Um sistema circular pode ser mais rentável, principalmente quando o assunto é produzir o próprio fertilizante, acredita produtor rural.
Foto: Arquivo pessoal
Em um cenário de custos elevados, maior dependência de insumos externos e necessidade de produzir mais na mesma área, a integração entre agricultura e pecuária surge como uma estratégia para aumentar a eficiência dos sistemas produtivos. A experiência do Grupo MeC mostra como a conexão entre lavouras, plantas de cobertura, recria e terminação de bovinos pode transformar diferentes atividades em um único sistema, com maior aproveitamento dos recursos disponíveis na propriedade.
A adoção de práticas como ciclagem de nutrientes, compostagem de dejetos, produção de bioinsumos e melhor aproveitamento das áreas agrícolas reforça o conceito de economia circular dentro da fazenda, reduzindo dependências externas e agregando valor ao processo produtivo.
O engenheiro agrônomo, produtor e pecuarista, Willian Matté, é sócio do grupo que compõe a junção de quatro sucessores das famílias Matté e Cortez. O MeC é proprietário de uma marca de sementes de feijão (Prisma Sementes) e da marca Cortte 19, que produz carne premium para restaurantes de alto padrão, boutiques de carnes e consumidores finais de Brasília. Na fazenda, a prática comum há alguns anos é a integração lavoura-pecuária (ILP), em que fazem RIP e TIP.
Convidamos o pecuarista para contar um pouco dos seus resultados no Centro-Oeste brasileiro. Ele também é um dos palestrantes confirmados para o Encontro de Intensificação e Pastagens, que acontece nos dias 23 e 24 de setembro, em Ribeirão Preto-SP. Confira o bate-papo a seguir:
Primeiro, eu queria que você me contasse um pouco da sua história. Eu estava conversando com a Isabela aqui no escritório. Ela me disse que a sua história no agro é muito antiga, né? Desde pequenininho. Então, eu queria que você contasse um pouco sobre isso.
Willian Matté: Sim. Eu sou natural de Santa Catarina. A minha família migrou para o Centro-Oeste no ano 2000. Em 2012, me formei em agronomia. Mas sempre trabalhei dentro da propriedade com a minha família. Em 2019, nós formamos o grupo MeC, que é o grupo do qual eu faço parte hoje, do qual eu sou sócio. E o grupo MeC foi uma junção de negócios entre quatro sucessores da família Cortez e da família Matté. Nós trabalhamos principalmente com agricultura irrigada. Temos a pecuária em área de integração, áreas só de pecuária para produção de carne. Somos produtores de gado de corte. E criamos também uma marca de cortes de carne nobre, premium, em Brasília, que se chama Cortte 19. Ela tem principalmente restaurantes de alto nível da cidade, boutiques de carne e consumidores finais. Temos uma empresa que produz sementes de feijão, que se chama Prisma Sementes. Nessa, existe um outro sócio, que é o Afonso, ele cuida dessa empresa. Eu fico hoje mais na fazenda, cuido da parte de produção agrícola e da parte que envolve a fazenda também. Então, é mais ou menos por aí.
Como vocês desenvolvem a ILP dentro da propriedade de vocês e como que isso começou?
Willian Matté: A gente começou a entender um pouco o processo do ponto de vista agrícola, de fato, inicialmente, após entender quais as formas que essa integração poderia fazer bem para o sistema, o solo, a parte biológica e tudo mais. Nós começamos utilizando áreas irrigadas que fazíamos entre uma cultura comercial e outra. Então, começamos a utilizar os bovinos ali nessa integração. Depois, iniciamos o processo de uma terceira safra, nas áreas não irrigadas. Plantamos soja, milho e, no meio do milho, tem a integração com a braquiária. O gado passa nessa terceira safra, que seriam os meses de julho, agosto e setembro. Nesse exato momento, temos o gado pastejando nas áreas não irrigadas.
Então vocês vão rotacionando?
Willian Matté: Isso, vamos rotacionando. Inicialmente, a gente começou observando muito a questão agrícola. Hoje, também medimos a questão dos ganhos pecuários. A arroba da área de integração lavoura-pecuária (hoje) é a arroba mais barata que nós temos dentro da fazenda. Hoje, trabalhamos basicamente com novilhas F1 para terminação intensiva básica, ou seja, RIP e TIP. Nas áreas de integração lavoura-pecuária, utilizamos o sistema de ultradenso, que faz uma melhor distribuição dos dejetos na área. E também tem mais controle sobre o volume de matéria seca que a gente deixa pastejar. Portanto, medimos a matéria seca antes e depois da entrada do gado. Assim, ajustamos a velocidade de pastejo a partir disso. Nós precisamos deixar na área por volta de oito a dez toneladas de matéria seca depois que o gado passa. Se tratando de áreas não irrigadas, temos que nos preparar para uma situação climática que pode vir no próximo ciclo. Por isso, a presença da palha é importante. Ano passado, nas áreas de integração, a gente produziu 20 arrobas por hectare. E produzimos aproximadamente 12/13 toneladas de dejeto por hectare também. São mais ou menos esses os números que temos testado aqui.
Falando na parte de reutilização dos dejetos como fertilizantes, como começou essa ideia? E até vocês se tornarem autossuficientes, quanto tempo levou?
Willian Matté: Lá atrás, a gente tinha isso produzido em área de confinamento. Depois, começamos a medir o valor nutricional desses dejetos, ainda mais em um cenário com taxas de juros muito altas e instabilidade geopolítica. E isso influencia diretamente no custo. A partir desses fatores, fizemos uma leitura de como poderíamos melhorar a reutilização de nossos dejetos. Hoje, se tornou uma fonte de redução de custo. O gado acaba sendo uma biofábrica ambulante, um produtor vivo dentro do sistema de microorganismos que são positivos.
Para os sistemas de solo, então, por esses motivos, a gente entende que são coisas benéficas para o sistema, e essas foram algumas das questões que despertaram em nós a vontade e o interesse de fazer esse trabalho.
Você sabe dizer, em média, quanto reduziu de custos?
Willian Matté: Acredito que em torno de 30,0%, aproximadamente.
E os seus amigos e vizinhos produtores? Eles aderem a esse tipo de produção também?
Willian Matté: Não, o que acontece normalmente é que o pessoal não tem domínio da parte técnica desses sistemas integrados, porque é bastante intensivo. Então, eles acabam não aderindo pela questão da mão de obra, da parte técnica e da percepção de cada produtor.
Acredito que seja por isso que essa integração com a pecuária ainda não seja tão difundida aqui na nossa região. Falta oportunidade.
Para esse produtor que ainda enxerga a agricultura e a pecuária como atividades separadas, o que a experiência de vocês pode mostrar sobre o potencial da integração para melhorar a eficiência e o resultado econômico?
Willian Matté: A nossa região é uma região com muita expressividade na agricultura. Então, eu vejo que isso é uma situação até cultural, por assim dizer. O produtor, normalmente o agricultor, por muitas vezes, não abriu espaço para conhecer propriamente os resultados da pecuária. Acredito que esses sejam os fatores que influenciam nessa não expressividade dos projetos de integração na nossa região.
São fatores que eu acho que contribuíram para os agricultores não olharem com esses olhos na questão da pecuária. Aqui é uma área que tem muita irrigação e culturas diversas. E eu vejo que o produtor rural, de certa forma, está confortável pela diversificação que tinha.
Nós, como grupo, sempre tivemos a percepção de cuidar do sistema de forma cíclica, de ter conceitos circulares de economia dentro do negócio e de produzir o próprio fertilizante. Isso sempre foi um objetivo nosso. Então, talvez por isso, a gente tenha se deixado conhecer novas tecnologias. E os nossos familiares, de certa forma, sempre tiveram afinidade com a pecuária. Portanto, já conhecíamos as duas atividades, e isso facilitou. Acho que isso explica um pouco de porque os produtores da região talvez não tenham tanta participação nesse tipo de tecnologia.
Se você pudesse dar um conselho para agricultores e pecuaristas com base no que vocês têm implementado dentro da operação de vocês, qual seria?
Willian Matté: Olha, seria construir um sistema menos frágil, um sistema que não dependa de tantas questões externas, e sim, que seja mais autossuficiente, não só de fertilizante, mas na parte biológica. Não acreditar numa agropecuária de produto, mas sim numa agropecuária de sistema.
Um dos principais pilares para que isso possa rodar bem é o capricho, que me remete a pessoas qualificadas, senão as coisas não acontecem. Essas questões operacionais dificultam porque aumentam muito o trabalho, então eu acho que capricho é importante. Para finalizar, eu diria que visão a longo prazo. O agricultor não pode esperar retorno disso em pouquíssimos dias, ele tem que saber que isso vai acontecer ao longo de muitos anos e que não colhe resultado em 15 dias.
Qual é o ciclo que vocês fazem, considerando a recria, a terminação e a lavoura (o ciclo da ILP)? Como que funciona todo o processo, se você tivesse que descrever em etapas?
Willian Matté: A gente compra a bezerra, a F1 (só fêmea, por causa do projeto de qualidade que temos), na casa de 210kg, 240kg até 260kg. A gente faz a recria em áreas que a gente chama de áreas perenes, que são áreas de pastagem o ano inteiro. Em certa fase do ano, esses bovinos entram em áreas de irrigação, onde eu já colhi uma safra de verão e não plantei a safra de inverno, mas plantei plantas de cobertura. Então, essa recria passa dois ou três meses nas áreas de pivô que têm plantas de cobertura e depois voltam para a área de ILP, que é uma área onde eu já colhi soja no verão e plantei plantas de cobertura, porém não são áreas irrigadas. Então, elas vão passar ali mais dois ou três meses.
Ao final da seca, elas vão para as áreas de terceira safra de ILP, onde eu plantei soja, milho e capim. Então, o gado passa nessa terceira safra no final da época de seca. E, quando volta a chover, retorna para as áreas perenes de pastagem. Esse é o ciclo da pecuária de recria que fazemos.
Esses bovinos, ao atingirem os 400kg, sobem para um projeto de terminação que fica em áreas de pastagem com terminação intensiva. Então, eles vão ficar ali na TIP mais uns 90 dias e serão abatidos ao final desse período. Todos os bovinos entram e saem da propriedade com no máximo 12 meses. Começamos os abates do lote com 10 meses e a nossa meta é que todos os bovinos entrem e saiam da propriedade com, no máximo, 12 meses de permanência. O peso de saída fica acima de 550kg.
Hoje, nós temos uma escala semanal de abate, em todas as semanas do ano. Fornecemos para a nossa marca de cortes de qualidade e fornecemos para outros clientes que trabalham com produtos em linhas de cortes um pouco mais especializados.
E nesse processo que explicou, quando entra lavoura ou pastagem, você faz o processo de fertilização do solo com esses dejetos que vocês tratam para virar fertilizante?
Willian Matté: Exatamente. Após a passagem dos bovinos, eles próprios já depositam de 10 até 15 toneladas por hectare nas áreas de ILP, por conta do alto adensamento de animais. Então, já existe uma deposição natural dos dejetos e depois fazemos uma complementação, mas só quando necessário, dos dejetos processados e tratados das áreas de TIP, das áreas de confinamento ou de outras propriedades vizinhas que a gente acaba comprando também.
Quanto à questão da suplementação, nós dividimos em três partes. Nós temos o início de recria, que a gente faz uma suplementação de 0,3% do peso vivo. Depois, a gente eleva essa suplementação para 0,5%. E quando os bovinos passam de 300kg, mandamos eles para a RIP, que vai a 1,0% do peso vivo. Teoricamente, de 300kg a 400kg, a gente já inicia uma adaptação da TIP.
Ao término, para acabamento, a gente começa uma TIP com 2,0% e pode ir até 3,0% do consumo do peso vivo de ração para terminação da carne de qualidade.
Tem muito agricultor que pode ter preocupação com fazer uma ILP, por exemplo, por conta de compactação do solo. Qual é a experiência de vocês com isso?
Willian Matté: O que evita a compactação do solo, basicamente, além de uma boa condução do pastejo dos bovinos, é fazer um manejo do pastejo em que eles não fiquem no mesmo lugar o tempo todo ou por muitos dias. Isso é um ponto importante.
Mas os fatores mais importantes da compactação do solo são a presença e a abundância de raízes no sistema de solo, porque o que descompacta ou compacta é a ausência ou a presença de raízes. E a nossa experiência aqui, ao longo do tempo, com a experiência microbiológica aumentando, a gente começa a não ter problema nenhum de compactação, porque a gente cria mais agregados, tem mais matéria orgânica, mais porosidade, mais macroporosidade do sistema de solo. Então, para resumir, vida em raiz, basicamente, é o que a gente busca cuidar muito no sistema para que a gente não venha a ter esse tipo de problema.
Com o Encontro de Intensificação e Pastagens se aproximando, o que podemos esperar da sua palestra?
Willian Matté: Podem esperar temas sobre sistemas integrados em áreas irrigadas e não irrigadas, um sistema de pecuária de altíssima produtividade, melhorias no sistema de solo, integração entre mais de 20 espécies vegetais. Também abordarei a produção de carne de qualidade, um olhar para a carne produzida com sabor, não só com marmoreio, gordura e maciez, um entendimento de qualidade de carcaça em fêmeas terminadas em sistema de TIP. Elas vivem a vida delas inteira no sistema de TIP e de pastagem. Portanto, também temos números de avaliação, qualidade de carcaça, qualificação.
Esses são os pontos que eu pretendo abordar na palestra. Espero vocês lá!
Para ter oportunidade de tirar dúvidas sobre o sistema aplicado pelo grupo MeC, de Willian Matté, participe do Encontro de Intensificação e Pastagens. Acesse o site para saber mais.
Engenheiro agrônomo, produtor rural, sócio-proprietário do grupo MeC e Cortte19, com experiência em plantas de cobertura, integração lavoura-pecuária e produção de carne de qualidade em sistemas de TIP.
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