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Scot Consultoria

Bem-estar animal

Entrevista com a zootecnista, Camila Nomura Pereira Boscolo

Terça-feira, 9 de novembro de 2021 - 12h00
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Formada em Zootecnia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), Camila Boscolo realizou o mestrado e doutorado em Biologia Aquática pela Unesp, em Jaboticabal. Possui pós-doutorado em Biologia Animal pela Unesp, câmpus de São José do Rio Preto. Atualmente, é coordenadora e docente do curso de pós-graduação em Comportamento e Bem-Estar Animal e do curso de gradução em Zootecnia do Centro Universitário de Rio Preto (UNIRP) e sua área de atuação engloba comportamento, bem-estar e fisiologia animal.

Foto: Scot Consultoria


Scot Consultoria: Qual a importância do bem-estar dentro da produção animal?.

Camila Boscolo: Primeiramente temos que ver o bem-estar animal como uma questão moral e ética, pois, se sabemos que os animais são seres sencientes, temos a obrigação moral de fornecer melhores condições de vida para esse animal. O bem-estar animal é importante dentro de um sistema de produção, pois quando melhoramos a qualidade do bem-estar de um animal, isso significa que nós estamos tentando aproximar o ambiente em que o animal vive no mais próximo do que seria em seu ambiente natural. Assim, o animal se ajusta mais facilmente a esse ambiente, respondendo fisiologicamente com menores níveis de hormônios do estresse. Esses hormônios, chamados de glicocorticoides, são importantes e fundamentais para que os animais mantenham a homeostase (equilíbrio) de seu organismo. Entretanto, quando os animais são expostos a condições desfavoráveis, como altas densidades, problemas nutricionais, interações competitivas, instalações inadequadas, entre outras, eles não conseguem manter a sua homeostase e esses hormônios glicocorticoides aumentam, o que acarreta em redução da ingestão de alimentos, redução de fitness (aptidão reprodutiva), menor expressão de ganho de peso, problemas imunológicos, doenças e até mesmo a morte.

É importante salientar que todos os animais de produção sofrerão algum tipo de estresse durante a sua vida, e o nosso papel é sempre identificar, minimizar e tentar manter o animal em sua zona de conforto, pois além de melhorar a qualidade de vida do animal, reduzimos perdas no rendimento e aumentamos a qualidade do produto final.

Scot Consultoria: Como podemos avaliar o bem-estar animal dentro de um sistema de produção?

Camila Boscolo: Existem algumas formas de avaliar o bem-estar animal e uma delas é através do modelo dos “5 domínios” que foi proposto por Mellor e Reid (1994). O modelo considera quatro domínios que contemplam os estados internos ou físicos/funcionais dos animais, sendo: “nutrição” (domínio 1), “ambiente” (domínio 2), “saúde” (domínio 3) e “comportamento” (domínio 4). O comprometimento dos domínios físicos (domínios 1 a 4) é usado para inferir com cautela quaisquer experiências afetivas associadas ao domínio “mental” (domínio 5).

Esse modelo funciona como uma ferramenta de avaliação e gerenciamento de bem-estar animal e não deve ser considerado como uma representação fidedigna da relação entre estrutura e função do organismo animal, tampouco como uma definição de bem-estar animal. Além desse modelo, existem protocolos como o Welfare Quality® que podem ser utilizados para avaliação do bem-estar animal. O Welfare Quality® definiu quatro princípios de bem-estar animal: boa alimentação, bom alojamento, boa saúde e comportamento apropriado. Dentro desses princípios, identificaram-se 12 critérios diferentes, mas complementares entre si (tabela 1).

Tabela 1. Princípios e critérios para o bem-estar animal.

Princípios
Critérios
1. Alimentação Ausência de fome prolongada
Ausência de sede prolongada
2. Alojamento Conforto em relação ao descanso
Conforto térmico
Facilidade de movimento
3. Estado sanitário Ausência de lesões
Ausência de doenças
Ausência de dor pelo manejo
4. Comportamento Expressão de comportamento social adequado
Expressão adequada de outras condutas

Elaboração: Scot Consultoria

Scot Consultoria: Bem-estar animal significa necessariamente custos maiores?

Camila Boscolo: Como toda produção, seja de origem animal ou vegetal, ao falarmos em custo de produção, toda e qualquer atividade que envolva certificação de seus produtos envolve custos adicionais. Entretanto, esses custos são compensados, pois estamos agregando valor ao produto, ou seja, o preço de venda também é maior. Um exemplo são os ovos cage free, que hoje (novembro de 2021) são vendidos a R$10,90 para uma cartela com 10 ovos, enquanto uma cartela de ovos produzidos em sistemas convencionais é vendida a R$9,90 com 12 unidades.

Scot Consultoria: Camila, quais os avanços relacionados ao bem-estar animal você tem visto recentemente considerando a bovinocultura?

Camila Boscolo: Podemos citar casos relacionados à bovinocultura de leite em que uma propriedade de Minas Gerais (Fazenda Zuniga) adotou o sustentador de úbere para vacas. Esse aparato ajuda a melhorar o conforto para animais que possuem frouxidão no ligamento do úbere ou que apresentam edemas pós-parto. Nessa mesma propriedade  são utilizadas mantas térmicas para bezerros com o intuito de ajudar no enfrentamento do estresse térmico pelo frio.

Na bovinocultura de corte podemos citar o uso de música clássica, como exemplo, no Spa Bovino Beef Passion na cidade de Nhandeara/SP. É conhecido cientificamente que a música clássica traz vários benefícios tanto para os seres humanos, como para os animais, pois ela estimula um ramo do nervo vago situado na orelha interna, causando aumento da liberação de dopamina, o que promove maior sensação de bem-estar. Como o nervo vago é um dos ramos do sistema parassimpático ele atua como mensageiro para redução da pressão arterial, frequência cardíaca, inflamações, entre outros.

Scot Consultoria: Na avicultura, o modelo cage-free tem ganhado espaço no mercado?

Camila Boscolo: Sim, mas vamos entender o que são aves criadas em sistema cage-free. Esse sistema de produção não só dispensa, mas abomina qualquer tipo de confinamento em galinhas, respeitando princípios do bem-estar animal. Empresas como McDonalds e Carrefour estabeleceram metas de utilizar em seus produtos e vender em suas lojas ovos de galinhas livre de gaiolas até 2025.  A empresa BRF cumpriu o seu compromisso de utilizar em seus produtos ovos de galinhas livres de gaiolas 5 anos antes do prazo estipulado pela própria empresa.

Quais indicadores podemos utilizar para assegurar que sistemas cage-free favorecem o bem-estar das aves em relação ao sistema tradicional?

Camila Boscolo: Primeiramente, é importante que tenhamos um meio para comprovar que, de fato, o animal é mantido em condições apropriadas e de acordo com que o sistema cage-free impõe. Esse meio para a comprovação de qualquer sistema de produção com bem-estar existe sim. É o selo de certificação em bem-estar animal, como por exemplo, Certified Humane, Produtor do bem, entre outros.

O selo de certificação irá assegurar que as aves sejam mantidas de acordo com as exigências para a espécie, como por exemplo: as galinhas ficam livres para circular, têm acesso a água e comida e não precisam competir indevidamente. As aves têm a possibilidade de exibir comportamentos naturais da espécie como alçar pequenos voos, tomar banhos de areia ou mesmo construir seus ninhos. Além disso, a debicagem severa não é permitida – somente a apara de bico em até 10 dias de idade, como medida preventiva de acordo com as normas de bem-estar animal. Assim, fica muito claro  que as aves criadas em sistemas cage-free favorecem o bem-estar quando comparado a um sistema convencional, aonde a ave tem seu espaço e comportamentos limitados, além de não poderem fazer escolhas sobre o ambiente em quel a ave deseja estar.

Scot Consultoria: Os peixes estão sendo mais aceitos como animais sencientes, ou seja, como seres que possuem capacidade de sentir e apresentar sentimentos subjetivos como dor e desconforto. Alguns aspectos do atual sistema de produção da criação de peixes têm sido repensados desde então, ou ele já cumpre protocolos de bem-estar animal?

Camila Boscolo: Abordar o bem-estar de peixes é uma tarefa um tanto quanto desafiadora, pois, quando falamos em peixes estamos lidando com um grupo taxonômico enorme com mais de 25 mil espécies, o que reforça a importância de estudos com as mais variadas espécies, principalmente as espécies de produção. O Brasil é o 4º maior produtor de tilápia do mundo, então, devido à sua importância no sistema de produção podemos focar nessa espécie, sendo o estado do Paraná detentor da primeira posição com a produção de 166.000 toneladas de tilápia em 2020.

O método mais utilizado para insensibilização no Brasil é a termonarcose, ou seja, é a imersão dos animais em gelo ou água gelada. Esse é um método que expõe os animais a um sofrimento intenso e prolongado, pois o gelo não insensibiliza, assim, o animal permanece imóvel devido a paralisia pelo frio, causando a falsa impressão de anestesia/insensibilização. A perda de consciência nesse método é em média de 15 minutos, o que torna o método ineficaz e não humanitário.

Apesar de não haver legislação específica que albergue os métodos de abate em peixes, a OIE reconhece que a escolha do método de abate é variável entre as espécies e é importante para garantir o bem-estar de peixes e o método por imersão em gelo resulta em baixo grau de bem-estar e deve ser evitado. Assim, os métodos recomendados e considerados humanitários para insensibilização na tilápia-do-nilo são eletronarcose ou atordoamento percussivo.

Scot Consultoria: Na sua opinião, os consumidores têm valorizado mais o bem-estar animal dentro da produção animal? Essa tendência tende a aumentar no futuro?

Camila Boscolo: Sim, com certeza. As pessoas têm feito escolhas cada vez mais baseadas no consumo consciente, e fazer as melhores escolhas impacta positivamente a vida no planeta, melhora a qualidade de vida dos animais, o meio ambiente e a economia. As escolhas que o consumidor faz forçam ou incentivam que os produtores se adequem aos nichos de mercado.

Na verdade, essa é uma tendência atual e que tem aumentado no presente e aumentará muito no futuro, e dessa forma, teremos que nos adequar às normas de exportação de produtos de animais produzidos de acordo com as normas de bem-estar animal.


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