A sucessão familiar no campo exige mais do que a transferência do patrimônio, envolvendo gestão, planejamento e alinhamento entre as diferentes gerações.
Foto: Bela Magrela
Empresas familiares carregam muito mais do que patrimônio. Ao longo das gerações, decisões sobre gestão, sucessão e investimentos também passam por relações, expectativas e diferentes visões sobre o futuro do negócio. Encontrar um equilíbrio entre esses fatores pode ser um dos principais desafios para garantir a continuidade da atividade.
No campo, essa realidade ganha ainda mais complexidade quando a propriedade atravessa gerações e novos herdeiros passam a assumir a gestão. Antes de decidir onde investir ou acelerar, é preciso entender o que existe de patrimônio, organizar as informações e estabelecer uma visão comum sobre os próximos passos.
Neste episódio da terceira temporada do podcast Pecuária Feita por Mulheres, Carolina Barreto conversa com Luiza Pezzoni (Fazenda Alpes), que compartilha sua experiência na sucessão da fazenda da família, os desafios de assumir a gestão e como o apoio da consultoria jurídica de Renata Pimenta (Originis Consultoria) contribuiu nesse processo.
Pecuária Feita por Mulheres: Quando você (Luiza) sentiu a necessidade de uma ajuda? Como que a consultoria e a Renata entraram na história?
Luiza Pezzoni: Eu sempre fui muito aberta a estudar porque eu sei que eu não sei de tudo. Como eu tive uma escola profissional totalmente diferente do agro, eu tive essa necessidade. Embora eu tenha bastante experiência em planejamento e gestão, eu senti falta de um conhecimento técnico e um olhar de fora, que eu acho que é muito importante no ramo. Principalmente quem está inserido em uma empresa familiar, em que ter uma visão de fora é essencial. Então, acho que eu já tinha esse desejo, vamos dizer. A Renata veio por uma indicação de uma amiga, que me falou que ela tinha bastante experiência com empresas familiares no agro. E eu senti uma conexão logo de cara e me trouxe muito mais segurança.
Renata Pimenta: A Luiza sempre teve um olhar claro sobre a gestão da fazenda. Diferente de outras famílias, ela se antecipou em assumir a gestão junto com outros herdeiros, não deixando para quando o “problema caísse no colo”.
Pecuária Feita por Mulheres: Renata, como foi o processo de realizar a consultoria em uma empresa familiar do agro com uma herdeira que queria fazer a diferença?
Renata Pimenta: Quando a gente chama de consultoria, acabamos reduzindo um pouco esse conceito. A chegada da Luiza foi um encontro muito feliz, tanto na nossa vida quanto na dela. Olhar no olho da Luiza, ver toda aquela paixão que ela tinha, tudo que ela queria fazer, tudo que ela queria que acontecesse e ver o que ela passou, principalmente os conflitos. Porque relações familiares não são fáceis, não é uma relação linear, muito pelo contrário, tem entrave e conflito. Tem o fator de ela ser neta, mulher... uma série de coisas. Então, ela precisa provar a própria capacidade, a vontade de fazer, de transformar e de cuidar do patrimônio. Portanto, nossa conexão foi na hora e de foi imediata.
Na consultoria, além de enxergar os números, olhamos para o invisível, ou seja, para as relações, e é preciso ter uma sensibilidade. Para que a fazenda prospere, a estrada e os caminhos foram feitos em conjunto. A partir das necessidades, das experiencias e das vivencias, foi traçado um objetivo. O decidir é solitário, mas ter alguém que já passou por isso, para dividir as experiências, uma pessoa que você possa ligar, eu acho que dá um conforto e uma segurança muito maior.
Pecuária Feita por Mulheres: Como foi organizar a fazenda? O que vocês deram mais atenção no primeiro momento?
Renata Pimenta: A primeira coisa foi se perguntar “o que temos?” A partir dessa pergunta, a Luiza começou [a trabalhar] com facilidade em algumas coisas e com muita dificuldade em outras para levantar qual era o cenário atual da fazenda. Diante disso e de números que ela conseguiu levantar com a ajuda de uma assessoria contábil, foi se decidindo onde investir, onde acelerar e onde tirar o pé.
Luiza Pezzoni: Eu acho que esse levantamento de dados é muito importante, porque assim que assumimos a gestão, estamos por fora do que acontece dentro da fazenda. Até então a gente não sabe que empresas estão sendo utilizadas, quais os processos legais etc. Então, fomos atrás de todo esse tipo de documentação, dos fornecedores, dos advogados, contadores, entre outros. A nossa primeira reunião “técnica” foi para entender o fluxo de caixa. Um dos pontos que a consultoria mais reforçou foi sobre o caixa, uma empresa sem caixa não tem como funcionar. Então, o primeiro passo foi fazer um fluxo de caixa, uma projeção e entender em que contexto nos encontramos. Após esse levantamento, entendendo o panorama familiar e a parte societária, foi partir para a prática. E, posteriormente, o que precisamos e como podemos melhorar esse fluxo de caixa para o futuro.
No episódio completo que está disponível no canal do YouTube da Scot Consultoria, elas falam mais sobre a Fazenda Alpes e destrincham o papel de uma consultoria especializada no processo sucessório. Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=9lOSZKu-PjY
Administradora de empresas, trabalhou durante anos em multinacionais do ramo esportivo e fashion. Sempre teve relação e paixão pela fazenda dos avós desde criança. Morava em São Paulo com o marido, se mudou para o exterior em 2019, e desde então começou a enxergar a fazenda como um negócio. Procurou as irmãs e os primos para discutir a sucessão. Porém, só foi assumir definitivamente em 2024, após ela e o marido renunciaram às empresas que trabalhavam e voltarem para o Brasil. Atualmente, ela é a quinta geração a administrar a Fazenda Alpes.
Especialista em Direito Empresarial, Governança e Relações Empresariais. Com mais de 25 anos de experiência em Direito Empresarial, desenvolveu uma atuação que integra visão jurídica, governança e leitura das relações que influenciam decisões empresariais.
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