• Quarta-feira, 8 de abril de 2026
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Scot Consultoria

Geopolítica, exportações e ciclo do boi elevam tom estratégico no segundo dia da Scot

Especialistas apontam impactos globais no agro, força da carne bovina brasileira e reforçam o ciclo pecuário como base das decisões.


A manhã do segundo dia do Encontro de Confinamento e Recriadores da Scot Consultoria foi marcada por análises profundas sobre cenário econômico, geopolítica e mercado de carne bovina, com forte ênfase na leitura estratégica do setor e no papel do Brasil no abastecimento global.

A economista Priscila Pacheco, do Bradesco, abriu o bloco destacando o ambiente de incertezas no início de 2026. “A gente começa um ano que já vinha sendo desafiador, ele se inicia no final de fevereiro com um conflito, uma guerra que traz preocupações e essa guerra tem impacto direto no agronegócio”, afirmou.

Segundo ela, os reflexos passam tanto pela demanda quanto pelo custo de produção. “Há impacto via aumento de insumos por conta do estreito de Ormuz e riscos inflacionários no mundo e aqui no Brasil”, disse.

Ao mesmo tempo, a economista destacou um fator positivo para a economia nacional. “Hoje o Brasil é um grande exportador de petróleo e isso tem impacto positivo, porque a gente exporta mais e traz mais receitas de exportação”, afirmou.

Ainda assim, o cenário fiscal preocupa. “Com as regras atuais, estamos chegando próximos a 100% de dívida/PIB até o final dessa década”, alertou. “Os patamares estão elevados não só no Brasil, mas globalmente, e o nosso problema parece ser maior que o de países semelhantes.”

Conflito global pressiona economia e decisões no Brasil

Na sequência, o analista da CNN Brasil, Caio Junqueira, aprofundou o impacto do conflito no Oriente Médio. “Passados esses 40 dias de conflito, o Irã do ponto de vista estratégico sai vitorioso”, afirmou.

Segundo ele, houve falhas na condução da estratégia americana. “Os Estados Unidos não atingiram seus objetivos políticos iniciais e saem em um contexto pior, com um presidente fragilizado interna e externamente”, disse.

Junqueira destacou ainda os efeitos persistentes no cenário econômico. “Esse cessar-fogo ainda gera instabilidade econômica e não será uma negociação fácil”, afirmou.

No Brasil, o impacto também é político e estrutural. “Tudo que nos interessaria está jogado para 2027, as grandes reformas estão sendo adiadas”, disse. “Vai depender de quem vencer as eleições, se haverá uma agenda reformista ou não.”

Exportações impulsionam pecuária brasileira, mas China preocupa

O presidente da ABIEC, Roberto Perosa, apresentou dados que evidenciam o avanço da pecuária brasileira no cenário global. “A ABIEC representa 98% das exportações de carne bovina do Brasil, o que nos dá capacidade de analisar e prever movimentos do mercado”, afirmou.

Segundo ele, os números reforçam a força do setor. “O Brasil produziu 12,3 milhões de toneladas equivalentes carcaça e exportou 4,53 milhões, cerca de 36,8% da produção”, disse.

A presença global também chama atenção. “Exportamos para 177 países, com mais de 10.700 contêineres por mês, o equivalente a 6,7 toneladas por minuto”, destacou.

Perosa reforçou o crescimento recente. “Saímos de 2,2 milhões de toneladas exportadas em 2022 para 3,5 milhões, um crescimento muito grande”, afirmou.

Nos primeiros meses de 2026, o ritmo segue forte. “Nos três primeiros meses exportamos US$ 4,3 bilhões e 801 mil toneladas, com crescimento de 34% em valor e 18% em volume”, disse.

Apesar do cenário positivo, há alertas relevantes. “A grande preocupação da indústria é a questão da cota chinesa, que pode reduzir o consumo em cerca de 35%”, afirmou.

Ainda assim, o executivo manteve o tom otimista. “O setor continua forte, puljante e com aumento da demanda global por carne bovina”, disse. “40% do crescimento da produção mundial está baseado no que o Brasil pode fazer.”

Ele reforçou a necessidade de estratégia. “Precisamos jogar esse jogo com racionalidade, baseados em números, entendendo as limitações e buscando diversificação de mercados e aumento de produtividade.”

Ciclo pecuário segue como base das decisões de mercado

Encerrando a manhã, Alcides Torres e Juliana Pila, da Scot Consultoria, reforçaram a importância do ciclo pecuário na formação de preços e no planejamento das propriedades.

“O ciclo do boi gordo se repete. Quando o preço do bezerro sobe, há retenção de fêmeas e isso reduz a oferta de animais terminados, elevando o preço da arroba”, explicou Juliana.

Ela destacou que esse movimento não é imediato, mas estrutural. “Depois, com maior oferta de bezerros, os preços caem, desestimulando a cria e aumentando a oferta de animais para abate”, afirmou.

Alcides trouxe a leitura do momento atual. “A cotação do bezerro, do garrote e do boi magro subiu porque a oferta diminuiu”, disse. “Entendendo o ciclo, você entende cerca de 95% do mercado.”

Juliana também projetou o curto prazo. “A gente acredita em uma correção de preços da arroba entre maio e julho, mas não nos mesmos patamares de anos anteriores”, afirmou.

Alcides reforçou a importância da informação no cenário atual. “Hoje o preço muda todos os dias, a informação é muito mais importante do que há 30 anos”, disse.

Para ele, o ciclo continua sendo o principal guia. “O ciclo ainda é determinante. Se eu compreendo o ciclo, consigo fazer um bom planejamento estratégico da fazenda”, afirmou.

Juliana concluiu destacando que, apesar das incertezas externas, a lógica produtiva permanece. “O ano típico na pecuária é sempre um ano atípico, mas o ciclo continua acontecendo independente dos fatores externos.”

A manhã do segundo dia evidenciou que, em um cenário global instável e altamente competitivo, informação, estratégia e gestão seguem como pilares para o avanço da pecuária brasileira.

Matéria originalmente publicada em: Geopolítica, exportações e ciclo do boi elevam tom estratégico no segundo dia da Scot

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