes países precisam urgentemente da tecnologia para aumentar a produtividade e rendimento em sua agricultura já atrasada. Mas se eles uitilizarem sementes transgênicas, a Europa não permitirá a exportação. Não apenas o produto mofificado, mas absolutamente nenhum produto agrícola será exportado por causa do medo europeu da contaminação cruzada e seus padrões de pureza quase impossíveis de se atingir. O medo europeu dos organismos transgênicos é puramente emocional. A questão de ordem prática que deve se fazer é quantas pessoas morreram de contaminação alimentar por produtos convencionais ou orgânicos e quantas morreram por produtos transgênicos. Recentemente, a mídia não noticiou nenhuma morte por consumo de transgênicos. Ao contrário, no começo do ano se observou um surto de E. Coli na Europa, causado por vegetais de produção convencional, não-transgênica. A questão da utilização de organismos geneticamente modificados para a alimentação humana não é de hoje. Ainda não foram registrados casos de dano à saúde oriundos do consumo direto de transgênicos. Alguns pesquisadores pontuam a possibilidade de danos posteriores, devido ao consumo regular. Essa possibilidade ainda é desconhecida. No Brasil, o uso de alimentos transgênicos foi regulamentado pela Lei de Biossegurança em 2005. Em 2010, o Brasil foi o segundo maior produtor de lavouras transgênicas do mundo. A uso da água é outro ponto de preocupação. 98% da água fresca é utilizada anualmente para agricultura e indústria. O uso agroindustrial soma-se ao desperdício. Se nada for feito também neste sentido, em breve existirão problemas de várias ordens por causa de água. A resposta para a diminuição da água disponível está focada no suprimento. Constrói-se um canal que desloca a água de um lugar a outro e resolve-se o problema momentaneamente. Mas o problema central está na demanda e o melhor regulador da demanda são os preços. Comparativamente, se a extração de óleo se tornar escassa, os preços sobem. Mas para a água, não há custo porque a mesma não possui valor. Não haveria uma política de biocombustíveis se fosse dado valor para a água. São necessários por volta de nove litros de água pra se produzir um litro de biodiesel. Isso só é possível porque a água não tem valor algum. As forças de mercado deveriam ser capazes de atuar sobre os 98% da água fresca disponível consumidos pela agroindústria. Onde existem forças de mercado, existem investimentos. Projeta-se que a população mundial será de nove bilhões em 2050. Poderemos alimentar todas estas pessoas? De acordo com Brabeck-Letmathe, isto é possível, assim como fornecer água e combustíveis a todos. Mas apenas se deixarmos o mercado fazer seu papel. O papel do mercado, nesta discussão, virtualmente seria o atendimento da demanda pela oferta de forma igualitária, priorizando-se a alimentação humana ante a produção de biocombustíveis. Fonte: Jornal The Wall Street. Por Brian Carney. 3 de setembro de 2011.
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