Genética, manejo e escolha da forrageira precisam estar alinhados para transformar produtividade da pastagem em resultado econômico.
Foto: Arquivo pessoal
A escolha da forrageira tem um papel importante na produtividade do sistema. O potencial de cada material precisa estar alinhado às condições da propriedade, ao nível de intensificação e, principalmente, aos resultados e produtividade que o produtor pretende alcançar por hectare.
Com o avanço do melhoramento genético, as forrageiras híbridas têm ampliado as possibilidades de produção das pastagens, combinando maior produção de matéria seca e qualidade. No entanto, para que esse potencial se converta em ganho de peso e resultado econômico, questões como genética, fertilidade, manejo da pastagem e desempenho animal precisam caminhar juntos.
O engenheiro agrônomo e diretor da Duagro, Eloir Daltoé, comenta mais sobre o assunto nessa entrevista. Ele é um dos palestrantes confirmados para o Encontro de Intensificação e Pastagens, que acontece nos dias 23 e 24 de setembro, no Multiplan Hall do Ribeirão Shopping, em Ribeirão Preto-SP.
Na escolha de uma forrageira, quais características o produtor deve considerar para definir o material mais adequado ao objetivo do sistema de produção?
Eloir Daltoé: Quando conversamos com um produtor sobre forrageiras, para mim, a primeira pergunta não é qual capim ele quer plantar ou quanto pretende gastar em semente. A pergunta é: quanto ele pretende produzir e ganhar por hectare? Qual é o resultado esperado desse sistema?
A partir da resposta entra a técnica e o planejamento: lotação, nível de intensificação, fertilidade, ambiente, manejo e distribuição da produção ao longo do ano. Eu não acredito que exista uma forrageira perfeita, mas sim o material ou a composição forrageira mais adequada para cada sistema.
Panicum e braquiárias, por exemplo, podem ser complementares, e não me refiro a consórcio, mas às áreas individuais dentro das mesmas propriedades. O Panicum apresenta uma rebrota mais rápida e explosiva na primavera, respondendo fortemente ao aumento de luz e temperatura. A braquiária tem uma retomada mais gradual, porém apresenta grande estabilidade e rusticidade. No verão, ambos produzem muito bem, já na transição para o outono e inverno, o Panicum reduz mais acentuadamente sua atividade, inclusive florescendo mais cedo, enquanto a braquiária consegue manter folhas verdes e ativas por mais tempo.
As braquiárias também possuem um sistema radicular extremamente agressivo, com grande exploração do perfil do solo, o que contribui para a tolerância ao estresse hídrico e adaptação a diferentes ambientes. Já o Panicum, de maneira geral, apresenta maior exigência em fertilidade.
Por isso, não penso simplesmente em escolher entre Panicum ou braquiária. Penso em como combinar essas ferramentas para produzir mais, com qualidade e segurança ao longo do ano. Primeiro definimos onde queremos chegar, depois escolhemos genética e manejo para chegar até lá.
Quando uma forrageira híbrida é colocada lado a lado com uma tradicional, quais diferenças de desempenho podem se transformar em maior retorno para o produtor?
Eloir Daltoé: Quando comparamos uma forrageira híbrida com uma tradicional, precisamos olhar além da produção de massa. Nos ensaios de Valor Cultivo e Uso (VCU), alguns híbridos de braquiária, quando comparados com o capim-marandu, chegaram a produzir na ordem de 36,0% a 42,0% a mais, mesmo em condições de menor investimento e fertilidade. Isso nos leva a perguntar: se essa genética já mostra diferença em um ambiente mais restrito, o que pode entregar quando elevamos a régua de fertilidade e manejo?
Além da quantidade, temos a qualidade. Na nossa experiência, temos trabalhado com híbridos apresentando proteína bruta entre 16,0% e 20,0% e digestibilidade de 65,0% a 73,0%, com produção de 80 a 100 kg de carne/t de matéria seca (MS). Enquanto em braquiárias convencionais encontramos com maior frequência valores próximos de 12,0% de proteína e 55,0% a 60,0% de digestibilidade, com produção de 50 a 70kg de carne/t de MS, naturalmente variando conforme manejo, fertilidade e estágio da planta.
Então temos dois ganhos simultâneos: mais forragem por hectare e uma forragem de maior qualidade. Isso permite aumentar capacidade de suporte e, ao mesmo tempo, potencializar o desempenho individual dos animais.
Também temos observado híbridos com florescimento mais tardio, mantendo-se vegetativos e com folhas verdes por mais tempo no final do verão e outono, ampliando a janela de utilização da pastagem.
E existe uma questão econômica fundamental: muitas vezes a decisão começa pelo preço do quilo da semente. Mas estamos implantando uma pastagem que poderá permanecer cinco, seis, oito ou até dez anos na propriedade. Escolher uma genética de menor potencial pelo menor custo inicial pode significar conviver durante anos com um teto produtivo mais baixo.
Por isso, prefiro inverter a pergunta: não é quanto custa a semente, mas quanto queremos ganhar por hectare. Semente é custo de implantação e a genética é potencial produtivo para vários anos.
O melhoramento genético ampliou o potencial produtivo das forrageiras, mas quanto desse potencial depende do manejo adotado dentro da fazenda? E o quanto isso pode influenciar no ganho de peso dos bovinos?
Eloir Daltoé: Eu costumo dizer que a genética determina o potencial, mas o manejo define quanto desse potencial conseguimos expressar dentro da fazenda.
Não adianta termos uma forrageira com alto teto produtivo se não oferecermos condições para ela expressar essa capacidade. As condições incluem fertilidade do solo, adubação, nitrogênio, divisão de áreas, altura de entrada e saída, período de descanso e oferta de forragem.
Não basta produzir muita matéria seca, precisamos produzir forragem de qualidade e fazer com que o animal consiga colhê-la no momento correto. Uma pastagem jovem, com elevada proporção de folhas, boa proteína e digestibilidade, favorece o consumo e o desempenho animal.
Uma diferença aparentemente pequena no ganho médio diário pode se tornar enorme quando multiplicamos pelo número de bovinos por hectare e pelos dias de pastejo. É nesse momento que a intensificação começa a aparecer no resultado econômico.
Por isso, gosto de olhar para três fatores juntos: genética, manejo e animal. A genética entrega o potencial; o manejo transforma esse potencial em forragem disponível e de qualidade; e o animal transforma essa forragem em produto.
No final, o indicador mais importante não é somente toneladas de matéria seca por hectare, mas quantos quilos de carne e quanto resultado financeiro conseguimos produzir por hectare.
Com o Encontro de Intensificação e Pastagens se aproximando, o que podemos esperar da sua palestra?
Eloir Daltoé: A proposta da minha palestra é trazer para uma realidade prática os resultados dos híbridos de braquiária no Brasil, especialmente aquilo que estamos observando em maior volume no Sul.
Vamos apresentar dados de pesquisa e VCU, mas, principalmente, resultados e experiências de campo em propriedades com diferentes níveis de fertilidade, investimento e intensificação. Quero mostrar o que essa genética consegue entregar e como o manejo pode potencializar esses resultados.
Também quero provocar uma mudança na forma de avaliar pastagens. Durante muito tempo discutimos principalmente produtividade de matéria seca. Precisamos avançar para entender quanto dessa matéria seca vira produto animal e quanto desse produto se transforma em resultado financeiro por hectare.
Vamos falar de produtividade, qualidade nutricional, capacidade de suporte, comportamento das plantas ao longo das estações e casos de produtores que estão conseguindo aumentar sua produção sem necessariamente aumentar sua área.
A mensagem central é que intensificar não significa simplesmente colocar mais animais por hectare. Intensificar é utilizar melhor solo, genética, planta, manejo e animal para produzir mais resultado sobre a mesma área.
É essa experiência prática, com números, resultados e aprendizados de campo, que quero compartilhar no Encontro.
Participe do Encontro de Intensificação e Pastagens! Para garantir seu ingresso acesse o site: www.encontros.scotconsultoria.com.br
Engenheiro agrônomo, técnico em agropecuária e tecnólogo em Processos Gerenciais e Gestão do Agronegócio. É diretor da Duagro, empresa especializada em soluções forrageiras e sistemas de produção para a pecuária, com atuação voltada à intensificação de pastagens, planejamento forrageiro e pecuária de alto desempenho.
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