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Scot Consultoria

Sistema de rastreamento não atinge nem 10% do rebanho


Segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008 - 11h23

O jogo de interesses para a implantação da rastreabilidade na pecuária de corte brasileira pode ter sido um dos fatores que determinou o embargo da União Européia. A meta inicial, quando o sistema de rastreamento foi criado, em 2002, era atingir 100% do rebanho em 2007. Mas, não chega a 10%. Hoje, em Brasília, técnicos europeus começam a escolha das fazendas que podem se tornar aptas a exportar para o bloco. A partir da vistoria de 25 fazendas em seis estados brasileiros devem chegar a uma lista estimada em 300 propriedades. Poucas diante do universo de estabelecimentos que usam a rastreabilidade no Brasil. São 15,48 mil fazendas - sendo apenas 8 mil nos estados habilitados -, com 17,5 milhões de bovinos. A vistoria acaba dia 14 de março. "Como a gente não fez o que prometeu, começou a ter exigência especial", avalia o diretor da AgraFNP, José Vicente Ferraz. Segundo ele, quando o antigo Sistema Brasileiro de Identificação de Origem Bovina e Bubalina (Sisbov) foi criado - na gestão do atual presidente da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec), Marcus Vinicius Pratini de Moraes - tinha obrigações a serem cumpridas acima das exigidas pela União Européia. Na época, os europeus avisaram que a partir de 2005 só comprariam carne de animal que pudesse ter todo o seu caminho - do nascimento à morte - acompanhado. A Europa não determinou como seria a rastreabilidade. Cada país criou o seu sistema. "Para não perder negócio, prometeram mundos e fundos", acredita Alcides Torres, diretor da Scot Consultoria Agroeconômica. O governo brasileiro criou, então, o Sisbov, que teria adesão obrigatória até junho daquele ano para os exportadores para a União Européia e até 2007 para todo o Brasil. A idéia era que, no futuro, até a produção leiteira fosse rastreada. Começava ali uma quebra-de-braço entre governo, pecuaristas e frigoríficos. Comenta-se que entre os interesses em jogo estava a criação de um novo mercado: a da certificação. Na época, avaliava-se que movimentaria R$ 400 milhões. "O maior rebanho comercial do mundo põe um brinco em cada orelha. Isso viabiliza uma indústria", conclui Torres. Além das diversas mudanças nas normas, o sistema passou também, em 2005, para outra secretaria dentro do ministério (retornando no final do ano passado, pouco antes da crise estourar). "Havia pressão de alguns grupos para isso", diz o secretário de Agricultura do Estado de São Paulo, João Sampaio. Para o secretário-executivo da Associação das Empresas de Certificação e Rastreabilidade Agropecuária (Acerta), Paulo Hora, as mudanças foram feitas "de acordo com o que era mais viável de aplicar". Ele aponta também o problema da obrigatoriedade. "O Sisbov foi feito à revelia", diz Ferraz. Opinião semelhante tem o secretário de Agricultura de São Paulo. Segundo ele, a rastreabilidade não foi encarada como um desafio da cadeia produtiva, mas como uma obrigação do pecuarista. "Como quiseram empurrar de cima para baixo, não aconteceu. Não temos RG nem em todos brasileiros, imagina para o gado. Foi um erro de avaliação de quem negociou com a União Européia", diz Sampaio. O presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Corte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Antenor Nogueira, afirma que os pecuaristas nunca foram contra a rastreabilidade, mas contra a obrigatoriedade da adesão ao sistema. Por diversas vezes, desde a criação do Sisbov, o setor alegava que não tinha como arcar com os custos e que teria de receber mais pelo gado rastreado - o que, na prática, não ocorreu: pagava-se menos pelo boi não brincado e não um bônus pelo animal certificado. "Se encarar do ponto de vista de segurança alimentar, seria um bem. A rastreabilidade é uma tendência", afirma Ferraz. Mas, para Torres, qualquer que fosse o sistema, o embargo ia ocorrer. "Íamos passar por isso mesmo fazendo tudo certo porque os europeus estavam procurando ‘pulga em piolho’. Trata-se de um bloqueio branco", acredita. Segundo ele, uma lista de 300 fazendas não atende à demanda dos europeus. Portanto, na prática, continuará havendo um controle do volume de compras. Torres lembra ainda, que o embargo foi feito em um "bom momento": de escassez de oferta no mercado nacional, ou seja, que não traz conseqüências drásticas para o preço do gado, que continua nos patamares anteriores ao contencioso. Fonte: Gazeta Mercantil. Caderno C. Por: Neila Baldi. 25 de fevereiro de 2008.
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