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Scot Consultoria

De volta à Berlinda


Quinta-feira, 17 de julho de 2008 - 10h32

Parmalat – Com as ações em queda livre, a Laep teme perder o controle da empresa Três anos depois de escapar da falência, em meio a um escândalo empresarial que teve origem na Itália e desaguou no Brasil, a Parmalat atravessa mais um momento de indefinição quanto ao seu destino no País. O fundo Latin America Equity Partners (Laep) assumiu as operações locais em junho de 2006, com ambiciosos planos de recuperação e expansão, a partir de recursos de investidores. Mas a desvalorização das ações da empresa, de mais de 70% em relação ao preço na abertura do capital, em outubro último, pôs em xeque a estrutura montada para financiar os negócios, com base na abertura de uma holding no exterior. Os controladores da companhia se vêem, agora, diante de um dilema: precisam captar mais dinheiro, alegam, porém, que, ao emitir ações na Bovespa, correriam o risco de perder o comando da empresa. O quebra-cabeça que os donos da Parmalat têm diante de si vem do advento, no Brasil, de regras em favor da transparência nos negócios e da defesa dos acionistas minoritários. O Novo Mercado da Bovespa, onde está listada a maioria das companhias que abriram o capital nos últimos anos, exige que todas as ações dêem aos portadores os mesmos direitos de opinar sobre os rumos do negócio. Por esse motivo, alguns grupos nacionais optaram por vender papéis em bolsas de países que permitem classes diferentes de acionistas. Assim, podem manter as rédeas do negócio, mesmo sem possuir a maior fatia do capital societário. Os títulos emitidos lá fora são negociados na Bovespa na forma de BDRs (documentos que equivalem à posse efetiva das ações). Foi esse o rumo tomado pela Laep Investments, controladora da Parmalat Brasil, que escolheu a Bolsa de Luxemburgo para realizar o IPO (sigla em inglês para oferta pública inicial de ações). “A grande vantagem do BDR é poder companhia sem ter o controle matemático dela. A Parmalat requer capital intensivo. A idéia era não ficar só naquela emissão, mas quando voltássemos ao mercado nossa participação iria cair abaixo dos 53% originais”, explicou o presidente da Laep, Marcus Elias, em teleconferência com um grupo de analistas e investidores internacionais, na terça-feira, dia 8. Quando montou a operação, Elias não contava com um escândalo que viria a envolver uma empresa que adotou a mesma estratégia: a Agrenco. Em 20 de junho, a Polícia Federal prendeu executivos da companhia do setor agrícola, acusados de crimes contra o sistema financeiro. A operação deu o alerta para o fato de que empresas constituídas em paraísos fiscais não escapam apenas das regras do Novo Mercado. Deixam também de ser fiscalizadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que, mesmo com limitações na atuação, é o xerife chamado a dar alguma segurança ao acionista contra fraudes nas administrações. Foi o alerta para os investidores fugirem das ações negociadas na forma de BDRs. Para os papéis da Laep, o “efeito Agrenco” foi quase um tiro de misericórdia. Ocorreu no mesmo período em que o mercado virou, segundo o jargão dos operadores da bolsa. As companhias que mais aproveitaram os bons ventos do mercado em 2007 para venderem ações acumularam perdas. A indústria do leite enfrenta um momento difícil, com dificuldades para repassar ao varejo a alta de 30% nos preço aos produtores. Esse conjunto de fatores explica a perda de valor dos BDRs da controladora da Parmalat, negociados sob a sugestiva sigla MILK11 no pregão da Bovespa. Elias tampouco esperava o empurrãozinho, na beira do abismo, de um relatório do UBS Pactual, o mesmo banco que estruturou a abertura de capital do fundo, com a estratégia de BDRs. No documento, divulgado em 1º de julho, os analistas Guilherme Arruda e Jander Medeiros reduziram de 11,50 reais para 4 reais o preço—alvo da ação da Laep daqui a um ano. Apenas nove meses antes, quando fez o IPO, o banco tentou vender o mesmo papel por 15,50 reais, mas só conseguiu 7 reais. A justificativa, então, foi o escândalo das cooperativas de leite, que adulteravam a qualidade do produto vendido à indústria. Depois de ler o relatório do UBS, Elias decidiu convocar a teleconferência da terça-feira, dia 8. Durante 48 minutos, limitou-se a dar explicações sobre o mercado leiteiro. Em resposta a uma última pergunta, o empresário comentou os problemas enfrentados na bolsa. E deixou no ar a interrogação quanto ao futuro da companhia. “Temos ouvido que o mercado está muito antipático com relação à estrutura de BDRs, e a gente não está insensível”, afirmou. “Eventualmente, podemos unificar as ações. Qual é o malefício disso? É que, numa próxima emissão, poderemos perder o controle. E quem poderá comprá-los? Qualquer um.” O relatório do UBS apontava que o destino dos recursos de abertura de capital não foi o prometido pelo no prospecto da oferta. A Laep iria destinar 60% dos 477 milhões de reais captados no IPO para as atividades da Integralat, empresa criada para integrar a cadeia de produtores de leite. Mas a maior parte do dinheiro foi direcionada para capital de giro, investimentos e aquisição, como a compra da marca Poços de Caldas, em abril. Os analistas do banco reduziram a previsão de margem operacional da empresa de 10% para -0,4%. Ou seja, acreditam que a Parmalat terá prejuízo na atividade principal. Ficaram de fora do relatório os eventuais ganhos trazidos pelas aquisições, bem como o fato de a Integralat estar em busca de um parceiro societário e com financiamento do BNDES. A aparente contradição entre as opiniões dos profissionais do mesmo grupo financeiro é aceita graças a um instrumento que o mercado apelidou de Chinese Wall. Trata-se de uma espécie de barreira virtual entre áreas com interesses conflitantes dentro da organização. Quando um banco conduz um IPO, o sucesso depende de se convencer os investidores a pagar o preço mais alto pela ação. Do lado da análise, os profissionais se esforçam para apontar os riscos da atividade que possam comprometer as aplicações dos clientes. Na relação com a Laep, o UBS Pactual também fez as vezes de formador de mercado – é responsável por estimular os negócios com ações do fundo. “Evitar o conflito de interesses no mercado de capitais é um desafio em todos os países, mas o Brasil dispõe de bons instrumentos nesse sentido”, diz o professor da Fundação Getúlio Vargas e sócio da Metrika Consultoria, Euchério Lerner. Ela acredita que a queda de valor da Parmalat Brasil não é incompatível com a mudança de cenário ocorrida no mercado de capitais, depois da crise das hipotecas nos EUA, que afugentou investidores estrangeiros. O peso da subjetividade das avaliações de mercado sobre as cotações da Laep, em detrimento da atividade propriamente dita, é destacado pelo analista Maurício Palma Nogueira, da Scot Consultoria, especializada em agronegócio. “A indústria de leite está, de fato, em uma situação delicada, pressionada entre o produtor e o varejo. Mas a marca Parmalat mostrou que não perdeu valor. Continua a custar 10% mais que as concorrentes na embalagem longa vida”, diz o consultor. “Em relação ao setor, até que a companhia está em boa situação.” Para a professora da Unicamp Maryse Fahri, os grandes bancos internacionais importaram para o Brasil o mesmo modelo que gerou crises como a quebra das empresas de Internet, na virada do século. “Quando eles (os bancos) começaram a jogar muito para cima os preços nas aberturas de capital, quem tem juízo fica de fora”, diz a economista. Ela também questiona o alerta da Laep, com relação ao risco de perda de comando da Parmalat ba Bovespa. “Ainda não há notícia, no Brasil, de tomada de controle hostil de uma companhia aberta”, recorda Maryse. Para ela, o aparente temor pode revelar a resistência do grupo em rever a estratégia inicial e se submeter às regras do mercado brasileiro. A professora lembra que a Cosan, do ramo sucroalcooleiro, perdeu valor quando decidiu transferir as negociações para a bolsa de Nova York, no ano passado. Um dos objetivos era dar às ações do controlador, Rubens Ometto, um peso maior que o das demais. No caso da Parmalat, um nome forçosamente associado ao escândalo de desvio de dinheiro na Itália, a transparência das operações deveria ser a maior preocupação dos controladores. Fonte: Carta Capital. Lances e Apostas. Por André Siqueira. 16 de julho de 2008.
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